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sábado, 10 de novembro de 2007

os franceses

os franceses apanham aviões de madrugada com destino a Lisboa onde se queixam do calor. os franceses apanham táxis (e os taxistas, que eu saiba, nem sempre são muito simpáticos, nem sequer conhecem o Fernando Pessoa). os franceses encontram-se em salas onde sorriem perante as memórias de passados encontros em Paris ou em Frankfurt. os franceses fazem contas. os franceses têm dinheiro. os franceses sentam-se à mesa de restaurantes a falar daqueles que não são franceses. os franceses preocupam-se com a sua filosofia. os franceses preocupam-se com a filosofia dos outros. os franceses preocupam-se com a forma como a filosofia dos outros trata a sua própria filosofia. dos franceses que vivem em portugal, nem todos são franceses (temos belgas, por exemplo, belgas que são como os franceses, não belgas dos outros). os franceses não acreditam como se aguenta aqui com o que se ganha por cá. os franceses têm tempo. os franceses têm visão. os franceses já não dão assim tanto o corpo ao manifesto. os franceses gostam de descansar. os franceses gostam de se divertir. os franceses fazem coisas lindas. os franceses estão convencidos que todos nós devíamos ser como os franceses (e, pelos franceses que conheço, até me parece que não seria mal de todo). os franceses são fixes.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

correntes - 161

"I didn't want to tell you this way, yelling it, and I'm sorry I did, but I'm tired of hiding. I'm a lesbian, and Roxy and I, we're not just friends like you think, we're-"

Nancy Garden, Hear us out! Lesbian and Gay Stories of Struggle, Progress, and Hope, 1950 to the Present, pág.161

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

assim se fazem encontros de escritores

para se ir a um encontro de escritores não é preciso acreditar em encontros de escritores, esta é uma verdade da qual eu nunca me vou esquecer. para se ir ouvir um escritor a falar, também não será preciso acreditar que os escritores falam. finalmente, para se acreditar que estes encontros existem, bem, a verdade é que eles existem e um deles realizou-se no passado fim-de-semana. atrevo-me a fazer um pequeno balanço, provavelmente para o recordar no futuro, quando voltar a ter que organizar um outro.

o encontro iniciou-se na sexta-feira de manhã, com leituras de contos para crianças em quatro escolas do concelho de Torres Vedras. sucesso total. as crianças deixaram-se envolver pelas contadoras de histórias e as professoras provaram um pouco deste encantamento que nasce nos livros. aposta ganha, a repetir sempre que possível, no futuro.
sexta-feira à tarde, conversa para graúdos sobre os miúdos - e o momento mais agridoce do encontro- uma mesa repleta de diamantes para uma plateia vazia. falou-se da avó da Ana Meireles e da influência que ela teve na forma de contar histórias da Ana, falou-se nos livros que o Zé António compra para os netos, falou-se na leve desilusão da Isabel Martins ao ter que encarar as forças do mercado, sentiu-se o realismo emocionado (ia dizer realismo mágico...) da Mafalda Milhões ao falar da sua experiência de todos os lados do livro (uff!) e pudemos aproveitar a presença da Dora Batalim para perceber como os livros para crianças podem ser livros para toda a gente e mais alguma, basta ter as antenas bem sintonizadas para as coisas que fazem mover as emoções. a esta conversa toda, ainda se seguiu um lanche na livrododia, para repor forças e para começar a acreditar que as coisas só podiam melhorar. e era verdade.
logo pela noite de sexta-feira, casa cheia na cafetaria do nosso espaço no centro histórico para me ouvir a mim, ao Mário Lisboa Duarte, à Rute Mota e ao Ozias Filho a ler poesia. Este quarteto funcionava aos pares. a Rute e o Ozias embalados pelo silêncio, com a Rute a ler exclusivamente originais e o Ozias a passear-se pela poesia brasileira, eu e o MLD num registo mais furioso, entre originais e traduções, produção própria e roubada aos melhores inventores de sensações em verso. não digo que foi um brilharete, mas tenho a certeza que agradamos a gregos e a troianos (o que nos tempos que correm...). e bem, mais uma vez, a seguir à seriedade da poesia, ainda houve tempo para nos passearmos até um dos bares da cidade. mas só para molhar o bico, porque o sábado estava logo ali.

o sábado começou cedinho, com a repetição das leituras para crianças na esplanada da livrododia, apanhando os pais e os miúdos que iam de passagem, mais uns quantos que já tinham reservado espaço na agenda para se virem sentar no nosso tapete a ouvir as aventuras da formiga, da cabra cabrês, do Willy Fogg, do Sr. Peabody e tantos outros... o coração estava apertado para a tarde (tendo em conta a falta de público da tarde anterior), mas ver a alegria e a atenção daqueles míúdos deixou-me mais confiante. e foi assim que a tarde se revelou cheia de surpresas. primeiro que tudo, conhecer pessoalmente (até que enfim!) o Paulo Bandeira Faria, um tipo cheio de graça e à vontade, embrulhados numa figura interessante e de voz baixa, que conquistou a atenção da plateia para a história do seu livro e para as suas aventureiras viagens. é disto que se fazem os escritores (e acho que não estou aqui a revelar nenhum segredo se disser que durante o jantar se falou das possíveis novidades do Paulo, em termos editoriais, e a sensação é de que vem aí ainda melhor). também não posso deixar escapar o contributo apaixonado da Inês e a lírica rasa à terra da Golgona, que cada uma ao seu estilo souberam incendiar na plateia uma vontade imensa de botar de discurso, o que se veio a materializar na mesa de debate mais concorrida do encontro. no intervalo dos debates, aproveitou-se para fazer a apresentação da Palavra Ibérica, iniciativa que junta o Ayuntamento de Punta Umbria, a Sulscrito, a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e a Livrododia, na organização de um encontro de escritores, de uma colecção bilingue dos dois lados da fronteira e de um prémio literário. o Fernando Esteves Pinto (no seu estilo de stand up amargurado) e o José Carlos Barros (que se viria a revelar como rei da festa) asseguraram comigo a apresentação. e logo se seguiu a última mesa em que a o Nuno Seabra Lopes, com a metafísica económica, fez uma caracterização certeira do mercado, o José Prata revelou-nos o intricado mundo das apostas e dos sucessos editoriais e o Miguel Real, em dia de lançamento do seu novo livro, teve tempo para nos dar uma lição sobre crítica literária no século xx. foi uma tarde inesquecível, onde os contactos e os conhecimentos que se proporcionaram auguram renovadas esperanças na possibilidade de encontros como este.

escusado será dizer que a festa ficou por aqui. houve jantar, houve conversa, houve bares e discotecas que prolongaram o acontecimento até ao raiar do sol. cada um à sua maneira contribuiu para o sucesso desta iniciativa e aos que ficaram, sobram agora forças e esperanças para a repetição de um encontro como este.

há que agradecer ao académico de torres vedras e à livrododia a organização do evento, à fundição de dois portos o patrocínio, à câmara municipal de torres vedras, ao hotel império e aos seguros nova torreense os apoios dados ao evento. eu, pessoalmente, tenho que agradecer sobretudo a todos aqueles, quer na organização quer entre os convidados, que vieram de coração aberto viver comigo estes dois dias tão cheios. a todos, o meu obrigado.

sábado, 29 de setembro de 2007

Alegrias Sociais-democratas


Porque, de vez em quando, o PSD dá-me destas alegrias. O país recupera um pouco de cor, e o stand up volta aos palcos da política.
That's the way I like it!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Nós e os outros

26 a 1, é este o resultado da tentativa de instituição de um dia europeu para a abolição da pena de morte. A Polónia, em época eleitoral, e na tentativa de agradar ao eleitorado católico, coloca no mesmo saco pena de morte, eutanásia e aborto. A proposta da comissão fica sem efeito.

Não me parece que se tenha a União Europeia para estes jogos, embora reconheça que eles são recorrentes. Não me parece que as regras devessem ser as da unanimidade, pois os braços no ar também já foram colocados de lado. Não me parece, finalmente, que o povo católico, em tempo eleitoral ou fora dele, tome como atestado da sua própria inteligência, uma saca de pena de morte, eutanásia e aborto.

Temo bem que esta classe política não sirva mesmo para nada. Tal como temo que a forma como são comunicadas decisões e resultados, à escala global, se torne apenas numa fórmula muito simples de lançar a confusão à volta de uma fogueira que vai ser esquecida nas primeiras páginas, mas que resistirá em lume brando dentro das nossas consciências. Como a História nunca acaba, já podemos prever as consequências.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Bombas e Cabeças de Vácuo

Alguma imprensa nacional dá hoje destaque aos sucessos da nova Bomba de Vácuo produzida pela Rússia que se anuncia como "um projéctil relativamente barato com alto potencial destrutivo", acrescentando-se que esta bomba, "vinte vezes superior ao projéctil norte-americano quanto à superfície de destruição, quatro vezes mais potente e [que] gera uma temperatura duas vezes superior no epicentro da explosão", tem até preocupações ecológicas, visto não deixar rasto de contaminação como deixava a bomba atómica.

Confesso que ouço e leio esta notícia com alguma incredulidade. Do que se está a falar aqui é de uma bomba com alto potencial destrutivo, uma clara ameaça de crescimento da corrida ao armamento das mais paranóicas nações mundiais. Para mais, o responsável russo que anunciou o feito declarou que, com esta arma, a Rússia se encontra preparada para enfrentar a ameaça terrorista, frase da qual apenas posso retirar que o objectivo de ter tal bomba é poder, no futuro, destruir um país ou região por inteiro sem ter que lá pôr os pés.

Era realmente uma ilusão pensar que, por um destes dias, íamos mesmo conseguir viver num mundo diferente...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Festa do Avante


É completamente diferente uma Festa do Avante onde se vai para trabalhar e uma festa onde se vai só para usufruir. Chamem-me workaholic mas trabalhar na Festa é das experiências mais fantásticas que pode haver, especialmente se for durante bastante tempo, como me aconteceu um ano, em que tive a oportunidade de trabalhar na festa desde o início do verão, onde toda a quinta é apenas um imenso relvado verde, até ao último dia da festa, onde se começam a desmontar algumas das bancas. Nesse período, a festa é vivida com a maior das intensidades.

Depois de ter saído do PCP, em 2001, voltei duas vezes à Festa. Em 2005, por uma variedade de concertos e peças de teatro que me interessavam muito ver, e este ano, porque me apetecia viver o espírito e porque havia um concerto que eu não perderia por nada deste mundo. Esse concerto era o dos romenos Fanfare Ciorcalia, que se apresentaram com vários convidados de Espanha, Bulgária e Macedónia. Foi um concerto fantástico, com todos os ingredientes expectáveis, uma festa dentro da festa. Pelo concerto valeu imenso a pena. Foi provavelmente dos melhores concertos a que assisti na vida. De resto, assisti a poucos concertos e todos eles pouco entusiasmantes (não estive na festa sexta-feira, onde a Cantata de Outubro parece ter sido do melhor também).

O resto do tempo ocupei-me a passear pela Festa e saboreei o outro lado, o lado da Bienal, da Exposição sobre a Revolução de 1917 no Espaço Central, a variedade de cheiros, sabores, cores e músicas do Espaço Internacional, todos os atractivos da Festa nas representações das várias Organizações Regionais. Este ano voltou-se a sentir alguma paz na festa, já passou tempo suficiente para que as animosidades da guerrilha renovadores /ortodoxos estejam agora retraídas. No fundo, as pessoas aceitam-se, tal como elas são. O que eu vi este ano na Festa é que estamos todos um pouco mais velhos, mais maduros, mais conscientes do nosso lugar do mundo. Podemos não partilhar já os mesmos sonhos, certamente não estamos de acordo quanto aos caminhos a seguir, mas temos as referências e a história passada que nos liga. Acho que na Festa, este ano, percebi, pacificamente, que a vida é mesmo assim. E a Festa continuará sempre de todos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

do lado esquerdo

13 de Agosto - Dia Mundial do Canhoto

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

legalização a preço de custo

Uma criança russa encontra-se entre a vida e a morte depois de ter caído de um quarto andar em Amiens, França, no momento em que a polícia, com a ajuda de um serralheiro, se preparava para entrar na sua casa e prender os seus pai e mãe, russos, com 33 e 29 anos de idade.

Este casal encontra-se em França desde 2003 e esgotou recentemente todas as possibilidades de legalização através de pedidos de asilo político. A polícia preparava-se para entrar no apartamento depois dos dois cidadãos russos terem falhado uma convocatória para se apresentarem junto dos Serviços de Emigração Franceses.

Segundo o RESF (Réseau Education Sans Frontiéres) têm-se intensificado nos últimos dias a perseguição a pais de alunos "sem-papéis" com vista à sua expulsão do país. Para Damien Nantes, activista ligado a esta organização "o que era, anteriormente, uma situação excepcional, passou a ser medida recorrente, mesmo antes que o processo administrativo esteja dado como terminado".

Fonte da informação: www.liberation.fr

quarta-feira, 25 de julho de 2007

pensamento para o dia de amanhã

nada é tão entediante como a santa terrinha.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Dos preços dos livros

No blogue da Livrododia, alguém designado como Maria, queixa-se do preço do novo livro Harry Potter and the Deathly Hallows, dizendo que na Fnac é mais barato. Por razões institucionais e porque o que eu passo a escrever é apenas uma opinião pessoal, respondo aqui.
Como eu já estou farto de ouvir dizer que os preços na Fnac são mais baratos, o que eu já percebi, aliás não custa nada perceber, basta lá ir e ver, gostaria talvez de explicar às pessoas que me dizem repetidamente que os preços da Fnac são mais baratos porque é que os preços da Fnac são mais baratos. Julgo que se todos tiverem três minutos para ler isto possam deixar de me chatear a cabeça com os preços.

Comecemos pelo óbvio - e esta informação está no site da Fnac, é pública, podia ter visto, Maria - o preço de venda ao público do livro é de 28, 5 € (vinte e oito euros e cinquenta cêntimos). É o preço que está no contrato de fornecimento assinado entre a Livrododia e a Penguin Books, e há-de ser o preço que está assinado no contrato assinado entre a Fnac e a Penguin Books. A partir daí, cada livreiro pode praticar o desconto que bem lhe apetecer, porque sendo um livro estrangeiro, não está debaixo da alçada da Lei do Preço Fixo que controla os descontos praticados pelos livreiros em Portugal (para saber mais sobre esta lei, pode ir ler aqui, Maria). Ora, acontece que no contrato assinado entre a Livrododia e a Penguin Books, a Livrododia beneficia de um desconto de 30% sobre o preço de venda ao público do livro. A Livrododia decidiu ceder 10% dessa margem para os nossos clientes e assim vende o livro a 25, 65 € (vinte e cinco euros e sessenta e cinco cêntimos). O desconto praticado para a Fnac pela Penguin Books não sei quanto será, mas pela lógica do mercado, será sempre mais de 40%, seja pela quantidade que a Fnac compra, seja porque a Fnac não vende livros de editoras que não pratiquem esse tipo de descontos (os livros mais baratos da Fnac não são uma cedência da Fnac aos seus clientes, são uma cedência das editoras à Fnac, Maria). Para vender o livro a 22, 95 € (vinte e dois euros e noventa e cinco cêntimos), a Fnac pratica um desconto ao cliente de 19, 5 % - está no site deles, Maria - o que significa que, sendo verdade que a Fnac disponha de um desconto da editora de, pelo menos, 40%, logo a Fnac ganha 20,5% em cada livro que vende, enquanto a Livrododia ganha 20%.

Ora, Maria, eu não quero ser a Fnac, nem posso ser a Fnac, não serei nunca a Fnac. A Fnac tem lojas em vários países, várias lojas em vários países, só em Portugal são mais de dez, e a Fnac cobra dinheiro pela exposição dos livros nas suas prateleiras, e a Fnac cobra dinheiro para que os livros apareçam nos tops de vendas e no site, e a Fnac cobra dinheiro extra às editoras por cada vez que abre uma nova loja e a Fnac dispõe de descontos superiores aos que a Livrododia dispõe numa média de 10%. A Livrododia tem duas pequenas lojas em Torres Vedras, expõe os livros que considera melhores, tem um top verdadeiro, coloca em destaque no site os livros dos autores que edita e daqueles que se dispõem a vir à nossa loja fazer sessões de autógrafos, é pressionada para pagar sempre sempre a 30 ou 60 dias sob o risco de ver os fornecimentos cortados, e para abrir a nova loja ou para realizar a Feira do Livro de Santa Cruz investe do seu próprio bolso, correndo o risco de estar a ganhar dinheiro e esforço das poucas pessoas que trabalham para a Livrododia para poder servir os seus clientes, estimulando e facilitando o acesso ao livro a todos aqueles que vivem ou visitam o concelho de Torres Vedras. Só para lhe dar um exemplo, no passado sábado, todos os sócios da Livrododia, alguns familiares e alguns funcionários, estiveram, gratuita e voluntariamente até às quatro da madrugada para que a Feira do Livro de Santa Cruz estivesse aberta ao público no domingo. E é devido a esforços desses que, pela primeira vez vai ser possível comprar um livro lançado em língua estrangeira no próprio minuto em que esse livro é lançado mundialmente no concelho de Torres Vedras.

Maria, se tudo isto não merece os 2,7€ (dois euros e setenta cêntimos) a mais que lhe custará comprar o Harry Potter na Livrododia, então eu peço-lhe, de verdade, que compre o livro na Fnac. Com certeza ficará muito mais feliz e bem servida.

segunda-feira, 9 de julho de 2007


Porque se tudo o que sobe, logo desce, o que faria a Floribella escapar-se a isso?


sexta-feira, 6 de julho de 2007

"somos 250 milhões"

A José Sócrates, basta juntar 2 pessoas numa sala cheia de jornalistas, para que se aplauda o vigor da língua portuguesa.

Enquanto isso, o Governo Espanhol continua a expansão, pela Ásia, do Instituto Cervantes, anunciando a abertura agora no Japão. Isso mesmo se pode ler numa notícia do Faro de Vigo, por ocasião do Vi Congresso da Associação Asiática de Hispanistas.

o que farei eu com este mercado?

Segue com todo o interesse, e atenção da parte da grande maioria dos agentes do mercado editorial português, o processo de entrada do investidor Miguel Paes do Amaral. Em resposta a um entusiasmo inicial com a mexida do mercado, passamos, com as notícias vindas a público hoje, a encarar o respectivo negócio com um olhar mais crítico.

Segundo o que se sabe, Asa e Caminho já terão assinado os respectivos contratos-promessa. Apesar do sector editorial não ter um grande passado sindical (outras vagas de despedimento, nos últimos anos, foram sempre tratadas com um profundo silêncio), as circunstâncias da Editorial Caminho são diferentes, e por isso mesmo não será estranho encontrar as notícias de futuros despedimentos recebendo algum destaque mediático.

Isto leva-me também a pensar que uma entrada de um investidor como Miguel Paes Amaral no mercado editorial pode não trazer grandes ganhos, nem imediatos nem futuros (apesar de podermos considerar que qualquer mexida em águas estagnadas traz sempre qualquer coisa de novo). Paes do Amaral não vai acrescentar nem experiência nem conhecimentos ao mercado editorial - quanto muito pode trazer gestão, mas isso, felizmente, já se ia vendo por aí. E se alguns dos grupos comprados pelo investidor poderiam estar a precisar de gestão, uma marca como a Caminho, que ao longo de 30 anos foi construíndo um dos catálogos mais sólidos do mercado, juntando a isso uma gestão solidária e um espírito de missão bastante apurado, não deveria (nem poderia) ser entregue ao seu fim de um momento para o outro.

Não se trata aqui de fazer nenhuma defesa radical da Caminho como ela é, trata-se, sobretudo, de chamar a atenção para um conjunto de factores que fazem uma editora. E não bastará nunca um bom editor, nem um bom gestor, nem um bom vendedor - é o conjunto desses elementos que fazia a Caminho funcionar e que, noutras mãos, perante outra realidade, talvez não venha a ser igual.

O mais provável é só podermos ver o resultado desta movimentação de mercado dentro de seis meses ou um ano. Mas até lá será necessário, e aconselhável, que os vários agentes e associações do mercado do livro português, possam discutir abertamente, aquilo que querem e aquilo que poderão ter no futuro.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Parece inacreditável...

Cada vez mais, os poetas “antenados”, os contistas de segunda mão, parecem necessitar das credenciais do mercado livreiro-editorial. Seus interesses coincidem com suas crenças. E todos se acomodam bem às regras de eficiência e competência exigidas por esse sistema literário, representação especular, embora com suas singularidades, das imposturas e imposições sócio-econômicas abrigadas sob o arco ideológico do livre mercado. Parece inacreditável, mas a literatura participa do conjunto das manifestações artísticas, sim. E isso causa um sério embaraço à maioria das grandes editoras. A literatura degenera quando dá as costas ao seu impulso de arte.

Ronald Augusto, em entrevista a Marcelo Ariel, no blogue TeatroFantasma (sublinhado meu). Confira a entrevista completa aqui.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Feira do Livro, entrevistas e algumas observações

Não me surpreende o teor geral da entrevista que o Presidente da APEL, Baptista Lopes, dá ao Diário de Notícias, em jeito de balanço da Feira do Livro (surpreendentemente, só se fala da Feira do Livro de Lisboa...). É que, e podem chamar-me chato, não fico nada satisfeito quando se continua a tratar o mercado do livro (e ainda por cima uma pessoa com responsabilidades por presidir à maior associação industrial ligada a este mercado) como se fosse a mesma coisa tratar resultados de vendas de um evento da dimensão de uma Feira do Livro e dar opinião sobre um romance fraquinho que se tresleu.

Ora vejamos o que diz Bapista Lopes:
- "devido aos resultados pouco animadores da feira de 2006" - mas quais foram os resultados?

- "A menor participação da CML devolveu a feira aos editores" - mas a uma semana do evento dizia Baptista Lopes que não sabia ainda que tipo de espaços haveria para outros eventos na Feira do Livro.

- "A indicação é a de que houve mais público e o volume de negócios foi superior" - Sim. E os números?

- "Não houve redução do volume de negócios em nenhuma circunstância" - E os números?

- "a subida das vendas situa-se entre os 20 e os 40 por cento face a 2006" - Ah...os números. Mas espera lá, não, isto ainda não são os números!!

- "Quanto menos a autarquia se envolver, melhor a Feira do Livro" - Já agora, com que números participou a Câmara de Lisboa, hein?

- "Também no Porto houve maior afluência de público e mais receitas" - E contam eles as entradas para chegarmos a este número: maior.

Uma pessoa lê esta entrevista e parece que o Baptista Lopes fez o mesmo que eu, que foi ir à feira três vezes, espaçado no tempo da sua realização, e perguntar a alguns editores como estava a correr a feira. Ou seja, nos primeiros dias estava fraco, entretanto melhorou o tempo, começou a aparecer mais clientela, e no final pode dizer-se que a Feira foi um sucesso (pelo menos, a medir com o olhar, foi).

Agora o que não se pode esquecer é que, para além de preços um pouco mais baixos, das promoções para esvaziar armazéns e dos livros arrumados por editora com um atendimento, em média, mais preparado e conhecedor do que nas livrarias, o que a Feira do Livro oferece é Zero - não existem eventos culturais, não existem espaços de lazer, não existe sequer qualquer tipo de animação que decorra durante as três semanas da Feira. E isso, para mim, não é forma de tratar o livro.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

gestos mínimos

estava a pensar em ti e em como os teus olhos se podem tornar um labirinto onde nos perdemos. somos frágeis humanos, tu e eu, cedemos muito facilmente à sede renovada um do outro. estava em ti e em como o teu sorriso me cativa - e em como gestos mínimos ganham-nos da lucidez por tanto tempo construída. somos frágeis humanos, todos nós - custa-nos viver da sinceridade das ondas do mar, que crescem ou desaparecem consoante vontades insondáveis - custa-nos aceitar que somos assim, incapazes de manter o tempo todo a vontade toda - e tantas vezes perdemos na cegueira a que nos submetemos estas pequenas coisas que nos dão um pouco mais de força, por um pouco mais de tempo.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

futebol

Sinto um certo pudor em escrever sobre futebol e quem me conhece à distância fica sempre entre o surpreso e o defraudado quando se apercebe que domino a constituição dos plantéis de várias equipas de muitos campeonatos, a lei do fora-de-jogo e associadas, a história de milhares de encontros disputados nos confins da memória. Esse pudor em escrever sobre futebol está directamente ligado à facilidade com que imensa gente se deita a dar opinião sobre o pequeno delito futebolístico, o jogo que se ganha, a falta que o árbito não assinalou, o discurso que o dirigente repetiu: há um imenso barulho à volta de tanta coisa que acrescenta pouco à arte e à beleza do futebol. É, provavelmente, para escapar a esse barulho todo que quase nunca escrevo sobre futebol. E foi por pensar nisso hoje que percebi porque decai a qualidade da democracia ocidental - não temos quem eleve uma voz de qualidade no meio deste foguetório todo.