segunda-feira, 9 de outubro de 2006

apontamentos para um romance (1)

ele saboreava o seu café enquanto na televisão o programa matinal gritava a dose de histeria mediática requerida para se poder ter uma conversa com um português médio na pausa para o almoço. era um não sei quê de vedetas e capas de revistas um tanto incompreensíveis para a sua cabeça ainda congestionada pela noite longa agarrado a um quixote de cervantes. ela entrou na sala.

ele poderia considerar normal que ela lhe puxasse as orelhas com a mesma força com que se levanta um armário que se tem há muito tempo na mesma posição em casa dos pais. as lágrimas que lhe vieram aos olhos foram sugestiva e imediatamente lambidas pela língua ávida dela, em movimentos menos que circulares, insistentes e gulosos. ela estava nua e o cheiro do seu corpo arrebatou toda a sala, sobrepondo-se ao vapor do café quente. ela estava também a ferver.

ele deixou-se levar, gostava de ser manipulado pelos desejos dela, materializados em pequenos movimentos de aproximação, mãos levianamente curiosas, botões desapertados sem que ele desse por isso. ela conquista-o a cada gesto, a cada aproximação e ele adora-a, assim, apaixonada e desejante, como ele. esqueceram-se do café e da televisão ligada, das horas e das doses de mediatismo necessárias para o que fosse. o jogo agora era todo no sofá.