sábado, 28 de fevereiro de 2009

descobrir um poeta: Tiziano Fratus

II Boca os velhos documentos

Picta I

não é possível esquecer a alemanha do trinta de junho
de trinta e quatro a alemanha de trinta e cinco a alemanha do
março de trinta e nove a alemanha do inverno de quarenta e um a
alemanha do trinta de abril de quarenta e cinco
os estandartes as multidões as fardas o triunfo da vontade a biologia
a disciplina
e no final as cidades arrasadas amalgamadas na fúria da
geometria
um império reduzido a grãos de sal
não é possível esquecer a itália fascista do outubro de vinte e dois
a itália do três de janeiro de vinte e cinco a itália do nove de maio
de trinta e seis a itália do vinte e oito de abril de quarenta e cinco
a marcha a saudação romana as barras da prisão de gramsci
a etiópia o palácio veneza
os despojos inermes do último neto dos césares
não é possível esquecer a palestina do maio de quarenta e oito
a palestina do vinte e sete de abril de cinquenta a palestina do
junho de sessenta e sete a palestina
os árabes expulsos das próprias casas as esperanças dos exilados o
sofrimento dos sobreviventes as bombas os atentados as guerras
jerusalém unificada capital do estado de israel o trinta
de junho de mil novecentos e oitenta
os cemitérios vivos de sabra e chatila
o muro derrubado em berlim e reerguido na terra santa
não é possível
esquecer o fuzilamento de garcia lorca
esquecer celan e o seu rosto luminoso ao lado da mulher
francesa e as suas poesias decifradas
esquecer as caminhadas através dos campos do
continente
no regresso de um congresso sobre a concentração de gafanhotos
esquecer as paredes de cimento a escorrerem cortando o oxigénio e as
queimaduras do sol à volta dos poetas russos
esquecer danzig a cavalaria polaca e aquilo que não
conseguimos exprimir com o vocabulário e a sintaxe
não é possível recomeçar a construir o mundo
sem fazer as contas nunca resolvidas com o passado com a história
interrompida
ousar admitir o comprometimento e deixar de falsificar os
documentos
correr pelas ruas e contestar as leis regidas pela mentira
dar moral à moral
desmascarar com a moral os epitáfios dos guardiões
socorrer aldo moro e não o deixar morrer às mãos de um grupo
de desesperados
não é possível continuar a tolerar a mentira das
gerações
os corpos dos cadáveres não têm nada para esconder
já não se pode tocar num homem estendido descomposto ou vestido
que se esqueceu de respirar


Tiziano Fratus nasceu em Bérgamo em 1975. Tem seis livros de poesia publicados. Este poema é uma tradução de Tereza Bento, publicada na Di Versos de Setembro de 2008.

Cuenca on philosophy

Uma jornalista: "Você escreve essas coisas para chocar, não é? Você quer chocar".
João Paulo Cuenca: " Não, eu escrevo porque estou chocado"


(da peça de Isabel Coutinho, no Ipsílon)

esta, sim, deveria ser, definitivamente, a tua filosofia

não é só nos dias de chuva que deverias ter vontade de ficar analógico.

a amante

a catarina da trama sente-se mal por me vender livros, partindo do princípio, segundo o qual, quem trabalha numa livraria não vai às outras comprar livros. no entanto, comprar livros é algo de essencial, e para a manutenção do meu estado de saúde, insisto em fazê-lo onde os livros me saltam às mãos. por outro lado, o olhar e a memória treinados, fazem-me só escolher livros que não estão disponíveis, naquele momento, na minha livraria. e por aí me sinto ainda fiel, não como se tivesse visitado uma amante, traiçoeiro, mas como quem cumpre, espiritualmente, a sua obrigação de visitar igrejas afastadas da sua paróquia.

aparelhagem

um dia, queres comprar uma aparelhagem, e descobres que as aparelhagens já não existem. eu tive algumas boas aparelhagens, óptimas aparelhagens, que foram ficando para trás nas casas do tempo. e agora descubro que isso são objectos que já não existem. apenas restam pequenas memórias, em plástico frágil, daquilo que um dia serviu para nos encher os ouvidos com alguma felicidade.

diálogo de um filme

- fevereiro acaba e o dia está cheio de uma tristeza agradável
- que tristeza é essa?
- uma tristeza que não é triste, talvez comedimento. é como se todas as coisas estivessem no seu lugar, arrumadas, e me fosse agora possível gozar do silêncio entre elas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

em menos de um minuto

o tvi24 começou assim: Henrique Garcia fez as despesas da casa, passou a emissão para José Eduardo Moniz e este avança para uma notícia sobre crise e pessimismo entra população portuguesa.

em menos de um minuto, percebemos todos que é um canal de notícias da tvi.

esta deveria ser a tua filosofia

mesmo quando parece que tens uma obrigação, não tens.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

barriga de arquitecto



A dupla de arquitectos Manuel Lema Barros e Cristina Castelo Branco, responsáveis por, entre outras coisas, pelo projecto da Livrododia Centro Histórico, apresentam esta semana o restaurante Midi. Sendo um projecto que alia bom aspecto com boa comida, fica aqui a promoção de um espaço, a merecer visita, em Torres Vedras.

ser livreiro não é, apenas, ligar aos livros

O livreiro Sérgio Alves Moreira, que participou na organização do assalto ao barco Santa Maria, faleceu quarta-feira, aos 77 anos, em Caracas, vítima de doença prolongada, disse à Lusa fonte próxima da família.

Homenagem a este homem que combateu vários tipos de analfabetismo.

e depois disto passarei a negar para todo o sempre a existência do dito jogo de ontem à noite

Tenho sido um apoiante do Paulo Bento e da política da administração do Sporting, SAD, nos últimos anos. Também por isso me sinto totalmente à vontade para dizer o que digo a seguir. O que aconteceu ontem à noite em Alvalade não poderia nunca ter acontecido. É verdade, o Sporting tem um plantel muito mais fraco que o Bayern, tem toda uma outra realidade do que esse giganta bávaro, mas o futebol são 11 contra 11 e nunca uma equipa que consegue chegar aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões pode ter semelhante medo de palco como esta equipa do Sporting tem. Assistir ao jogo de ontem foi como ver o frango do Helton em Madrid, mas em versão colectiva e continuada. Pede-se ao Paulo Bento que treine a equipa. Como treinador, já demonstrou mais do que uma vez que consegue fazer pequenos milagres. Agora, alguém tem que o proíbir o homem de entrar em gestões. Como gestor, o Bento não presta. É uma nulidade. Se mais alguma vez perguntarem porque é que os adeptos não vão a Alvalade, a explicação é simples: nos jogos contra equipas pequenas, têm jogados os melhores jogadores, que não se sentem motivados para as enfrentar. Nos jogos grandes, pelos vistos, sente-se a necessidade de gerir o plantel, e lá voltamos a ser uns romagnolis sem jeito nenhum. Por tudo isto, a frase de ontem à noite foi a do Anderson Polga. Não aquela que ele disse várias vezes durante o jogo ("Tonel, apanha aí esse alem... ah, caralho!"), mas sim a que disse no final do jogo: "Há que ter vergonha na cara".

uma questão de época

José Sócrates deve ter visto muitos filmes até chegar a Primeiro-Ministro. Só isso poderá explicar esta sua tendência para liderar um país como se as tecnologias só existissem para ele (tipo Regresso ao Futuro). Passa semanas a anunciar intervenções da CGD em empresas e depois não sabe que negócios faz a CGD com os empresários dessas empresas. Iríamos por um lindo caminho, não fosse tudo isto cheirar tão mal.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

o livro

Tu viajas por uma semana e já no segundo dia a tua ausência é insuportável. Nas conversas triviais com os amigos, encontro sempre um meio dissimulado de te incluir. Tenho necessidade de me ouvir falando o teu nome, como se a minha fala pudesse reconstruir a tua imagem ausente. Sinto que me desperdiço, que o meu gasto (do meu tempo, da minha saúde, do meu sentimento) que até então era algo que se justificava e inclusive me alimentava, torna-se vazio sem a tua presença. Pior do que não te ver é não te poder provar diariamente que te amo.

Amilcar Bettega, Os Lados do Círculo, Caminho (2009)

efeito cinderela

efeito cinderela: situação em que cidadão eventualmente derreado, consegue manter-se num sincero estado de euforia carnavalesca por mais tempo do que o cientificamente considerado possível.

os três que eu preferia perder

O senhor militar que fez queixa ao Tribunal de Torres Vedras de umas pequenas imagens de mulheres pouco vestidas, a minha vizinha que, por causa de uma porta a bater às 23h de domingo, chamou a GNR para tomar conta da ocorrência, os cidadãos que, perante uma pintura na capa de um livro, fizeram queixa à PSP de Braga.

Três casos de um moralismo fútil e irrealista, três pequenos exemplos do pequeno Portugal, três auto-satisfações sem nexo.

Por este país, eu não morro de amores.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

testamento

hoje, 23 de fevereiro de 2009, segunda-feira de carnaval, acordei a pensar escrever o meu testamento. não um testamento material, que não tenho grande coisa nem sequer por onde a distribuir, mas um testamento emocional, daquelas coisas que não se fazem nunca a não ser quando se é um gajo à beira de fazer trinta anos, um gajo um pouco tonto, um pouco lateral, muitas vezes incapaz de dizer a verdade com a boca mas mais com a ponta dos dedos.

serviria este testamento para olhar para trás olhando para a frente, uma espécie de balanço, uma vista de olhos pela sala antes de apagar a luz e ir para o quarto, à hora de dormir. mas isso talvez seja coisa demasiado ambiciosa, talvez seja pedir demasiado a mim mesmo, neste dia. aliás, para o fazer teria que pedir muito à minha memória, e se há coisa que ela não é clara: durante muito tempo esforcei-me por me lembrar de coisas que, mais tarde percebi, nem sequer me aconteceram. o melhor é mesmo deixar tudo assim como ficou, misturado.

sei, hoje em dia, que o meu mapa emocional é feito de distâncias. as pessoas que mais quero, que mais significam, estão espalhadas por vários lugares do país, por outros países. amo num lugar, tenho amizades filiais num outro, um amigo em construção à deriva pelo país. tenho pessoas que me dizem muito, que foram (e continuam a ser) muito importantes para mim a distâncias enormes, pessoas que vejo uma vez por ano, outras menos que isso. o meu mapa emocional é desta época em que vivo: feito de viagens, de e-mails, de computadores, de telefones.

vivi uma parte da minha vida a achar que era de outro lugar. tinha a minha casa, a minha cidade, os meus amigos, o meu grupo, mas tudo isso era um pouco incompleto. em todos eles havia uma ausência do eu completo, que lhes estava inacessível, que eu lhes mantinha inacessível. nunca nos íriamos entender. e agora, passados trinta anos, estou certo de uma coisa. sim, eu sou daqui, sou definitivamente daqui. mas tenho o coração disperso por vários outros lugares, sentimentos que não se fazem com a cabeça mas com a sensibilidade, com o sentir. é essa a minha riqueza.

valorizo até, agora que me compreendo de outra forma, com outra maturidade, muito mais aqueles que eu sentia como os meus amigos incompletos. descobri-lhes uma forma de estar no mundo nova, porque agora fazem sentido onde antes eu era só um analfabeto. agora compreendo-me e aceito-me como parte deste todo e continuo a lutar pelo meu conforto aqui onde pertenço. sei que para aqui chegar, dei cabo da paciência a muita gente, usei e larguei aos caídos os sentimentos de uns quantos e de umas quantas que me quiseram muito sem o saber, eu próprio desperdicei tantos momentos onde teria muito mais a ganhar, muito mais a dar, muito mais a receber.

mas a vida leva-nos onde temos que chegar. isso é certo. não é certinho, não é o destino, mas é uma verdade. eu tinha que chegar aqui, ao dia 23 de fevereiro de 2009, e sentir isto, pensar isto. acordei assim e tenho passado o dia a sentir-me inteiro e feliz. liberto. capaz de dizer que estou apaixonado, que tenho amigos, que estou bem com as coisas que sinto e pressinto para os dias que se seguem. estou feliz porque o meu círculo é de paz, é um círculo em crescimento.

por isso tudo, tinha que dizer àqueles que estão aqui mencionados (na maior parte dos casos, eles auto-reconhecer-se-ão) que estou absolutamente feliz por os ter na minha vida. era esse o motivo do meu testamento. tão pequeno. tão grande. tão eu.

gastar dinheiro à parva

ontem fui ao teatro ao CCB e, antes da peça, passei pela Bertrand, onde encontrei o meu caro amigo Duarte e, entre alguns minutos de conversa, gastei dinheiro neste livro, coisa que até o próprio autor me censurará. no entanto, aqui deixo uma passagem, para os afortunados que resistem a comprar livros como este.

O que fazer com quinze milhões de euros

(...)Arvorem-se em mecenas renascentistas, contratem os pintores esfomeados de Florença para vos imortalizarem as feições, prometam horríveis torturas caso a verruga não seja aumentada, as sobrancelhas unidas. Marquem uma consulta com o melhor cirurgião plástico do planeta e exijam mais gordura nas coxas.
Trepem a encosta mais íngreme da Torre Vasco da Gama, atirem aviões de papel ao Tejo, façam chover cheques sobre Lisboa como um profeta bíblico e depois gritem: «Esse dinheiro é meu!» Comprem um iate de luxo. Ou comprem dois e afundem um antes de ser usado. Baptizem o outro com um cálice de leite condensado. Chamem-lhe Afrodite, chamem-lhe Bananarama. Partam rumo ao alto-mar.
Aluguem uma ilha remota no Pacífico ao governo das Filipinas, povoem-na com mercenários, hoolingans, amoladores, cães salivantes, positivistas lógicos desempregados e coelhinhas da Playboy; alcem um bandeira cor de mel, declarem uma cisão ideológica imaginária, formulem uma Constituição só de vogais, armem um exército de babuínos e declarem guerra à Lua. No solstício de Inverno, liderem uma procissão de escravos até ao ponto mais alto da ilha, e desvelem uma estátua oca – uma réplica perfeita da vossa divina figura. Revelem-se como a última descendência da linhagem dos Habsburgos e fuzilem quem tiver uma ideia melhor. Distribuam barras de ouro como tremoços. Sorriam para as câmaras e para o céu.
Quando o dinheiro acabar, escondam-se dentro da vossa estátua e transformem-se em pedra para sempre.

Título: Pastoral Portuguesa

Autor: Rogério Casanova

Editor: Quetzal

sábado, 21 de fevereiro de 2009

está lá

e a s. arriscou-se a ser expulsa para o fotografar.

sábado de manhã

acordar com o anti-histamínico dentro da cabeça.
as costas a refazerem-se da almofada.
uma voz fina, operática, a sair pela rádio.
abrir os estores, sol.

um silêncio imenso onde se ouvem os pés descalços até entrar no banho.

agradeço a deus o podcast

pois é graças a ele que pude ouvir a entrevista de Carlos Vaz Marques a Bruno Aleixo, que passou no dia 21 de Janeiro. um excerto:

CVM - Só lhe interessa falar de si próprio?

BA - Se quiser manter uma conversa interessante, sim.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

uma outra encruzilhada

todos nós temos lados de dentro e lado de fora. mas não resisto a divulgar, aqui, duas pequenas situações recentes que me parecem simbólicas de algo bem maior que está a acontecer na nossa sociedade sem que, a maior parte de nós, se aperceba ou não tenha sequer coragem de o fazer.

- um grupo editorial com quem trabalhamos e com quem temos vindo a fazer diversos planos de pagamento de dívidas baseadas em cheques pré-datados, por imposição deles, depositou, sem respeitar o acordo, o cheque que estava destinado a entrar no banco só a 31 de Março. curiosamente, dos vários cheques que receberam, só se enganaram naquele que tinha maior valor.

- uma cadeia livreira, de quem ninguém desconfia, retém há perto de dois meses uma devolução que diz ter pronta a entregar, que venceu em junho do ano passado, sendo que, com o argumento de que o valor a pagar pelo apuramento ser muito baixo, se escusa a fazer o pagamento.

num caso e noutro, uma coisa parece saltar à vista: as dificuldades batem à porta de todos, mas nem todos têm a seriedade de os assumir ou de encontrar respostas seguras para os resolver. infelizmente.

independança

com a apresentação de Elisa Ferreira como candidata à Câmara Municipal do Porto, volta à baila à palavra "independente" na vida política. no entanto, acho que é um erro, mais do que lexical, de conceito. o cabeça de uma lista apresentada por um partido a eleições, não é nunca independente. pode não ser militante, mas independente, não é. para o ser, teria que concorrer sozinho. mas é preciso um corpo (mais que um ego) para preencher lugares nas listas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

censura (em imagens)


Dr. Carlos Miguel, presidente da Câmara de Torres Vedras, e Bruno Brandão de Melo, da empresa Guliver, responsável pela obra, no momento em que tapavam os conteúdos censurados pelo Ministério Público. (foto da CMTV)

pornografia

o meu amigo venerando de matos deixou, no blogue dele, um recado para os censores do carnaval.

é um carnaval diferente, mas a palhaçada é a mesma

O Ministério Público censurou, pela primeira vez desde o 25 de Abril, um conteúdo do Carnaval de Torres Vedras. A notícia acaba de sair no Público, e deixa chocado, não só o Presidente da Câmara de Torres Vedras, mas toda a população, que não esperava que fosse preciso aparecer um Sócrates e um Magalhães para cometer esta parvoíce.

Prêve-se que o Sr. Sócrates seja figura bem vilipendiada (ainda mais!) nos próximos dias, aqui em Torres Vedras.

este livro tem qualquer coisa

“Um político muito importante, Gonzalo Restrepo Jaramillo, disse no Clube Unión - o mais exclusico de Medellín - que Abad Gómez era o marxista mais bem estruturado da cidade, um perigoso esquerdista a quem era forçoso cortar as asas para que não voasse. O meu pai formou-se na escola pragmática norte-americana (na Universidade do Minnesota), nunca tinha lido Marx e confundia Hegel com Engels. Para saber bem de que é que o estavam a acusar, resolveu lê-los, e nem tudo lhe pareceu descabido: em parte, e pouco a pouco ao longo da sua vida, converteu-se em qualquer coisa parecida com o lutador esquerdista que o acusavam de ser. No fim dos seus dias, acabou por dizer que a sua ideologia era um híbrido: cristão na religião, devido à figura amável de Jesus e à sua inclinação pelos mais fracos; marxista na economia, porque detestava a exploração económica e os abusos infames dos capitalistas; e liberal em política, porque não suportava a falta de liberdade nem as ditaduras, nem sequer a do proletariado, pois os pobres no poder, ao deixarem de ser pobres, não eram menos déspotas e desapiedados que os ricos no poder.”


Héctor Abad Faciolince, Somos o Esquecimento que Seremos, Quetzal, 2009 (pg.59-60)


(via Cadeirão)

na encruzilhada


foi ontem divulgada a notícia de que a Campo das Letras encerrará no final deste mês. Jorge Araújo, um dos decanos da edição portuguesa, viu-se obrigado a dar a cara pelo fim do seu projecto editorial, fundado em 1994, que desde o início se caracterizou por ser uma casa onde a afirmação da liberdade imperava, apostando na qualidade das suas propostas em diversos temas, em novos autores, e também na defesa e divulgação de temáticas locais, nomeadamente da cidade do Porto. a Campo das Letras era uma editora como as editoras devem ser: com uma posição ideologica definida, amante dos livros, curiosa em relação às novas tendências, apaixonada pela sua terra e pelas coisas e pessoas que nela habitam. mas a Campo das Letras foi apanhada na encruzilhada. primeiro, pelas dívidas deixadas após a falência do seu distribuidor, o que significou um peso enorme em cima da sua estrutura. depois, pelo abandono de um seu parceiro, comprado por um aglomerador editorial, o que significou o desaparecimento de uma sustentação possível. perante este cenário e numa época em que as soluções de apoio a empresas que se importam com pessoas e não com lucros escasseiam, a Campo das Letras vai acabar.

restarão nas prateleiras e na memória de tantos, os livros que disponibilizou. restarão nas palavras e nas intenções de muitos, pensar que algo poderia (e merecia) ter sido feito. o que não restará é a Campo das Letras, para nos oferecer novos livros, ideias e sonhos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

estes padres não são normais

não sei se será algum efeito do Casino da Figueira, mas depois de D.José Policarpo ter avisado as mulheres católicas contra os perigos dos casamentos com homens muçulmanos, agora é D. José Saraiva Martins a alertar para a anormalidade da homossexualidade. Não há paciência.

hotel ver mar


notícia, para os falantes de alemão, da edição da antologia de poesia hotel ver mar. os autores presentes na antologia, selecionada e traduzida (quase na totalidade) por Michael Kegler, são os seguintes: Ana Luísa Amaral, Waldir Araújo, Paulinho Assunção, Luís Filipe Cristóvão, João Luís Barreto Guimarães, Amadeu Baptista, Aurelino Costa, Eucanãa Ferraz, José António Gonçalves, António Gregório, Guita Júnior, Conceição Lima, Ivo Machado, João Pedro Mésseder, Ondjaki, Luís Carlos Patraquim, Maria do Rosário Pedreira, Xavier Queipo, Carlos Quiroga, Ana Paula Tavares, José Rui Teixeira, Vergílio Alberto Vieira. Uma edição da TFM.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

alma profunda e obscura

voltar é, quase sempre, como voltar a partir. Joan Manuel Serrat canta Mediterráneo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] por dizer

haverá ainda muito mais por dizer, por contar, sobre as correntes d'escritas deste ano. mas é por isso mesmo que todas as nossas acções são reflexos de outras acções que tivemos no passado e que, sabemos, se repetirão no futuro.

[correntes 2009] olhar para trás

dez anos passaram desde as primeiras correntes d'escritas, esta foi a quinta vez que estive presente. já fui à póvoa de varzim em várias condições: como simples espectador em 2005, para falar numa das mesas e apresentar um livro, como editor, como autor e editor, e também acompanhando o evento neste directo diferido do blogue. a cada ano, a mesma sensação de estar numa casa que conheço cada vez melhor. claro, com as suas dores de crescimento, com uns dias melhores e outros piores, mas casa, uma casa que sinto como minha também. a cada ano, novas amizades e cumplicidades se criam. a cada dia, cresce a onda daqueles que são os amigos da póvoa, que no mínimo encontramos uma vez por ano, com quem ficamos noites inteiras no bar do novotel, com quem damos passeios a pé, com quem nos sentamos a ouvir atentamente as apresentações daqueles que são muito mais sábios do que nós. depois, ir à póvoa é sempre uma oportunidade de me ver ao espelho, de poder olhar para dentro de mim outra vez, naquele lugar. e saber agora que sou alguém muito mais seguro de mim e do que faço. saber que existem paixões que são intensas como um dia que nunca acaba. saber que algumas pessoas vão sempre ficar comigo, em mim. saber que envelhecer, para mim, deveria ser tornar-me num velho escritor sul-americano.

[correntes 2009] um mestre

há qualquer coisa de grande na forma como hélder macedo fala, olha e caminha. será, certamente, como estar perto de um mestre.

[correntes 2009] Viseu

converso com amadeu baptista sobre a poesia e sobre viseu, cidade onde ele mora. talvez, em certa medida, viseu seja parecida com torres vedras, e por isso nos encontramos de acordo em muitos pontos. talvez a poesia seja isto mesmo: encontrar o caminho pelo meio de uma estrada esburacada.

[correntes 2009] a fazer pelos livros

as correntes d'escritas, em dez anos, já fizeram muito pela publicação de vários autores latinos e africanos em portugal. os rumores dizem que lêdo ivo será, finalmente, publicado por cá. agradecemos aos deuses.

[correntes 2009] domingo

domingo de manhã, fazem-se as despedidas no hall do hotel. há sempre um misto de alegria e tristeza nestes momentos. e promessas de reencontro, com prazo, até para o ano.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] poveiros

homenagem aos resistentes da organização, que nos aturam até esta hora:
manuela ribeiro
francisco guedes
clara casanova


vocês estão a fazer com que isto aconteça.

[correntes 2009] baile

hoje, ao jantar, houve baile. vários grandes escritores portugueses dançaram durante algum tempo na pista de dança, ao som de músicas pimba do brasil, segundo a versão de alguns dos presentes. posso dizer que há um grande poeta português que não voltarei nunca a ler da mesma maneira. aquilo não são maneiras de dar aos braços, amigo. não são.

[correntes 2009] onde estas, rapaz?

ondjaki, anda cá bailar connosco. e, já agora, fazer-me companhia para o pequeno-almoço.

[correntes 2009] antena 2

era 1h20, o luís caetano vem chamar-me para uma entrevista. lá para março, poderão ouvir-me na antena 2 a ler a cabeça de fernando pessoa.

[correntes 2009] no te vayas manuela

o coro exige, manuela dança

[correntes 2009] noite

são quase cinco da manhã e há música no bar do hotel. a festa não pára!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

recado aos que se preocupam

sim, ando com uma vontade fodida de escrever.

[correntes 2009] sábado de manhã

o sábado de manhã é o momento mais lento das correntes. o mundo em que nos espreguiçamos mais devagar, sabendo que as coisas se aproximam do fim. é também o momento de saborear a forma de se respirar nesta cidade, neste encontro. o momento de saber que podemos sorrir ao estar aqui.

[correntes 2009] a mão procurando a temperatura da água

o mundo seria, certamente, mais fácil se fosse a preto e branco. de preferência, sempre em festa, claro. mas não, não é. o mundo é feito de pequenos pormenores, em que se mede a temperatura das coisas, fazendo com isso que os corpos possam alargar ou diminuir, consoantes os gestos e as tomadas de posição. não será de todo evidente aquilo que passa dentro de nós. cada um escolhe, um pouco, a imagem exterior que tem para apresentar, podendo essa ser mais ou menos fiel ao que se passará dentro de cada um.

seria, certamente, mais fácil, se pudessemos decidir sobre o que está bem e o que está mal, se pudessemos discernir, em todos os momentos, de que lado a razão está e como se materializa ela nas nossas acções. e estamos a falar em questões de princípios e de afirmações (do dentro e do fora de nós). estamos a falar das maneiras de nos construirmos, não só enquanto pessoas, mas enquanto seres sociais que se relacionam entre si.

estar do lado dos fortes, não é simples, requer de nós uma dose de esperança e de crença nas nossas capacidades, colocando-nos à prova no território dos maiores. aí, só sobrevivem mesmo aqueles que têm a capacidade de sobreviver (e não existem meios termos, talvez por isso mesmo aí é preciso ter uma forte noção do preto e do branco onde as coisas se podem arrumar). estar dos lado dos fracos, até certo ponto, pode parecer a solução fácil: estamos escondidos daquilo que é o realmente mais importante (e aqui estou a utilizar uma formulação do mundo dos fortes). há, no entanto, aqueles que se propõem a estar ao lado dos fracos, colocando-se como interlocutor com os fortes. aí, não há rede. muito facilmente és espezinhado, se não souberes como e quando agir. por isso, em certos momentos, tens que ser muito mais rijo do que aquilo que realmente és. e, noutras vezes, tens que fingir que aceitas a magnamidade de quem pensa que te está a dar a mão, sem morderes, só porque há uma jornada a seguir onde tu também marcarás presença.

a vida é mesmo assim, cheio de pormenores. no fim, ganha quem souber melhor com eles. mas não nos podemos esquecer que qualquer vitória ou derrota acontecer no campo mais íntimo de cada um de nós. ninguém vai acabar por dominar o mundo.

[correntes 2009] ei-los que chegam

sim, continuam a chegar. ontem ao final foi a vez do gonçalo m. tavares, que me pediu ajuda para conhecer alguns dos brasileiros que por cá estavam. como sempre, amável e interessado nas coisas que se vão fazendo, pequeninas. à noite, na mesa, brilhou. há um pedacinho de todos nós que adoraria ser como o gonçalo m. tavares.

[correntes 2009] paulo bandeira faria

o paulo bandeira faria veio de Vigo para estar comigo, na apresentação deste meu livro. certas coisas são de difícil explicação, e a proximidade que criámos com a leitura dos livros um do outro, não é de explicação óbvia. a verdade é que partilhamos mundos e discursos, e tivemos o prazer de conversar enquanto a noite se ia tornando mais fria, na póvoa de varzim. trocamos presentes, livros, como sempre, segredos e sorrisos. a amizade é feita disto mesmo.

[correntes 2009] há boatos e boatos

durante o encontro, vão surgindo notícias sobre o mercado editorial. independentemente de quem o tenha revelado ao público, percebe-se que essa notícia fez um caminho, de alguém que sabia, até alguém que se sentiu à vontade para o divulgar. algumas caras não escondem a insatisfação com essa história. a verdade é que algumas pessoas aqui presentes estão sob uma pressão inaceitável: existe uma necessidade de mostrar serviço e apresentar resultados que, mais tarde ou mais cedo (e isto era uma coisa que já o ano se previa) iria criar algum mau ambiente. que essas pessoas se sintam insatisfeitas com a posição em que a evolução do mercado as colocou, é algo que eu, tal como elas, lamento. que não tenham a capacidade de o digerir convenientemente, é algo que nos faz, a todos, perder um pouco.

[correntes 2009] oito minutos

na mesa em que foi apresentado o meu livro, o primeiro autor a falar, um conhecido poeta, usou e abusou dos oito minutos que lhe cabiam, prolongando a sua apresentação por quase vinte minutos, de explicações um tanto vazias sobre o título do seu livro e lendo qualquer coisa como oito poemas (ou talvez mais) do seu livro. o incómodo da sala era evidente. alguém tinha mesmo que o mandar calar.

[correntes 2009] apresentação de A Cabeça de Fernando Pessoa

já nasci várias vezes na Póvoa de Varzim. em 2006 estive aqui presente para apresentar o meu primeiro livro, e nunca mais tendo faltado a nenhuma edição das correntes, apresento-me aqui hoje para apresentar o meu quinto livro, A Cabeça de Fernando Pessoa, que de certa forma me faz sentir como encerrando um ciclo. a edição deste livro devo-a, essencialmente, ao Ozias Filho, meu editor, uma das pessoas mais especiais que tive a oportunidade de conhecer, e da qual me orgulho de ser amigo, no mundo da edição.

há dias estive numa apresentação em que o apresentador do livro decidiu ler o índice e comentar cada título aí descrito. a meio da sessão, um pessoa levantou-se da plateia e disse, "se apresentar o livro inteiro já não o vamos precisar de o ler". por isso mesmo, não vou falar muito do meu livro.

A Cabeça de Fernando Pessoa é uma homenagem à tradição da poesia portuguesa, em forma de provocação, como o próprio título indica. foi a minha forma de agradecer, na minha poesia, a todos aqueles que, construíndo uma tradição poética, nos permitem estar aqui hoje, na póvoa de varzim, a falar de livros e a tentarmos ser felizes.

(a apresentação terminou com a leitura do poema A Cabeça de Fernando Pessoa)

[correntes 2009] apresentação de Árctico de Xavier Queipo

a história desta edição nasceu em 2006, quando em conversa com o Xavier Queipo fiquei a saber de uma primeira edição do seu primeiro livro, que teria saído numa editora da qual não havia notícias já há alguns anos. de facto, essa edição perdera-se no turbilhão do mundo editorial, tal como a editora. ao longo destes anos, a conversa e o interesse em fazermos uma reedição do Árctico foi sendo trabalhada, aproveitando até uma revisão para uma nova edição em castelhano. a tradução desta obra foi feita pelo manuel a. domingos, tendo usado essa nova versão e a versão original para resolvermos alguns problemas que nos colocava o texto. também foram sugeridas alterações de pormenor, de modo a que o texto, mantendo-se fiel à intenção original, possa ganhar algo mais para o leitor em português.

na capa do livro encontra-se uma frase "será que os livros são como as marés?". é essa frase que percorre todo o texto, em que encontramos histórias do mar, dos livros e das formas como eles são escritos. para muitos, este pode ser um livro de literatura fantástica. pessoalmente, diria antes que é um livro de realismo para os apaixonados pelos livros.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] e agora...

...se quiserem saber de mim, estou na mesa das apresentações, ali em baixo.

[correntes 2009] olha quem chegou

o morales, da revista os meus livros, terá sido um dos últimos a chegar, mas vem bem a tempo da festa.

[correntes 2009] i can get no satisfaction

quiroga queixa-se da atenção que dão à literatura portuguesa na galiza.
a mim parece-me que lá se preocupam mais do que aqui.

[correntes 2009] a apresentação da manhã

juntaram-se na mesa três pessoas que haviam estado numa mesma mesa, no mesmo lugar, em 2006: eu, o queipo e o catarino. para além de nós, a filipa leal, uma poeta que eu considero muito. queipo fala de como é cientista e artistas, dos seus livros, tão diferentes entre si, obras de arte de uma mente inquieta, sempre em movimento. valeu a pena!

[correntes 2009] o mundo pequeno

mesa de almoço onde estão portugueses, alemães, galegos, escritores, jornalistas, agentes, autores, editores.
a alemã que vive numa galiza é da mesma cidade que o alemão que fala brasileiro.
a agente galega é amiga de uma amiga de um escritor português.
fala-se galego, português e alemão.
come-se peixe.
bebe-se vinho.
há alegria.

[correntes 2009] gajos giros

[correntes 2009] a frente

na sala internet da casa da juventude, joão pombeiro, eu e o nuno seabra lopes a matraquear teclados (parece não haver ansiedades de post's em branco, por aqui). antes daqui chegar, paulo ferreira nas escadas, a dar-me em primeira mão a notícia da compra da cavalo de ferro pela fundação agostinho fernandes. quem está à frente, está na póvoa, por estes dias...

[correntes 2009] manuel gusmão

uma das pessoas que mais admiro no mundo da literatura, manuel gusmão, chegou ontem à noite. hoje tive a oportunidade de lhe oferecer um exemplar do meu livro, referindo-lhe que tinha o seu nome no meio de um poema. ainda não sei o que ele pensa disso.

[correntes 2009] o sol

o sol invadiu definitivamente a póvoa de varzim. depois de almoço, saí a passear com o Carlos Quiroga, para iluminarmos a nossa respiração e falar um pouco de algo que não sejam livros (e nisto não tivemos inteiro sucesso). começa a ficar difícil escolher entre aproveitar a tarde quente ou enfrentas o auditório quente. uma coisa é certa: os friorentos estão felizes.

[correntes 2009] a uruguaia

Andrea Blanqué está profundamente apaixonada pela literatura. dá vontade de sair a correr em busca dos livros dela.

[correntes 2009] é hoje

é hoje o meu dia. às 12h30, xavier queipo e árctico, da livrododia. às 17h eu e a cabeça de fernando pessoa, editado pela ardósia. tudo na casa da juventude. da póvoa. de varzim.

[correntes 2009] mr.queipo chegou à póvoa

tenho um autor de bigode. iupi!

[correntes 2009] segredos

outros revelam meus segredos, eu revelo segredos dos outros. este ano vai ser possível ler os primeiros livros de valter hugo mãe para crianças. (e escrevo isto com um grande sorriso de felicidade)

[correntes 2009] millás (2)

Juan José Millás não é apenas cara de velório. é também um daqueles escritores que, ficando nós na dúvida se o faz de propósito ou se lhe é inevitável, nos conquista para os seus livros sem falar neles. a apresentação do seu livro foi, resumidamente, esta anedota:

uma família deseja muito ter um filho e, como concetrava nele todas as esperanças futuras do clã, decidiu dar-lhe o nome de Formidável. no entanto, o pequeno Formidável, para além de estar sempre doente, era enfezado e pequenino. assim, na escola toda a gente gozava com o seu nome, Formidável, tão longe daquilo que ele era realmente. quando cresceu, no escritório, continuou a ser gozado pelo seu nome, e sofria com os seus colegas que lhe chamavam Formidável sempre com ar de gozo.

no seu leito de morte, a sua mulher perguntou-lhe qual seria o seu último desejo. ele respondeu-lhe "só desejo uma coisa: que na minha lápide não escrevas o meu nome. respeitando a vontade do falecido, a sua mulher deixou esta dedicatória na campa: Aqui jaz um homem que amou e foi fiel à sua mulher durante toda a vida. e o que resultou disto foi que, no cemitério, toda a gente que passava junto à campa e olhava para a lápide e não conseguia deixar de exclamar: é formidável!

[correntes 2009] lançamentos

depois do jantar, são lançados oito livros no novotel vermar. 17 pessoas na mesa, numa sala que mais parece uma sauna. Ignacio del Valle, entre outras comparações futebolísticas, avisa "somos como uma equipa de futebol, temos os titulares e os que ficam mais atrás, no banco". (procurem algures as fotografias e perceberão de que falava Ignacio)

[correntes 2009] millás (1)

Juan Jose Millás mantém-se, a maior parte do tempo, com a cara de quem assiste, impávido, a um velório de um desconhecido. "sabemos que a vida é absurda, só ainda não percebemos em relação a quê".

[correntes 2009] o que tem Alice

Alice Vieira demorou dez anos para aceitar o convite das Correntes d'Escritas. mas ainda bem que aceitou. vivacidade, graça, intimidade, a sua apresentação conquistou, por completo, a plateia de quinta-feira à tarde.

[correntes 2009] do tempo

para quem conhece a escrita de Luís Fernando Veríssimo, é um choque perceber que tanta verve corresponde a um homem tão sóbrio e pacato. termina a sua sessão com esta tirada: "tinha um tempo máximo para falar, será que tem um tempo mínimo?"

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] esta noite

ainda estão a tempo de vir até à póvoa de varzim para, logo à noite, assistir às apresentações dos livros de (entre outros) António Cícero e Eucanaã Ferraz. dois brasileiros bem europeus, mas talvez dos escritores mais doces e simpáticos que se podem encontrar por aqui nestes dias. ah, e muito importante, ambos escrevem daqueles livros de nos deixar a pensar por muito muito tempo.

por isso eu sou...

...um filho-de-puta sentimental. há dias em que fico mesmo farto de mim.

[correntes 2009] o meu outro lado

a primeira coisa que fiz quando cheguei à póvoa foi sair do hotel e caminhar à beira-mar. faltavam poucos minutos para as sete e a avenida do mar estava praticamente deserta. um vento forte, vindo do mar, despenteava-me os poucos cabelos da cabeça. eu sei, eu já nasci algumas vezes aqui na póvoa. e, neste momento, estou a nascer outra vez.

[correntes 2009] amigos

o valter e o jorge marmelo já chegaram. para um, a novidade de ontem ter atravessado, pela primeira vez, o coração de vila do conde. para outro, a satisfação de ver o ramaldense num estádio do europeu.

[correntes 2009] almoços

ao almoço, no tourigalo, carlos quiroga vai inventando, comigo, uma ficção sobre a demora da comida, da sobremesa, do café. estamos ao fundo da sala, disseram-nos que seria necessário despachar-nos para não perder a sessão seguinte, mas os empregados do restaurante não parecem muito dispostos a colaborar. a ideia de comermos à pressa ou de queimarmos a língua com os cafés vai animando o resto da mesa. felizmente, deu tempo para tudo.

[correntes 2009] ainda existem homens assim

António Sarabia está farto de algumas palavras como democracia (usada pelos fascistas da extrema-esquerda e da extrema-direita como justificação para as suas acções) ou liberdade (lembrando que se invadem países usando como argumento a liberdade). segundo ele, aos escritores, cabe reinventar o significado destas palavras. um grande aplauso.

[correntes 2009] um profundo silêncio

Rui Cardoso Martins reposiciona-nos a todos, intensamente. termina a sua intervenção com a citação que era lema da sua mulher Tereza Coelho, recentemente falecida: "se isto fosse fácil, não seria para nós"

[correntes 2009] a maria teresa

sempre que falo com a maria teresa horta, há qualquer coisa no tempo que pára, como se fosse possível pairar sobre todo o conhecimento do mundo. ao pequeno-almoço, fiquei a conversar com ela sobre livros e paixões. eu fiquei estarrecido e encantado, com os lugares onde as palavras dela me levam. acho que a isso se chama aprender.

velho tópico

é um velho tópico da literatura (estou a chamar literatura à história do género humano): não consigo viver contigo, não consigo viver sem ti. tudo me bate forte e seriamente. e não sei, sequer, se consigo esconder o vermelho dos meus olhos, tão desabituados que estavam ao sol.

[correntes 2009] novotel vermar

subo para o quarto cedo, cansado, mas sem sono acabo por me agarrar ao caderno, a deitar fora algumas palavras, o que me deixa ainda mais insatisfeito. "ainda estou a aterrar", foi a frase que repeti mais vezes, talvez incapaz de esconder o atrofio dos músculos, depois de três horas a conduzir. deito-me a ler o livro da helena vasconcelos, o que acaba por me acalmar até ao sono. ando maravilhado pela forma de entrar nos livros sobre tão diversas infâncias, trazendo para o texto um mapa do que pode ser a literatura. eu gosto de mapas, sempre gostei de mapas. sempre gostei de me imaginar a viajar dentro das linhas que representam as estradas, tantas vezes mais do que fazer a própria estrada. sou avesso a riscos, acho eu.

quando o cuenca ontem me convidou para fugir até ao porto, respondi-lhe que sou um rapaz da aldeia, que não gosto dessas aventuras. acho que, pela primeira vez, consegui dizer aquilo que realmente sinto. sou um rapaz da aldeia. e acabo por me refugiar dentro do que leio e do que escrevo para conseguir sobreviver, nos vários lugares onde me desencontro, para conseguir perceber do que é feito o mundo.

não o consigo dizer de outra forma. não o consigo dizer melhor.

[correntes 2009] o colombiano não percebe

como nem deus nem o diabo me ditam seja o que for, eu escrevo sobre recordações. mas como tenho péssima memória, aquilo que escrevo, não sei se o recordo, se o invento.

Héctor Abad

[correntes 2009] o 1 da equação

o outro, na mesa, era o Michael Kegler. apresentou por cá a antologia de poesia Hoter Ver Mar, uma edição bilingue (português- alemão), lançada pela TFM (a editora do Teo Ferrer Mesquita). um livro feito de afectos.

[correntes 2009] caminho + 1

durante a noite foram apresentados seis livros da editorial caminho. uma oportunidade para ficar a conhecer o daniel galera e o amílcar bettega, de rever o manuel rui e o patraquim, de escutar as sempre encantatórias palavras do ondjaki e, por último, de perceber que o cuenca é como um matador - na hora de entrar no grande palco, ele revela a espada escondida debaixo da casaca, e dá a estocada final. em uma palavra, dominou.

[correntes 2009] o tipo do jornal das letras

o meu amigo ricardo duarte anda constantemente em busca do segredo perdido. ontem, sentados lado a lado durante a hora do jantar, conversamos um pouco sobre tudo. um dos segredos da minha vida, acabou, pela sobremesa, de ser divulgado no twitter dele (sim, porque há quem o saiba usar).

[correntes 2009] twitter

o manuel valente, que acaba de aderir ao twitter, pede-me algumas informações sobre como o utilizar, logo a mim, que não tive tempo de estudar o suficiente sobre o assunto. por isso mesmo, a actualização é feita aqui, pelo blogue. num directo diferimento da realidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

[correntes 2009] e o vencedor é...

Gastão Cruz.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

3 anos

esta casa faz hoje 3 anos. pensei, durante algum tempo, que isso justificaria algum tipo de discurso, justificação, celebração. mas não, são três anos, nada mais.

amanhã continuo por cá.

excerto da grande jogada de Carlos Reis, em entrevista ao Público, que culmina num golo memorável

Carlos Reis finta...

há muitos professores - não só, mas principalmente os que saíram dos institutos politécnicos - que foram formados à luz de uma concepção... eu diria... muito desenvolta, muito expedita do que é falar e escrever em português

Carlos Reis corre...

Terão excelentes explicações - não têm tempo, o trabalho na escola está muito burocratizado... -, mas isso não resolve o problema. Para termos alunos que gostem de ler são precisos professores que gostem de ler, que entendam a literatura como um domínio de representação cultural com uma grande dignidade e com uma enorme capacidade de nos enriquecer do ponto de vista humano

Carlos Reis chuta...

Aquela coisa de "se o menino erra tem de se valorizar o erro, a expressividade...". Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro

Carlos Reis marca!

Mas está à vista que a hipervalorização, às vezes até um bocadinho provinciana, das tecnologias traz consigo lacunas consideráveis na forma de olharmos para o outro, de pensarmos no que é justo ou injusto, no que é solidário e não o é, no que é bonito e no que é feio - e que encontramos na Literatura, na História, na Filosofia.... A recuperação do atraso científico e tecnológico não deve ser feita à custa da desqualificação - política, até - de outras componentes da nossa cultura

A entrevista completa no Público de hoje.

isto faz mais pela auto-estima dos portugueses que qualquer injecção monetária em bancos

Impressionam os dados relativos à vida sexual do lince-ibérico. Apenas em escassos dois meses durante o ano, o animal consegue estabelecer relações sexuais. Porém, com tal apetite que, em 48 horas, copula 80 vezes. Metade desse tempo reserva-o para dormir.

A notícia completa, no DN.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

e agora quem vai defender o "minino"?

as cores dos dias

cinza cinza cinza cinza cinza cinza cinza até não se poder mais...

[correntes 2009] o site oficial

o site oficial do Correntes d'Escritas 2009 é aqui.
o 1979 acompanhará, ao vivo e em directo, a realização do encontro.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

com que roupa?

O Senhor Gerente da Casa do Tintol já não pensa noutra coisa, a autarquia já pôs meia-cidade em alerta, com as bandeiras e os palcos montados, as conversas da hora de almoço já começam a ser só sobre isto: com que roupa, com que roupa, eu vou?

Neste vídeo, Lucas Santtana & Seleção Natural a tocar e cantar essa maravilhosa canção do Noel Rosa.

Vaz Marques mata, Nossiter esfola

Um produtor conhece sempre o seu vinho?

Não. Como um pai nem sempre reconhece um filho. Os produtores de vinho honestos vão te falar isso. Por isso, a degustação às cegas também não é uma prova científica do que quer que seja. É como beijar uma menina no escuro. Tem o seu valor, não estou descontando o valor disso. Mas não é uma coisa objectiva. Não vai te trazer a alma dela de um jeito mais profundo.

(...)

Gosta de acompanhar um bom filme com um bom vinho?

Acho essencial sobreviver à experiência brutal da maioria dos filmes com a ajuda de qualquer coisa.

revolucionário esclarecido

Fiquei deliciado com a leitura da entrevista ao Jonathan Nossiter na Ler deste mês. Para além de ter dupla-nacionalidade (americano e brasileiro), uma filha chamada Capitu, de ver o vinho como um acto de cultura, de querer revoltar-se contra a ânsia de poder que nos domina os dias, ainda tem pérolas como esta:

acho que uma boa ressaca é sempre uma coisa nobre.

Andava à procura de um livro, e talvez o Mondovino seja o livro que eu tenha que encontrar.

a chegada de Mr. Queipo

Esta manhã vim cedo para a livraria, para receber o livro Árctico, do Xavier Queipo, acabadinho de sair das máquinas da gráfica, ontem à tarde. Depois de ter tido a entrega marcada para ontem, fiquei a saber que se partiu um rolamento da máquina que faz a passagem do miolo do livro para a capa, o que parou a gráfica durante algumas horas. Por momentos, chegou-se até a pensar que só se conseguiria rolamentos desses na Suiça, mas o dono da gráfica procurou na internet e encontrou dois dos rolamentos impossíveis de encontrar em Queluz. Foi até lá, e trouxe o que havia. Não vá o diabo tecê-las. Depois, como a produção seguiu para fora de horas, tiveram que ser os donos e os filhos dos donos da fábrica a terminar o trabalho, todos os funcionários saíram à hora estipulada (ainda por cima era sexta-feira). Esta história foi-me contada pelo Sr. Timóteo, que me veio entregar os livros esta manhã. Sempre que entrega um livro tem uma história para contar, e a história de hoje era muito bonita porque contava um segredo de uma gráfica, mas também mostrava como fazer um trabalho pode ser uma prova de amor, para além de que, pelo meio, percebemos que nem todos os "apaixonados" se entregam da mesma maneira ao acto. Eu aprendi uma série de coisas, com esta história. E no final rasguei o fino plástico que envolvia um dos volumes com livros e fiquei a olhar para a capa



e, finalmente, percebi que todo o sentido nas coisas está nisto mesmo, em como podemos estar apaixonados por um segredo que nos ocupa os dias, os livros. Este, em particular, é-me muito especial, pelas mais variadas razões. Deixo-vos o pequeno texto da contra-capa:

Uma boa história nunca é apenas uma boa história: no caso deste livro, as boas histórias são traduções de relatos de viagens, de anotações, que foram encontradas num pacote velho, salvas de uma inundação por terem ficado esquecidas no alto de uma prateleira (é o que sempre acontece, não é?). As histórias têm um denominador comum (melhor, dois): o mar e os livros. Coleccionadores, curiosos, estudiosos, todos eles gravitam nesta súmula de histórias que, no final, é apenas uma, e coloca-nos insistentemente esta questão: será que os livros são como as marés?

Talvez tu, leitor, possas também partilhar comigo uma pequena parte deste segredo.


um estádio

A equipa entrou em campo demasiado descontraída, nem parecia que iam tocar em conjunto, tão desalinhados e alheados uns dos outros vinham. O treinador parece recolher todos os louros, visto que entra e sai no final de cada jogada e é, sempre, o mais aplaudido. No fim do concerto, perante os insistentes aplausos, o treinador aproveita para tentar cumprimentar o maior número de jogadores em palco, para fatigar o público. Talvez não cheguem sequer a falar no balneário. É estranho. É estranho que, apesar de tudo, o resultado seja tão belo e harmonioso.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Les Indes Galantes

Rameau é um dos compositores do repertório da Orquestra Metropolitana de Lisboa que actuará, esta noite, na Aula Magna, no Concerto de Comemoração do 400º Aniversário de Nascimento do Padre António Vieira.

sexta-feira à tarde - Agricultura

Saber que, quando a chuva parar, a fragrância dos morangos espalhar-se-á pelo ar.

o maradona da cinemateca

O guru Bob Proctor, cujo nome remete para uma especialidade médica desgostante, afiança: "Se consegue ver uma coisa na mente, consegue vê-la na palma da mão". Mas isso qualquer adolescente sabe.

Pedro Mexia, Nietzsche para Estúpidos, na revista Ler de Fevereiro.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

encontrar a cabeça

Apresentações
13 de Fevereiro, 17 horas
Casa da Juventude, Póvoa de Varzim
Integrando a programação do Xº Correntes d'Escritas
7 de Março, 16 horas
Livrododia - Centro Histórico, Torres Vedras
12 de Março, 18h30
Casa Fernando Pessoa, Lisboa




A partir da próxima semana, o livro estará à venda na Livrododia e nas lojas Fnac

ao ver passar...

E o pior disto tudo, é que os filhos serão iguais aos pais.

Ai não podem falar? Têm medo? Coitadinhos...

Edmundo Pedro fez interessantes declarações, ontem à noite, na sede do PS. E, pelos vistos, o representante da direcção do partido fez orelhas moucas, e ala para a frente.

Estranho, estranho, é ainda haver quem se espante com isto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Poéticas do Rock Português

Músicos, sociólogos, jornalistas e musicólogos vão debater a poética do rock em Portugal, num colóquio que decorrerá em Abril na Universidade de Lisboa (UL) e que integrará ainda filmes na Cinemateca e concertos no Maxime.
Fonte da organização disse à agência Lusa que o colóquio decorrerá de 06 a 08 de Abril na Faculdade de Letras da UL e contará com a participação de vários músicos portugueses e estudiosos estrangeiros.
Em discussão estarão, por exemplo, o lugar da poesia na música, a relação entre literatura e música, a evolução da cultura popular, a censura, a escrita em língua portuguesa.

(...)
Entre os convidados contam-se o jornalista francês Mischka Assayas, autor do livro "Bono por Bono", o crítico norte-americano Greil Marcus, que escreveu "Like a Rolling Stone", sobre Bob Dylan, e o jornalista Nuno Galopim.
Os investigadores João Carlos Callixto, Pedro Félix e António Tilly, os críticos Rui Pina Coelho e Mário Jorge Torres, o editor Luís Filipe Cristóvão e os escritores Fernando Pinto do Amaral e valter hugo mãe também marcarão presença.
Entre os músicos convidados figuram Rui Reininho, JP Simões, Paulo Furtado, Tiago Guillul e Fernando Ribeiro.

(...)
"Poéticas do rock em Portugal" está a ser organizado pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Leia mais no JN.

vão culpar o futebol

Logo à noite, quando os comentadores da SIC falarem dos poucos ou nenhuns espectadores que vão estar nos estádios de Alvalade e da Luz, não vão referir que nenhum dos clubes interessados olhou para os regulamentos antes de terminada a fase anterior da competição, nem que uns senhores do Conselho de Justiça da Federação consideraram normal adiar a decisão até a um dia antes da data marcada para a realização das meias-finais, nem que o país está em crise e os bilhetes para o futebol caríssimos (mesmo recorrendo sempre aos bilhetes mais baratos, um adepto do Sporting que queira ir ver os três jogos que a equipa disputa este mês no seu estádio gastará 8 + 15 + 20= 43 €, só nos bilhetes), nem que os jogos de hoje passam em canal aberto, um deles começa a uma hora em que a maioria das pessoas ainda está a trabalhar, nem que os aguaceiros não páram, nem que o Porto vai jogar este jogo com as reservas, alguns juniores e até um juvenil, nem que os relvados estarão, com certeza, uma vergonha, nem que a Taça da Liga, não qualificando para nada, nem tendo nenhuma história, pode ser considerada uma prova importante, nem que, afinal, o dinheiro não é tudo, mesmo para uma equipa de futebol.

Não.

Vão culpar o futebol. E eu vou ficar um bocadinho mais triste, por perceber que as costas largas do futebol não vão aguentar para sempre. E, então, sim, vou vibrar com a bola a rolar sobre o relvado.

carapinha

choveu muito esta noite. as estradas, no caminho de casa para o trabalho, denunciam isto mesmo. choveu muito esta noite e continua a chover esta manhã. às vezes água, outras vezes pedras de gelo que tornam a rua branca. tudo isto demora pouquíssimo tempo, e as pessoas fazem, como nos outros dias, a sua vida.

aletria

o segredo é mexer bem as gemas do ovo, misturado com alguma aletria, e continuar a mexer enquanto deitamos as gemas dentro do tacho. isto é a teoria. na prática, este movimento, não garante um resultado de sucesso.

anatomia em cinzento

olhando a vida dos outros, quase todos os problemas parecem de fácil resolução. chegamos, até, a arriscar frases como "era tão simples se..." ou "até parece que ele não quer resolver isto...".

já quando nos toca olhar para a nossa vida, nada do que pensamos sai linear.

a pergunta

A pergunta, Jorge, é esta: preferes isto ou bife com batatas fritas?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Rakushisha de Adriana Lisboa

Naquela tarde, em pé, meio apertado no meio dos outros passageiros, tirou o livro que havia dado início a tudo.

Certo, havia um prazer nisso: tirar da mochila um livro em japonês e folheá-lo interessado, como se estivesse entendendo alguma coisa. Como se os motivos que o fizeram apanhá-lo, naquela mesma tarde, na biblioteca, não fossem apenas estéticos, apenas a ver aquele monte de sinais gráficos indecifráveis juntos e tentar saber em que podiam colaborar nas ilustrações.

Virar as páginas para um lado, para o outro, e de soslaio acompanhar a reação dos mais próximos, os olhares indisfarçados.

No vagão do metrô, imensas unhas escarlates aqui. Uma aliança de ouro. Unhas curtas e roídas ali. Conversas. Rostos de depois do trabalho. Passou um cheiro de suor. Passou também um perfume doce. Houve uma rápida parada na estação Flamengo. Até Haruki descer na estação Botafogo e ouvir uma voz ao seu lado, uma voz de mulher, como que puxando a manga da camisa, a voz tão diferente das vozes-ambiente que o circundavam e amorteciam ali na plataforma do metrô: desculpa, mas é que eu fiquei tão curiosa. Isso aí que você lia é japonês ou chinês?


Título: Rakushisha
Autora: Adriana Lisboa
Editor: Quetzal

verdadeiros pedreiros das letras

Deolinda - Canção ao Lado

bairro das alminhas

Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira não são o Bobby e o Tareco de José Sócrates. São dois ministros do Estado português. Convinha que se comportassem como tal. Só que, infelizmente, no meio desta triste história, não há uma alminha sobre a qual possamos dizer "ora aqui está, este pelo menos agiu bem".

João Miguel Tavares, no DN

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Fevereiro

Fevereiro é o meu mês. O mês em que eu nasci. O mês em que nasceu este blogue. O mês em que nasceu o escritor com o meu nome. O mês em que começa realmente o ano. Para mim. Fevereiro.

João César Monteiro

João César Monteiro faria hoje setenta anos. Nasceu a 2 de Fevereiro de 1939, tendo falecido a 3 de Fevereiro de 2003. Teria eu 16 anos quando fui ao Cinema King, acompanhado de irmão e prima, ainda mais novos, ver A Comédia de Deus. À saída, encontramos o João César encostado ao balcão do bar, olhando-nos como se ainda estivesse dentro do filme. A partir desse dia, a minha ideia de cinema (e de Portugal) nunca mais foi a mesma. A ele, por isso.