segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

testamento

hoje, 23 de fevereiro de 2009, segunda-feira de carnaval, acordei a pensar escrever o meu testamento. não um testamento material, que não tenho grande coisa nem sequer por onde a distribuir, mas um testamento emocional, daquelas coisas que não se fazem nunca a não ser quando se é um gajo à beira de fazer trinta anos, um gajo um pouco tonto, um pouco lateral, muitas vezes incapaz de dizer a verdade com a boca mas mais com a ponta dos dedos.

serviria este testamento para olhar para trás olhando para a frente, uma espécie de balanço, uma vista de olhos pela sala antes de apagar a luz e ir para o quarto, à hora de dormir. mas isso talvez seja coisa demasiado ambiciosa, talvez seja pedir demasiado a mim mesmo, neste dia. aliás, para o fazer teria que pedir muito à minha memória, e se há coisa que ela não é clara: durante muito tempo esforcei-me por me lembrar de coisas que, mais tarde percebi, nem sequer me aconteceram. o melhor é mesmo deixar tudo assim como ficou, misturado.

sei, hoje em dia, que o meu mapa emocional é feito de distâncias. as pessoas que mais quero, que mais significam, estão espalhadas por vários lugares do país, por outros países. amo num lugar, tenho amizades filiais num outro, um amigo em construção à deriva pelo país. tenho pessoas que me dizem muito, que foram (e continuam a ser) muito importantes para mim a distâncias enormes, pessoas que vejo uma vez por ano, outras menos que isso. o meu mapa emocional é desta época em que vivo: feito de viagens, de e-mails, de computadores, de telefones.

vivi uma parte da minha vida a achar que era de outro lugar. tinha a minha casa, a minha cidade, os meus amigos, o meu grupo, mas tudo isso era um pouco incompleto. em todos eles havia uma ausência do eu completo, que lhes estava inacessível, que eu lhes mantinha inacessível. nunca nos íriamos entender. e agora, passados trinta anos, estou certo de uma coisa. sim, eu sou daqui, sou definitivamente daqui. mas tenho o coração disperso por vários outros lugares, sentimentos que não se fazem com a cabeça mas com a sensibilidade, com o sentir. é essa a minha riqueza.

valorizo até, agora que me compreendo de outra forma, com outra maturidade, muito mais aqueles que eu sentia como os meus amigos incompletos. descobri-lhes uma forma de estar no mundo nova, porque agora fazem sentido onde antes eu era só um analfabeto. agora compreendo-me e aceito-me como parte deste todo e continuo a lutar pelo meu conforto aqui onde pertenço. sei que para aqui chegar, dei cabo da paciência a muita gente, usei e larguei aos caídos os sentimentos de uns quantos e de umas quantas que me quiseram muito sem o saber, eu próprio desperdicei tantos momentos onde teria muito mais a ganhar, muito mais a dar, muito mais a receber.

mas a vida leva-nos onde temos que chegar. isso é certo. não é certinho, não é o destino, mas é uma verdade. eu tinha que chegar aqui, ao dia 23 de fevereiro de 2009, e sentir isto, pensar isto. acordei assim e tenho passado o dia a sentir-me inteiro e feliz. liberto. capaz de dizer que estou apaixonado, que tenho amigos, que estou bem com as coisas que sinto e pressinto para os dias que se seguem. estou feliz porque o meu círculo é de paz, é um círculo em crescimento.

por isso tudo, tinha que dizer àqueles que estão aqui mencionados (na maior parte dos casos, eles auto-reconhecer-se-ão) que estou absolutamente feliz por os ter na minha vida. era esse o motivo do meu testamento. tão pequeno. tão grande. tão eu.

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