apagou a luz da sala e deixou o disco de fados a correr, aos saltos de agulha conforme aos riscos da sua própria vida, era isso que imaginava, ali, no escuro, a ouvir a voz de um homem forte como ele, com lágrimas como ele, cansado e farto de toda a vida como ele, cheio de esperança, assim, como ele.
do escuro só a ponta avermelhada do cigarro se via, os seus gestos eram agora quietos e a respiração confundia-se com os riscos no disco, os saltos na cantiga do fadista, esforçado que estava a tentar falar de algumas coisas que só os homens percebem, quanto se tem certa idade e se apaga a luz da sala.
fazer balanços? pensar em passados? para quê? não, não estava preparado para esses dramas de final de ano, nem para promessas sem sentido que tinha por costume fazer na juventude. a luz apagada, o fado a correr, e na sua cabeça a imagem que tinha dele próprio, dentro de um elevador, quando se viu de cabelos brancos por inteiro.
o fado a correr e o cigarro quase a apagar-se. não é esse o tempo da vida mas é esse o tempo de um texto, um texto que se escreve a ouvir um fado pelo meio da madrugada. os olhos fechados e essa imagem, de uma velhice que se anuncia ou talvez tenha chegado já. e o que restará, para além do brilho desses olhos chorosos, é a voz, não de homem, mas de um rapaz que adormece.
(...)
Há 18 horas