sábado, 8 de julho de 2006

diziam

diziam que não tinha jeito para crianças, que era esse o seu medo: se ao longe, na rua, uma pequeníssima criatura se aproximava, correndo, gritando aquela inconsciência de ainda se lembrar de ter nascido, ele virava costas e procurava a primeira porta onde se proteger. sim, dentro de portas, sentia-se protegido, por estranho que pareça. um vez, na cidade, chegou mesmo a entrar dentro de um infantário e a respirar de alívio.

diziam que não suportava ver uma mulher a chorar, que esse era mesmo o seu medo: trazia lembranças de quando era pequeno, do dia em que bateu à porta, solene e sussurrante, a notícia da morte do seu pai. durante semanas, a mãe chorou à janela, na esperança de um regresso, depois chorou pelos corredos, esperando vê-lo sair de alguma das salas da casa, e finalmente chorou no quarto, à espera de acordar do pesadelo. nunca se esqueceu desses rios de choro materno, e só encontrava sossego no choro fácil dos crocodilos.

diziam que não gostava que lhe tocassem, que era o seu pânico esse, sempre: era-lhe difícil sair à rua, sempre no receio de um raspão que fosse, numa esquina, junto à montra de uma loja de electrodomésticos. comprar, não podia comprar nada, por não suportar a possibilidade de um toque, de um simples deslizar de mão na mão na altura de receber o troco. respirava fundo sempre que queria tomar um café (as máquinas de serviço automático tantas vezes avariadas, que desespero). descansava só quando em sua casa, recebia a visita das suas vizinhas, que o abraçavam ternamente, dizendo flores ao ouvido.