terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Rakushisha de Adriana Lisboa

Naquela tarde, em pé, meio apertado no meio dos outros passageiros, tirou o livro que havia dado início a tudo.

Certo, havia um prazer nisso: tirar da mochila um livro em japonês e folheá-lo interessado, como se estivesse entendendo alguma coisa. Como se os motivos que o fizeram apanhá-lo, naquela mesma tarde, na biblioteca, não fossem apenas estéticos, apenas a ver aquele monte de sinais gráficos indecifráveis juntos e tentar saber em que podiam colaborar nas ilustrações.

Virar as páginas para um lado, para o outro, e de soslaio acompanhar a reação dos mais próximos, os olhares indisfarçados.

No vagão do metrô, imensas unhas escarlates aqui. Uma aliança de ouro. Unhas curtas e roídas ali. Conversas. Rostos de depois do trabalho. Passou um cheiro de suor. Passou também um perfume doce. Houve uma rápida parada na estação Flamengo. Até Haruki descer na estação Botafogo e ouvir uma voz ao seu lado, uma voz de mulher, como que puxando a manga da camisa, a voz tão diferente das vozes-ambiente que o circundavam e amorteciam ali na plataforma do metrô: desculpa, mas é que eu fiquei tão curiosa. Isso aí que você lia é japonês ou chinês?


Título: Rakushisha
Autora: Adriana Lisboa
Editor: Quetzal

1 comentário:

  1. Grande "melão"...estou a dar aulas no dia 9, quando for a apresentação na Casa Fernando Pessoa...

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