sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A vergonha

Das muitas maneiras de começar a minha participação neste debate, decidi que a mais plausível, por ser aquela que mais rapidamente me veio à cabeça, é a vergonha como sentimento associado ao ser português. Embora o discurso oficial esteja associado à Saudade, a verdade é que hoje não queremos voltar atrás em nada, até porque, a bem da verdade, o povo português, enquanto povo, nunca se sentiu grande coisa, havia era mais dinheiro nas elites. Portanto, não queremos hoje entrar em guerra com Espanha, nem armarmo-nos em marinheiros, nem ter um império de Minho a Timor, nem nenhuma dessas histórias saudosistas. Aquilo que nós queremos, acima de tudo, é sentirmo-nos bem connosco próprios. Mas, certamente por escolhermos mal os métodos pelos quais avaliamos essa auto-satisfação, sentimos vergonha.

Sentimos vergonha da nossa selecção de futebol, por “só” irmos aos quartos-de-final do Europeu, por “só” ficarmos em quarto lugar no mundial, sem pensarmos que para se chegar a essas posições há um treino e esforço intensos, diários, insistentes, que não se coadunam com a nossa ideia de que os rapazes da selecção são uns calões vaidosos.

Sentimos vergonha no nosso primeiro-ministro, por ele ir para cimeiras internacionais armado em vendedor de computadores ou por declarar aos quatro ventos o seu seguidismo em relação às decisões do governo americano. Temos vergonha da falta de tacto dos nossos ministros, assim como temos vergonha da tacanhez dos nossos sindicalistas.

Sentimos vergonha da oposição, porque se ocupa a trucidar os seus próprios aliados, a contradizer os seus próprios princípios, porque parece que dez linhas num jornal são mais importantes do que ter uma ideia para resolver os problemas das pessoas que esperam deles alguma coisa.

Sentimos vergonha dos nossos frágeis prosadores mais premiados, ou porque viraram espanhóis, ou porque não conseguem fazer duas declarações coerentes seguidas. Sentimos vergonha dos nossos grandes poetas porque, aparentemente, ninguém os lê ou compreende para além da fronteira Caia/Elvas. Ou então ficamos muito surpreendidos, por haver alguém que lê e valoriza imenso aquele poeta nacional que nós ainda nem sequer lemos.

Sentimos vergonha dos nossos salários, dos nossos empregos, das nossas vidas profissionais, porque faça o que se faça, em Portugal, é tudo pequenino, país de primos e conhecidos, onde toda a gente sabe quem é toda a gente e quase não se dá um passo sem encontrar alguém que nos chame pelo nome e nos dê uma palmada nas costas. As perspectivas, aqui, são curtas, são poucas, e vivemos assim com vergonha de sermos portugueses aqui e agora.

Chegamos até ao ponto de sentirmos vergonha daquilo que poderíamos ter de melhor, o sol, a praia, o país bom para turista. Há dias, num encontro fortuito com um australiano de passagem por Portugal, perguntou-me ele que cidades o aconselharia a visitar, quais as mais bonitas. E a verdade é que, tirando as escolhas mais óbvias (Lisboa, Sintra, Porto) que ele já tinha visitado, os restantes pontos de interesse onde ele poderia chegar sem sentir uma enorme dificuldade com as ligações de transportes públicos, eram tristemente desinteressantes. E, porra, nem imaginam a vergonha que eu tive disso.

3 comentários:

  1. Desculpa o meu portugués, sou uma poeta colombiana que mora em Lisboa há um ano e meio. Concordo em muitas das tuas afirmações. Acho que é uma pena por que Portugal é um país maravilhoso, o país com mais calor humano de toda a Europa. Adoro morar aqui. Feliz Natal

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  2. e é impressionante como isso me soa familiar

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  3. Bem, já há algum tempo que não viajo de transportes públicos para muito longe, mas de Lisboa temos muitos transportes (comboio e autocarro) quer para o sul, quer para o norte. Facilmente consegues chegar a Évora, Aveiro, Coimbra, Faro, ....não é a mesma coisa que um TGV, mas vai-se chegando lá em pouco mais de duas horas e, em alguns casos, menos.

    Aproveito para te desejar bom Natal :)

    Flávia

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