segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] por dizer

haverá ainda muito mais por dizer, por contar, sobre as correntes d'escritas deste ano. mas é por isso mesmo que todas as nossas acções são reflexos de outras acções que tivemos no passado e que, sabemos, se repetirão no futuro.

[correntes 2009] olhar para trás

dez anos passaram desde as primeiras correntes d'escritas, esta foi a quinta vez que estive presente. já fui à póvoa de varzim em várias condições: como simples espectador em 2005, para falar numa das mesas e apresentar um livro, como editor, como autor e editor, e também acompanhando o evento neste directo diferido do blogue. a cada ano, a mesma sensação de estar numa casa que conheço cada vez melhor. claro, com as suas dores de crescimento, com uns dias melhores e outros piores, mas casa, uma casa que sinto como minha também. a cada ano, novas amizades e cumplicidades se criam. a cada dia, cresce a onda daqueles que são os amigos da póvoa, que no mínimo encontramos uma vez por ano, com quem ficamos noites inteiras no bar do novotel, com quem damos passeios a pé, com quem nos sentamos a ouvir atentamente as apresentações daqueles que são muito mais sábios do que nós. depois, ir à póvoa é sempre uma oportunidade de me ver ao espelho, de poder olhar para dentro de mim outra vez, naquele lugar. e saber agora que sou alguém muito mais seguro de mim e do que faço. saber que existem paixões que são intensas como um dia que nunca acaba. saber que algumas pessoas vão sempre ficar comigo, em mim. saber que envelhecer, para mim, deveria ser tornar-me num velho escritor sul-americano.

[correntes 2009] um mestre

há qualquer coisa de grande na forma como hélder macedo fala, olha e caminha. será, certamente, como estar perto de um mestre.

[correntes 2009] Viseu

converso com amadeu baptista sobre a poesia e sobre viseu, cidade onde ele mora. talvez, em certa medida, viseu seja parecida com torres vedras, e por isso nos encontramos de acordo em muitos pontos. talvez a poesia seja isto mesmo: encontrar o caminho pelo meio de uma estrada esburacada.

[correntes 2009] a fazer pelos livros

as correntes d'escritas, em dez anos, já fizeram muito pela publicação de vários autores latinos e africanos em portugal. os rumores dizem que lêdo ivo será, finalmente, publicado por cá. agradecemos aos deuses.

[correntes 2009] domingo

domingo de manhã, fazem-se as despedidas no hall do hotel. há sempre um misto de alegria e tristeza nestes momentos. e promessas de reencontro, com prazo, até para o ano.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] poveiros

homenagem aos resistentes da organização, que nos aturam até esta hora:
manuela ribeiro
francisco guedes
clara casanova


vocês estão a fazer com que isto aconteça.

[correntes 2009] baile

hoje, ao jantar, houve baile. vários grandes escritores portugueses dançaram durante algum tempo na pista de dança, ao som de músicas pimba do brasil, segundo a versão de alguns dos presentes. posso dizer que há um grande poeta português que não voltarei nunca a ler da mesma maneira. aquilo não são maneiras de dar aos braços, amigo. não são.

[correntes 2009] onde estas, rapaz?

ondjaki, anda cá bailar connosco. e, já agora, fazer-me companhia para o pequeno-almoço.

[correntes 2009] antena 2

era 1h20, o luís caetano vem chamar-me para uma entrevista. lá para março, poderão ouvir-me na antena 2 a ler a cabeça de fernando pessoa.

[correntes 2009] no te vayas manuela

o coro exige, manuela dança

[correntes 2009] noite

são quase cinco da manhã e há música no bar do hotel. a festa não pára!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

recado aos que se preocupam

sim, ando com uma vontade fodida de escrever.

[correntes 2009] sábado de manhã

o sábado de manhã é o momento mais lento das correntes. o mundo em que nos espreguiçamos mais devagar, sabendo que as coisas se aproximam do fim. é também o momento de saborear a forma de se respirar nesta cidade, neste encontro. o momento de saber que podemos sorrir ao estar aqui.

[correntes 2009] a mão procurando a temperatura da água

o mundo seria, certamente, mais fácil se fosse a preto e branco. de preferência, sempre em festa, claro. mas não, não é. o mundo é feito de pequenos pormenores, em que se mede a temperatura das coisas, fazendo com isso que os corpos possam alargar ou diminuir, consoantes os gestos e as tomadas de posição. não será de todo evidente aquilo que passa dentro de nós. cada um escolhe, um pouco, a imagem exterior que tem para apresentar, podendo essa ser mais ou menos fiel ao que se passará dentro de cada um.

seria, certamente, mais fácil, se pudessemos decidir sobre o que está bem e o que está mal, se pudessemos discernir, em todos os momentos, de que lado a razão está e como se materializa ela nas nossas acções. e estamos a falar em questões de princípios e de afirmações (do dentro e do fora de nós). estamos a falar das maneiras de nos construirmos, não só enquanto pessoas, mas enquanto seres sociais que se relacionam entre si.

estar do lado dos fortes, não é simples, requer de nós uma dose de esperança e de crença nas nossas capacidades, colocando-nos à prova no território dos maiores. aí, só sobrevivem mesmo aqueles que têm a capacidade de sobreviver (e não existem meios termos, talvez por isso mesmo aí é preciso ter uma forte noção do preto e do branco onde as coisas se podem arrumar). estar dos lado dos fracos, até certo ponto, pode parecer a solução fácil: estamos escondidos daquilo que é o realmente mais importante (e aqui estou a utilizar uma formulação do mundo dos fortes). há, no entanto, aqueles que se propõem a estar ao lado dos fracos, colocando-se como interlocutor com os fortes. aí, não há rede. muito facilmente és espezinhado, se não souberes como e quando agir. por isso, em certos momentos, tens que ser muito mais rijo do que aquilo que realmente és. e, noutras vezes, tens que fingir que aceitas a magnamidade de quem pensa que te está a dar a mão, sem morderes, só porque há uma jornada a seguir onde tu também marcarás presença.

a vida é mesmo assim, cheio de pormenores. no fim, ganha quem souber melhor com eles. mas não nos podemos esquecer que qualquer vitória ou derrota acontecer no campo mais íntimo de cada um de nós. ninguém vai acabar por dominar o mundo.

[correntes 2009] ei-los que chegam

sim, continuam a chegar. ontem ao final foi a vez do gonçalo m. tavares, que me pediu ajuda para conhecer alguns dos brasileiros que por cá estavam. como sempre, amável e interessado nas coisas que se vão fazendo, pequeninas. à noite, na mesa, brilhou. há um pedacinho de todos nós que adoraria ser como o gonçalo m. tavares.

[correntes 2009] paulo bandeira faria

o paulo bandeira faria veio de Vigo para estar comigo, na apresentação deste meu livro. certas coisas são de difícil explicação, e a proximidade que criámos com a leitura dos livros um do outro, não é de explicação óbvia. a verdade é que partilhamos mundos e discursos, e tivemos o prazer de conversar enquanto a noite se ia tornando mais fria, na póvoa de varzim. trocamos presentes, livros, como sempre, segredos e sorrisos. a amizade é feita disto mesmo.

[correntes 2009] há boatos e boatos

durante o encontro, vão surgindo notícias sobre o mercado editorial. independentemente de quem o tenha revelado ao público, percebe-se que essa notícia fez um caminho, de alguém que sabia, até alguém que se sentiu à vontade para o divulgar. algumas caras não escondem a insatisfação com essa história. a verdade é que algumas pessoas aqui presentes estão sob uma pressão inaceitável: existe uma necessidade de mostrar serviço e apresentar resultados que, mais tarde ou mais cedo (e isto era uma coisa que já o ano se previa) iria criar algum mau ambiente. que essas pessoas se sintam insatisfeitas com a posição em que a evolução do mercado as colocou, é algo que eu, tal como elas, lamento. que não tenham a capacidade de o digerir convenientemente, é algo que nos faz, a todos, perder um pouco.

[correntes 2009] oito minutos

na mesa em que foi apresentado o meu livro, o primeiro autor a falar, um conhecido poeta, usou e abusou dos oito minutos que lhe cabiam, prolongando a sua apresentação por quase vinte minutos, de explicações um tanto vazias sobre o título do seu livro e lendo qualquer coisa como oito poemas (ou talvez mais) do seu livro. o incómodo da sala era evidente. alguém tinha mesmo que o mandar calar.

[correntes 2009] apresentação de A Cabeça de Fernando Pessoa

já nasci várias vezes na Póvoa de Varzim. em 2006 estive aqui presente para apresentar o meu primeiro livro, e nunca mais tendo faltado a nenhuma edição das correntes, apresento-me aqui hoje para apresentar o meu quinto livro, A Cabeça de Fernando Pessoa, que de certa forma me faz sentir como encerrando um ciclo. a edição deste livro devo-a, essencialmente, ao Ozias Filho, meu editor, uma das pessoas mais especiais que tive a oportunidade de conhecer, e da qual me orgulho de ser amigo, no mundo da edição.

há dias estive numa apresentação em que o apresentador do livro decidiu ler o índice e comentar cada título aí descrito. a meio da sessão, um pessoa levantou-se da plateia e disse, "se apresentar o livro inteiro já não o vamos precisar de o ler". por isso mesmo, não vou falar muito do meu livro.

A Cabeça de Fernando Pessoa é uma homenagem à tradição da poesia portuguesa, em forma de provocação, como o próprio título indica. foi a minha forma de agradecer, na minha poesia, a todos aqueles que, construíndo uma tradição poética, nos permitem estar aqui hoje, na póvoa de varzim, a falar de livros e a tentarmos ser felizes.

(a apresentação terminou com a leitura do poema A Cabeça de Fernando Pessoa)