segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

gastar dinheiro à parva

ontem fui ao teatro ao CCB e, antes da peça, passei pela Bertrand, onde encontrei o meu caro amigo Duarte e, entre alguns minutos de conversa, gastei dinheiro neste livro, coisa que até o próprio autor me censurará. no entanto, aqui deixo uma passagem, para os afortunados que resistem a comprar livros como este.

O que fazer com quinze milhões de euros

(...)Arvorem-se em mecenas renascentistas, contratem os pintores esfomeados de Florença para vos imortalizarem as feições, prometam horríveis torturas caso a verruga não seja aumentada, as sobrancelhas unidas. Marquem uma consulta com o melhor cirurgião plástico do planeta e exijam mais gordura nas coxas.
Trepem a encosta mais íngreme da Torre Vasco da Gama, atirem aviões de papel ao Tejo, façam chover cheques sobre Lisboa como um profeta bíblico e depois gritem: «Esse dinheiro é meu!» Comprem um iate de luxo. Ou comprem dois e afundem um antes de ser usado. Baptizem o outro com um cálice de leite condensado. Chamem-lhe Afrodite, chamem-lhe Bananarama. Partam rumo ao alto-mar.
Aluguem uma ilha remota no Pacífico ao governo das Filipinas, povoem-na com mercenários, hoolingans, amoladores, cães salivantes, positivistas lógicos desempregados e coelhinhas da Playboy; alcem um bandeira cor de mel, declarem uma cisão ideológica imaginária, formulem uma Constituição só de vogais, armem um exército de babuínos e declarem guerra à Lua. No solstício de Inverno, liderem uma procissão de escravos até ao ponto mais alto da ilha, e desvelem uma estátua oca – uma réplica perfeita da vossa divina figura. Revelem-se como a última descendência da linhagem dos Habsburgos e fuzilem quem tiver uma ideia melhor. Distribuam barras de ouro como tremoços. Sorriam para as câmaras e para o céu.
Quando o dinheiro acabar, escondam-se dentro da vossa estátua e transformem-se em pedra para sempre.

Título: Pastoral Portuguesa

Autor: Rogério Casanova

Editor: Quetzal

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