terça-feira, 20 de janeiro de 2009

recobro

agora já anoiteceu e imagino que, do centro da cidade até tua casa, te demores no meio do trânsito e da chuva e das vias apertadas, com alguns buracos, obras aqui e ali, a tornar o caminho baço e perigoso, quando vemos os faróis dos carros atrás de nós, que parecem acelerar mais do que deviam, deixando-nos ansiosos pelo momento de conseguirmos ir mudando de via, até saírmos da auto-estrada.

agora já desliguei a música, tinha passado o dia todo embrulhado em barulhos, pequenas conversas de circunstância, longas descrições de negócios sem interesse, um nada aqui e ali, e precisava de voltar ao silêncio, do mundo ser só o bater dos meus dedos no teclado do computador, os carros que passam, quase sem barulho, lá fora, o meu candeeiro que ganha importância sobre a secretária cheia de folhas vazias de significado.

começo então, lentamente, a voltar a casa, mesmo que antes ainda tenha que passar pelo supermercado, a comprar leite e queijo e fiambre e um bife e legumes e iogurtes e sumos, para encher o frigorífico que ficou magro como uma carta esquecida durante estes dias que estou fora, nem tanto de casa ou de mundo, mas sobretudo de mim, estes dias em que nem como nem bebo, perseguindo, cego de iluminação, como é capaz de brotar do meu peito tudo aquilo que durante tanto tempo tinha atraiçoado.

começo então, lentamente, a voltar-me para fora, a deixar que todas as páginas do meu livro ganhem, de novo, a forma de um corpo, de uns braços com que te abraçar, umas pernas com que correr para ti, o peito onde tu adormeces, um colo onde sorris um sorriso novo inventado só para o momento em que te olho nos olhos. começo então, lentamente, a encontrar a forma de destrinçar o alfabeto que eu tinha ainda, no mapa dos meus dias, que aprender a ler, sílaba a sílaba, na perfeita dicção.

Sem comentários:

Enviar um comentário