estavamos à porta da escola quando me disseram que ela estava grávida e eu não acreditei porque ainda há pouco tempo a tinha visto com um vestido de verão bem curto que demonstrava as aparentemente intactas formas da sua beleza.
estavamos à porta da escola e a história era diferente, um pouco mais trágica, aliás. ela tinha estado grávida mas não viria a ser mãe, tinham arranjado dinheiro, ela e o namorado, e procurado uma senhora que a podia ajudar com o incómodo.
ela era a rapariga mais bonita da escola, uns olhos verdes que pareciam brilhar no escuro dos dias em que entravamos às oito da manhã e ainda era de noite, os cabelos louros escorridos, a boca desenhada, o corpo sonhado das mulheres que, para além dela, só podíamos ver nas revistas.
ela era a rapariga mais bonita da escola e uma noite disse à mãe que ia tomar café, o namorado levou-a a casa desse senhora, pagou em notas angariadas junto de um tio compreensivo, e a senhora ajudou-os a desfazer o equívoco que seria uma gravidez adolescente.
vi-a uns anos mais tarde. mantinha a mesma face angelical mas em tom bem infeliz. a confiança dos seus anteriores passos estava agora hesitante em frases que parecia apenas gaguejar. era a rapariga mais bonita da cidade e não tinha namorado, dizia ela que já não sabia amar.
vi-a uns anos mais tarde. depois do café com o namorado, ele levou-a ao hospital. que era normal, dizia a senhora, as dores o sangue. ela sentiu que a olhavam de lado, telefonaram à mãe que logo percebeu. disseram-lhe que nunca mais teria filhos.
era a rapariga mais bonita da cidade, andava como se chorasse e gaguejava triste a ajuda que tinha recebido. sorria só quando um antigo colega de escola a encontrava. sorria porque aqueles olhos a tinham visto como a rapariga mais bonita da escola. agora, dizia ela, já não sabia amar.
(...)
Há 18 horas