sábado, 28 de fevereiro de 2009

descobrir um poeta: Tiziano Fratus

II Boca os velhos documentos

Picta I

não é possível esquecer a alemanha do trinta de junho
de trinta e quatro a alemanha de trinta e cinco a alemanha do
março de trinta e nove a alemanha do inverno de quarenta e um a
alemanha do trinta de abril de quarenta e cinco
os estandartes as multidões as fardas o triunfo da vontade a biologia
a disciplina
e no final as cidades arrasadas amalgamadas na fúria da
geometria
um império reduzido a grãos de sal
não é possível esquecer a itália fascista do outubro de vinte e dois
a itália do três de janeiro de vinte e cinco a itália do nove de maio
de trinta e seis a itália do vinte e oito de abril de quarenta e cinco
a marcha a saudação romana as barras da prisão de gramsci
a etiópia o palácio veneza
os despojos inermes do último neto dos césares
não é possível esquecer a palestina do maio de quarenta e oito
a palestina do vinte e sete de abril de cinquenta a palestina do
junho de sessenta e sete a palestina
os árabes expulsos das próprias casas as esperanças dos exilados o
sofrimento dos sobreviventes as bombas os atentados as guerras
jerusalém unificada capital do estado de israel o trinta
de junho de mil novecentos e oitenta
os cemitérios vivos de sabra e chatila
o muro derrubado em berlim e reerguido na terra santa
não é possível
esquecer o fuzilamento de garcia lorca
esquecer celan e o seu rosto luminoso ao lado da mulher
francesa e as suas poesias decifradas
esquecer as caminhadas através dos campos do
continente
no regresso de um congresso sobre a concentração de gafanhotos
esquecer as paredes de cimento a escorrerem cortando o oxigénio e as
queimaduras do sol à volta dos poetas russos
esquecer danzig a cavalaria polaca e aquilo que não
conseguimos exprimir com o vocabulário e a sintaxe
não é possível recomeçar a construir o mundo
sem fazer as contas nunca resolvidas com o passado com a história
interrompida
ousar admitir o comprometimento e deixar de falsificar os
documentos
correr pelas ruas e contestar as leis regidas pela mentira
dar moral à moral
desmascarar com a moral os epitáfios dos guardiões
socorrer aldo moro e não o deixar morrer às mãos de um grupo
de desesperados
não é possível continuar a tolerar a mentira das
gerações
os corpos dos cadáveres não têm nada para esconder
já não se pode tocar num homem estendido descomposto ou vestido
que se esqueceu de respirar


Tiziano Fratus nasceu em Bérgamo em 1975. Tem seis livros de poesia publicados. Este poema é uma tradução de Tereza Bento, publicada na Di Versos de Setembro de 2008.

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