quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A nova velha esquerda

São José Almeida escreve no Público de hoje um interessante artigo intitulado O Puzzle para a construcção de um partido-movimento. Nesse artigo são expostas as razões e as movimentações dos três vectores que se tomam por essenciais para a nova esquerda (como se a nova esquerda fosse uma necessidade, mas já lá chegaremos). O primeiro desses vectores é Manuel Alegre e os descontentes do PS, que representam uma tendência dentro do Partido Socialista, que está descontente com a deriva ao centro da sua direcção, mas que estará também bem consciente de que essa é uma necessidade para se estar no poder, ou não fosse boa parte dessa gente ministra, secretária de estado ou deputada. O segundo vector é o Bloco de Esquerda que se mostra, surpreendentemente ou talvez não, disponível para abdicar do seu recém-criado partido para se juntar a um novo movimento. Com isto, o Bloco acabaria por atingir aquele que se sempre foi o seu objectivo, mais ou menos encapotado: juntar a si figuras públicas que tenham ficado deslocadas dos partidos comunista e socialista, aumentando assim a sua capacidade eleitoral. Sublinho aqui a noção de capacidade eleitoral, porque entre a UDP, PSR e Política XXI e o grupo de Manuel Alegre, é muito difícil encontrar alguma afinidade que seja, e lembremo-nos que há menos de dez anos, uns eram os párias da esquerda e outros os líderes senhoriais da burguesia de centro-esquerda. O terceiro vector é o Partido Comunista. Mal ou bem, o PCP manteve-se no seu rumo durante estes últimos dez anos, e mesmo perdendo influência junto dos fazedores de opinião, dos sindicatos e nas ruas, foi conseguindo resultados com a sua estratégia de acertar no alvo mesmo estando parado. Sentindo-se em alta, é mais ou menos óbvio que o PCP critique os outros dois grupos, até porque, até agora, essa coisa da nova esquerda é conversa para entreter os aficionados do mediatismo.

O que me parece é que, a existir uma nova esquerda, ela não pode nunca partir de nenhuma destas pessoas que aqui se fala. Nem Manuel Alegre, nem Francisco Louçã, nem Helena Roseta, nem Jerónimo de Sousa, podem ser uma nova-seja-o-que-for, pela simples razão de que nenhum deles apresenta uma nova ideia, uma nova solução, para os problemas que sentimos há décadas. Qualquer solução de grupo que saia daqui, estará sempre debaixo da guilhotina do mediatismo, e se há algo que a nova esquerda poderia propor era uma solução para esta coisa que nos afecta tanto que é sermos obrigados a pensar a vida dia a dia, sem sabermos o que será o nosso futuro. Precisamos de ideias, mais do que votos. Precisamos da segurança do pensamento, mais do que pensarmos que uma maioria ou minoria absoluta com quatro anos de duração nos fará melhores ou piores do que aquilo que somos. E isso é coisa que, certamente, não nos chegará pelos telejornais.

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