quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

este livro tem qualquer coisa

“Um político muito importante, Gonzalo Restrepo Jaramillo, disse no Clube Unión - o mais exclusico de Medellín - que Abad Gómez era o marxista mais bem estruturado da cidade, um perigoso esquerdista a quem era forçoso cortar as asas para que não voasse. O meu pai formou-se na escola pragmática norte-americana (na Universidade do Minnesota), nunca tinha lido Marx e confundia Hegel com Engels. Para saber bem de que é que o estavam a acusar, resolveu lê-los, e nem tudo lhe pareceu descabido: em parte, e pouco a pouco ao longo da sua vida, converteu-se em qualquer coisa parecida com o lutador esquerdista que o acusavam de ser. No fim dos seus dias, acabou por dizer que a sua ideologia era um híbrido: cristão na religião, devido à figura amável de Jesus e à sua inclinação pelos mais fracos; marxista na economia, porque detestava a exploração económica e os abusos infames dos capitalistas; e liberal em política, porque não suportava a falta de liberdade nem as ditaduras, nem sequer a do proletariado, pois os pobres no poder, ao deixarem de ser pobres, não eram menos déspotas e desapiedados que os ricos no poder.”


Héctor Abad Faciolince, Somos o Esquecimento que Seremos, Quetzal, 2009 (pg.59-60)


(via Cadeirão)

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