sábado, 6 de dezembro de 2008

o poeta estróina e o varatojano austero

Do Fonseca pouco nos dizem os biógrafos, os
cronistas, interessados naturalmente em exaltar o
Venerável, e justificadamente interessados também
portanto em esquecer o que no mundo fora
António da Fonseca Soares. E quando se lhe
referem é para do confronto Fonseca-Chagas, pelo
contraste, se agigantar o perfil penitente do último.
Duas personalidades distintas num só homem: a
do Fonseca, poeta estróina, soldado e D. Juan,
namorador de primas e não primas, desflorados
da honra alheia, autor de centenas de romances,
de sonetos e glosas, de madrigais e décimas, e a do
Chagas, penitente, director de almas, pregador
apostólico, varatojano austero,
conhecido autor das
Cartas Espirituais, e ainda de elegias impregnadas

de uma dolorida religiosidade, de cânticos
espirituais, de sermões e de outras obras, algumas
miúdas, prenhes de um desencantado amargor,
fruto provavelmente da sua experiência mundanal.
Estas duas vidas, a primeira frívola e desregrada, a
segunda asceticamente penitente e reparadora das
faltas cometidas, ajustam-se perfeitamente ao ritmo
vital do seu tempo.


Maria de Lurdes Belchior Pontes
(bold da minha responsabilidade)

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