Depois de ontem
aqui ter plantado uma dúvida que me foi suscitada pela leitura do texto de Luís Miguel Queirós no Ipsílon, e dessa dúvida ter levado a um
comentário alongado do Henrique Fialho sobre o assunto, tento hoje, feita uma segunda leitura do texto primeiramente mencionado, descobrir algumas pistas para comentar a pergunta "Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?".
Como o próprio Queirós indica no seu texto, "uma certa ansidade contemporânea pela descoberta" joga, a maior parte das vezes, tanto contra os actores como contra o próprio público. Tantas e tantas vezes, à efusividade da descoberta de algo novo, segue-se a natural desilusão de quem não viu bem, não entendeu bem que o novo, para o ser realmente, precisa de tempo para envelhecer. Na poesia, em toda a Arte, esta regra é ainda mais fulcral que noutras áreas: o jovem poeta ainda não teve o tempo necessário para ler e compreender, largamente, aquilo que veio antes dele, e vive na constante iminência de vir a não se auto-reconhecer naquilo que escreve enquanto novo autor. Com isto pretendo, de entrada, defender aqueles a quem se tenta colar o rótulo de novo: o ruído mediático é um inimigo feroz da poesia, tanto quanto pode ferir o silêncio.
Esperar-se que um jornal, mesmo que um suplemento cultural, faça a resenha de um movimento ou de uma geração é, ainda, esperar de mais. A principal crítica que se poderá fazer ao texto de Queirós é não ficar claro, em momento algum, se estamos perante uma reportagem ou um artigo de opinião. Essa hibridez joga contra o texto. Soa um pouco como uma tentativa de compensar a falta de atenção que se dá a poesia com um fácil engano: jogar a poesia para a primeira página quando ninguém está habituado a encontrá-la sequer na última. Isto deixa em cheque tanto quem escreve como quem lê. Mas eu não me venho aqui queixar do destaque que se dá: para quem vive na poesia e pela divulgação da poesia, qualquer esmola é satisfatória e permite acreditar que o futuro, se o houver, será melhor.
Queirós confirma no seu texto algumas verdades há muito constatadas: a poesia, mesmo a famosa, pouco ou nada vende, as livrarias, na sua maioria, não lhe reservam espaço, os jornais tanto menos, as editoras olham-na como uma possibilidade de prestígio mais do que um verdadeiro programa editorial. Se olharmos o panorama editorial português, só a
Deriva cumpre enquanto editora de poesia: tem um programa editorial constante, pensado, em que a apresentação dos autores resume um posicionamento sobre o fenómeno poético. A isso junta uma capacidade de estar presente na maior parte das livrarias nacionais, através de uma distribuidora consistente. Mais nenhuma editora cumpre estes requisitos, programa e distribuição, para além de que os livros desta editora, sedeada no Porto, têm gozado, na imprensa, até de alguma atenção, com anúncios de publicações e críticas.
Mas o ponto inicial do texto de Queirós vem trazer à discussão um tema que tem dividido os leitores e os poetas portugueses desde os anos 70: precisará a poesia de um crítico que a justifique? Serão as gerações coisas de críticos e não de poetas? Que contributo poderá dar um crítico a uma geração? Falo disto também num tempo em que a crítica da poesia, e de toda a literatura, passou a ser coisa de jornal, e os jornais, então, coisa de leitura rápida e facilmente esquecida. Se Manuel de Freitas e Pedro Mexia, pertencentes a essa "nova geração" de que Queirós fala, são os críticos dos anos 90, que contributo têm dado, ou estão dispostos a dar, para a produção de material crítico sobre os poetas do séc.XXI? A meu ver, estará aqui o engano, não só deste texto, mas da própria ideia de geração na poesia, pelo menos na actual poesia portuguesa. Uma geração que não se conhece, nem reconhece, que pouco se encontra, que não fala e não discute, é uma geração que não existe. Faria todo sentido juntar, numa lista de novíssimos (ou de outra coisa qualquer) gente que publicou já sete livros a gente que não publicou nenhum se, de facto, fosse gente que trabalhasse em conjunto, se reunisse para problematizar o que é ou não é a poesia de agora. Mas como isso não acontece, não fazemos mais do que jogar à sorte a possibilidade de adivinhar um novo poeta num só poema.
Não acreditando em gerações, eu, não acredito mesmo nada numa geração do século XXI. Porque esta nossa capacidade de encontrar "um qualquer obscuro poeta norte-americano" nos tem tirado, muitas vezes, a vontade de ir até a uma biblioteca folhear aqueles que, antes de nós, escreveram na nossa língua. E não há geração sem língua, sem história. Os melhores de nós serão aqueles que até mais tarde souberem reinventar a sua língua e a sua poesia. Isso dar-lhes-á a possibilidade de, então, apontar para entre os jovens que serão a novíssima geração do segundo quarto do século XXI. A única certeza que temos hoje é que, nesse gesto, iremos, com certeza, acertar ao lado.