terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mercado do Bolhão

São três da tarde e entro, pela primeira vez, no Mercado do Bolhão, edifício que é, por fora, a imagem feita construção das contradições do nosso urbanismo e do nosso comodismo. Mas comecemos por dentro. Estamos numa grande cidade europeia (ainda assim, a grande cidade europeia que mais se faz notar pela manutenção de uma identidade cultural própria) e temos acesso às mais impensáveis compras, desde um santinho que falta para substituir um outro que se quebrou no presépio, a um saquinho com uma mistura de pimentas, produtos de dietética, todo o tipo de frutas e legumes, carnes e peixes. É uma mistura de cheiros e cores que nos tocam de maneira mais intensa, por ser um dia de chuva.

Depois, as pessoas. A cada passo somos interpelados por uma proposta ou um convite a olhar melhor, a olhar outra vez, a banca que esconderá os tesouros de Aladino e os mapas para se descobrir o Santo Graal. E à primeira palavra percebemos também que estar ali é pertencer a uma enorme família que não se esquece nunca da atenção e dos cuidados que são devidos àqueles de quem mais gostamos. É reconfortante estar no meio daquela gente, tão longe dos efeitos histriónicos que nos são transmitidos via televisão a quando de visitas pré-eleitorais com respectivos banhos de multidão incluídos.

São três da tarde e o centro do Porto é um turbilhão de gente que se passeia entre a loja mais tradicional e o último grito da inovação tecnológica em forma de comércio. E, no entanto, a aparente contradição deste gesto é constitutiva de uma maneira de estar com o outro que se pressente, mais do que noutras, no centro desta cidade. Mesmo na aparente violência do confronto entre diferentes, há um discurso comum, vindo de uma longa história feita através dos séculos, que permite a compreensão e a convivência. Símbolo de tudo isto é o Mercado do Bolhão, embora as pessoas e os objectos que o recheiam não escondam o estado de abandono a que está votado pelo comodismo dos nossos governantes.

Imaginá-lo transformado para um outro qualquer futuro, poderá bem ser uma traição da identidade da cidade do Porto. Abandoná-lo à sua decadência, uma irresponsabilidade. Entre um e outro gesto, há o discurso comum já referido. Os portuenses não poderão deixar de recorrer a ele, neste momento tão delicado.

2 comentários:

  1. Interessante o texto, inclusive porque, estas coisas de "abandono", pensava que só aconteciam aqui no nosso país.

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  2. O Porto é uma cidade disfarçada de aldeia. O Bolhão é o coração desse sentimento. Habitualmente não faço compras no Bolhão, mas quem é que nunca foi comprar flores para oferecer a alguém, tremoços para as noites de treta com os amigos ou especiarias a granel ao Mercado do Bolhão? Uhm... canela para as rabanadas!

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