sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

é preciso ter jeito para ser diabo


Até acho que tenho mais jeito para crianças do que para máquinas. Às crianças, demoro mais tempo a estragá-las.

2 comentários:

  1. Bem, vamos lá colocar as coisas em contexto.

    A criança que me motivou o comentário até tinha um ar bem adorável.
    Daquelas princezinhas que imaginamos despidas de pecado.

    Sou muito mau com máquinas. Isto é certo. Mas acho que ainda não estraguei nenhuma criança.

    Claro que há sempre truques para comprar o afecto das crianças. Fazer de cavalinho costuma dar resultado. Até porque os miúdos adoram ouvir-nos relinchar. Deve ser uma questão freudiana ou subconsciente. Os putos devem pensar: "Se este gajo de cabelos brancos pode andar a relinchar comigo às costas, eu, que sou criança, devo ter direito a uma quota de asneiras considerável. E quando for grande logo se vê se me apetece andar com putos às costas".

    Há dois anos, na Feira do Livro, resolvi montar uma banquinha clandestina, com os meus livros, na base da experiência sociológica. As crianças viam um diabinho na capa do "De boas erecções está o Inferno cheio" e punham-se a olhar para mim, na tentativa de descobrir se era eu.

    A melhor aconteceu quando apareceram dois irmãos e um papá.
    O diálogo foi assim:

    --- És tu, não és? --- disse a menina, de uns quatro ou cinco anos.
    --- Não sou nada. Achas que eu tenho estes corninhos? --- respondi eu.
    --- Vês?!? Bem feita! --- regozijou-se o irmão mais velho, uns dois anos.

    Depois expliquei que os corninhos me eram emprestados por uma vaquinha, que ficava a pastar sem corninhos até eu regressar da Feira do Livro e lhe devolver os corninhos para passar o dia. E fui por ali fora com um conto infantil "em directo" em que já havia animais a trocar de cornos por tudo quanto era sítio.

    Vai daí, a menina pôs-se a querer folhear o meu livro cheio de obscenidades, sob o olhar do pai e do irmão. Subtilmente, disse-lhe:

    --- Estes versos são mal comportados e o teu pai punha-me pimenta na língua. Deixa-me ler-te antes uns bem comportados.

    E logo a menina:

    --- NÃÃÃÃO! Dos mal comportados!!!

    O pai salvou a situação. Eu fiquei com as minhas "Erecções" a abanar ao vento ao lado do stand da Vitamanina BD, a menina seguiu Parque Eduardo VII acima, ainda com a sexualidade por despertar e com algumas dúvidas quanto ao intercâmbio de cornos entre poetas e animais.

    Um dia mais tarde, dois miúdos de uns oito anos quiseram comprar um pacote de cereais Golden Graham's, que o Jorge Deodato pousara em cima da mesa, enquanto estava a espreitar as novidades na Vitamina BD, mais o Rui Brito.

    Perante a oferta do pacote dos cereais, puseram-se a folhear as "Erecções", enquanto as migalhas caíam sobre o livro. Até que a mãe, pressurosa, lhes chamou a atenção:

    --- Então? Estão a deitar as migalhas todas para cima do livro do senhor.

    E lá debandou a família.

    Resta dizer que em três dias não vendi um único livro, independentemente de ser dia ou noite, dia de semana ou fim-de-semana. Mas foi uma experiência muito enriquecedora.

    Eu gosto bastante de crianças. Naquela fase em que já sabem falar e ainda não dominam como deve ser as novas tecnologias. Nessa altura, desenvolvo graves sentimentos de inferioridade.

    Ó Sara, tens-me é apanhado em situações mais subversivas. Olha que até sou bastante normalzinho. No Liceu Camões passava completamente despercebido. Como dizia um amigo meu que lá andou nos meados de 70 e hoje é inspector da PJ, sector Homicídios: "Bem, hoje em dia encontram-se aí uns malucos.A piada é que naquela altura, no Camões pós-25 de Abril, era tudo maluco".

    Dixit! E que belos tempos passámos.

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