quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

finalmente natal

E agora, meu rapaz, está na hora de te deixares iluminar...

conselheiro literário

A convite da Livraria Trama, respondi a uma pequena lista de conselhos sobre livros, cujo o resultado pode ser apreciado na própria livraria com as etiquetas lindas que podem ver na imagem de cima. Para os mais preguiçosos, deixo aqui a lista. Quem sabe não poderão encontrar um destes livros, numa livraria perto de onde estão.

Um bom livro por muito pouco dinheiro: Um dia com o Principezinho segundo Antoine Saint-Éxupery
Um bom livro que se lê numa tarde: A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, Stig Dagerman
Um bom livro para o inverno: As Sombras Errantes, Pascal Quignard
Um bom livro para oferecer a alguém que não gosta de ler: Bartleby, Enrique Vila-Matas
Um bom livro para quem já leu tudo: Artigos Portugueses, Miguel Tamen
Um bom livro para quem nunca se impressiona: Jesus - The Last Adventure of Franz Kafka, Manuel Silva Ramos
Um bom livro para causar boa impressão: Mulheres que lêem são perigosas, Steffan Bollmann
Um bom livro para ler pelo menos cinco vezes na vida: Todos os Poemas, Ruy Belo
Um bom livro para alguém que mal conheço: As sete estradinhas de Catete, Paulo Bandeira Faria

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Poema de Natal

Comecei a gostar do Natal quando comecei a trabalhar
antes disso tinha tempo para me enfastiar com toda a gente
e agora só me resta tempo para me chatear com a gente
de quem eu não gosto, ou não gosto mesmo nada, ou então
só aquela gente que eu não conheço mas que me irrita,
antes, pelo Natal, isso acontecia-me com toda a gente,
saía à tarde com os meus amigos e cansava-me deles,
eram cigarros atrás de cigarros, cervejas, passeios parvos
pelas ruas da pequena cidade onde nasci, conversas
tristes de quem se fazia forte por ignorar os sentimentos
e só se corroía todo por dentro, tanto queríamos amar,
fosse a alguém, fosse uns aos outros, e só contávamos
as moedas para o tabaco, para a bebida, uma prenda
ou outra mal escolhida, nenhum brio, todo o frio.

Éramos uns palermas, era isso que éramos, nesses
dezembros antigos em que ainda ninguém trabalhava
e tentávamos ocupar os minutos com o facto de parecermos
pertencer uns aos outros, mas não pertencíamos, isso
só percebemos um bocado mais tarde, quando cada um
começou a ir com quem bem lhe apeteceu dar outras
voltas, ter outras conversas, quando nos começamos a encontrar
e primeiro era um de nós que usava fato e gravata
e dizia mal do patrão, e depois outro que nem sequer aparecia
porque trabalhava até tarde, e tudo isso ainda foi antes
de eu começar a gostar do Natal, ou melhor, de eu começar
a trabalhar numa pequena livraria da avenida, onde
um dia ou outro algum desses tipos com quem eu saía
ainda passou mas seguiu porque eu estava a trabalhar.

Comecei então a gostar do Natal porque até que chegasse
a consoada eu tinha que aturar o natal dos outros todos,
aqueles todos de quem eu não gostava ou nem sequer conhecia,
o natal do ó rapaz, diz-me lá que livro é que eu levo para a minha
prima que gosta de ler?, o natal do não tens um papel mais bonito,
pá?, o natal do isso é que é um embrulho?, o natal do gajo
que nos entra na loja a dois minutos do fecho e fica mais de meia
hora sem comprar nada, apenas a fazer-se ares de conhecedor
e que depois sai com o rabo entre as pernas porque lhe tocou
o telemóvel e é a querida esposa que já saiu do consultório
do senhor doutor do terceiro andar. E aí comecei a ter gosto por ser
dia vinte e quatro, hora de jantar, e de ter à minha volta aquelas
pessoas de quem eu gosto e vejo, às vezes, tão pouco, às tantas,
um tipo leva demasiado tempo a perceber o que é tão evidente.


Escrevi este poema neste Natal, para desejar a todos os meus amigos Boas Festas.

abaixo-assinado?

Mário Nogueira apresentou ontem, no Ministério da Educação, aquele que dizia ser "o maior abaixo-assinado de sempre". É claro que, mesmo parecendo abusivo o epíteto dado, me parecia possível que existisse tal abaixo-assinado, com a capacidade que professores e sindicatos têm demonstrado na mobilizição dos protestantes. Horas mais tarde, o secretário de estado Jorge Pedreira veio clarificar que o documento era uma petição feita on line, onde só constavam nomes de professores e respectivas escolas, sendo que qualquer pessoa poderia ter adicionado esses dados.

Eu sei que Mário Nogueira não gostou das palavras do secretário de estado, mas a forma como juntou as supostas assinaturas e a forma como o anunciou expõe ao ridículo o trabalho do sindicato e todo o protesto dos professores. O sindicalista devia perceber que o crescimento dos protestos não tem favorecido a razão dos professores que esqueceram o facto das perspectivas da opinião pública seja que ensinem e trabalhem nas escolas. Tenham, ou não, razão no protesto.

Costa... Oh Costa...

(...)Costa que se precate: não só tem escassíssima obra visível (o episódio anedótico do Cais das Colunas desentaipado por três semanas é sintomático da impotência da câmara) como, ainda por cima, se enfiou voluntariamente em dois buracos políticos que o tornam alvo fácil em campanha.
Um deles é o apoio declarado de José Sá Fernandes, que Costa gostaria de apresentar como um convertido aos seus encantos políticos mas que mais depressa será acusado de vender as suas convicções por um tacho na câmara - e que ainda por cima irá colar o PS ao embargo do Túnel do Marquês, obra que é mérito de Santana e que qualquer lisboeta hoje em dia considera imprescindível.(...)

Leia o artigo todo de João Miguel Tavares

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A bruxa Rabuja

É um privilégio, para mim, poder conviver regularmente com José Colaço Barreiros, um homem que faz já parte da história da tradução em Portugal. Numa das suas últimas visitas à Livrododia, deixou-me, ao jeito de prenda de natal, uma novidade de sua autoria, Histórias da bruxa Rabuja, publicado pela Texto Editores, com ilustrações da Alain Corbel. O livro saiu na interessante colecção Júnior, que tem vindo a crescer nas preferências de miúdos e educadores como uma boa sugestão de primeiras leituras. Já conhecedor de outros trabalhos do José, dediquei uma hora do fim-de-semana a ler as três histórias desta bruxa. E aquilo que vos digo é que não se deixem enganar pela indicação da idade apropriada para a leitura destes textos. São três histórias em poesia rimada, cheias de ironia, a piscar-nos o olhos várias vezes quando, nas curvas da sua vassoura voadora, a Rabuja vai criticando ali, sublinhando acolá, várias injustiças e curiosidades do mundo de hoje. Não sei se um miúdo de 8 anos poderá perceber todo o alcance deste texto, mas a verdade é que os miúdos de trinta, quarenta e cinquenta não deveriam ter vergonha de, ao passar por uma livraria, trazer este "fininho" para se divertirem em casa.
Se vos custar muito, aproveitem ser natal, peçam para embrulhar e digam que é para o sobrinho. Vão ver que os livreiros menos atentos nem vão desconfiar...

Estar bem com Deus e com o Diabo

Em entrevista ao Porto Canal, Gilberto Madaíl crítica Scolari pelo timing do anúncio da sua ida para o Chelsea e anuncia que durante todos estes anos perguntou ao seleccionador, mais do que uma vez, porque não era convocado Vítor Baía, nunca tendo recebido resposta. É talvez o anúncio público mais mesquinho, irracional e desleal desta época natalícia. Madaíl tenta, agora que o comando da selecção está nas mãos de outro, detonar uma bomba sobre a memória de Scolari, de modo a poder sentar a sua real bunda nos camarotes do Dragão sem ser olhado de lado.

Sim, Sr. Madaíl. Você esteve sempre do lado do Scolari, no melhor e no pior, e não tinha necessidade (até porque nem lhe adianta nada vir agora falar nisso) de tentar mascarar aquilo que foi evidente durante tanto tempo. Quanto à razão para a não convocação de Baía para a selecção, ela é fácil e evidente: não é fácil ser suplente quando já se foi titular ( e se isso conta para os jogadores de campo, muito mais contará para os guarda-redes). Mal ou bem, Scolari escolheu Ricardo e poupou Baía a anos de banco. Queirós escolheu Quim e poupou Ricardo ao mesmo. É a lei da vida. Coisa que, ao Sr. Madaíl, será certamente estranha, qual rato em busca da sobrevivência.

Hoje acordei com esta música na cabeça

Rocky Sharpe & The Replays - Rama Lama Ding Dong

domingo, 21 de dezembro de 2008

porque hoje é domingo

Mundo Catita ou a arte de ser português no início do século XXI

o império da mediocridade

pela segunda semana consecutiva, oiço o programa da manhã do Rádio Clube, "a vida são dois dias", para o qual são convidados elementos do próprio Rádio Clube para dar sugestões culturais. talvez tenha sido um tiro de sorte (pronto, dois tiros de sorte), mas calhei a ouvir a provedora dos ouvintes do Rádio Clube e um director de programas, de quem não lembro os nomes. a senhora, na semana passada, aconselhou livros. livros, disse ela, não daqueles chatos que são escritos com linguagem, mas livros que são bons de ler. assim, de repente, a senhora só conseguiu lembrar-se do Equador, de Miguel Sousa Tavares, tendo passado mais tempo a falar da série televisiva que hoje estreia do que do livro em si. pensei que tinha tido azar. mas hoje, o tal senhor, começou as suas sugestões culturais por dizer que não gosta de dança. aliás, disse que é preciso ter coragem para se dizer que não gosta de dança. que já viu tudo e não gosta. depois falou demoradamente sobre música, tango (a sua preferida) e nina simone, o que demonstra como estes convidados acertam sempre nas referências mais óbvias. para terminar, passou pelo cinema. para falar de um filme que, quando esteve nos cinemas, ele não foi ver porque (e isto foi o que ele disse, ipsis verbis) "pensava que era um daqueles filmes para adolescentes"... Estava a falar do American Beauty, do Sam Mendes. Não há paciência.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A vergonha

Das muitas maneiras de começar a minha participação neste debate, decidi que a mais plausível, por ser aquela que mais rapidamente me veio à cabeça, é a vergonha como sentimento associado ao ser português. Embora o discurso oficial esteja associado à Saudade, a verdade é que hoje não queremos voltar atrás em nada, até porque, a bem da verdade, o povo português, enquanto povo, nunca se sentiu grande coisa, havia era mais dinheiro nas elites. Portanto, não queremos hoje entrar em guerra com Espanha, nem armarmo-nos em marinheiros, nem ter um império de Minho a Timor, nem nenhuma dessas histórias saudosistas. Aquilo que nós queremos, acima de tudo, é sentirmo-nos bem connosco próprios. Mas, certamente por escolhermos mal os métodos pelos quais avaliamos essa auto-satisfação, sentimos vergonha.

Sentimos vergonha da nossa selecção de futebol, por “só” irmos aos quartos-de-final do Europeu, por “só” ficarmos em quarto lugar no mundial, sem pensarmos que para se chegar a essas posições há um treino e esforço intensos, diários, insistentes, que não se coadunam com a nossa ideia de que os rapazes da selecção são uns calões vaidosos.

Sentimos vergonha no nosso primeiro-ministro, por ele ir para cimeiras internacionais armado em vendedor de computadores ou por declarar aos quatro ventos o seu seguidismo em relação às decisões do governo americano. Temos vergonha da falta de tacto dos nossos ministros, assim como temos vergonha da tacanhez dos nossos sindicalistas.

Sentimos vergonha da oposição, porque se ocupa a trucidar os seus próprios aliados, a contradizer os seus próprios princípios, porque parece que dez linhas num jornal são mais importantes do que ter uma ideia para resolver os problemas das pessoas que esperam deles alguma coisa.

Sentimos vergonha dos nossos frágeis prosadores mais premiados, ou porque viraram espanhóis, ou porque não conseguem fazer duas declarações coerentes seguidas. Sentimos vergonha dos nossos grandes poetas porque, aparentemente, ninguém os lê ou compreende para além da fronteira Caia/Elvas. Ou então ficamos muito surpreendidos, por haver alguém que lê e valoriza imenso aquele poeta nacional que nós ainda nem sequer lemos.

Sentimos vergonha dos nossos salários, dos nossos empregos, das nossas vidas profissionais, porque faça o que se faça, em Portugal, é tudo pequenino, país de primos e conhecidos, onde toda a gente sabe quem é toda a gente e quase não se dá um passo sem encontrar alguém que nos chame pelo nome e nos dê uma palmada nas costas. As perspectivas, aqui, são curtas, são poucas, e vivemos assim com vergonha de sermos portugueses aqui e agora.

Chegamos até ao ponto de sentirmos vergonha daquilo que poderíamos ter de melhor, o sol, a praia, o país bom para turista. Há dias, num encontro fortuito com um australiano de passagem por Portugal, perguntou-me ele que cidades o aconselharia a visitar, quais as mais bonitas. E a verdade é que, tirando as escolhas mais óbvias (Lisboa, Sintra, Porto) que ele já tinha visitado, os restantes pontos de interesse onde ele poderia chegar sem sentir uma enorme dificuldade com as ligações de transportes públicos, eram tristemente desinteressantes. E, porra, nem imaginam a vergonha que eu tive disso.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hydroxyzine dihydrochloride

contraria a histamina mas abusa na tranquilização...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ruído Luminoso - quatro poetas portugueses

A revista catalã Série Alfa é, este mês, dedicada à poesia portuguesa. Assim, foram convidados quatro poetas portugueses, cedendo cada um dois poemas, que foram posteriormente traduzidos para catalão, castelhano, inglês e francês. Todos os poemas são originais.

Link para a revista: sèrieAlfa.art i literatura Núm. 40

[Ruido Luminoso] Quatro Poetas Portugueses
[Soroll Lluminós] Quatre Poetes Portuguesos
[Ruido Luminoso] Cuatro Poetas Portugueses
[Glowing Noise]Four Portuguese Poets
[Bruit lumineux]Quatre poètes portugais

Luís Filipe Cristóvão / Joaquim Cardoso Dias / Vasco Gato / João Miguel Henriques

Tradução: Vasco Gato, Luc Roy &Joan Navarro
Fotografias : Valdir Peyceré

A nova velha esquerda

São José Almeida escreve no Público de hoje um interessante artigo intitulado O Puzzle para a construcção de um partido-movimento. Nesse artigo são expostas as razões e as movimentações dos três vectores que se tomam por essenciais para a nova esquerda (como se a nova esquerda fosse uma necessidade, mas já lá chegaremos). O primeiro desses vectores é Manuel Alegre e os descontentes do PS, que representam uma tendência dentro do Partido Socialista, que está descontente com a deriva ao centro da sua direcção, mas que estará também bem consciente de que essa é uma necessidade para se estar no poder, ou não fosse boa parte dessa gente ministra, secretária de estado ou deputada. O segundo vector é o Bloco de Esquerda que se mostra, surpreendentemente ou talvez não, disponível para abdicar do seu recém-criado partido para se juntar a um novo movimento. Com isto, o Bloco acabaria por atingir aquele que se sempre foi o seu objectivo, mais ou menos encapotado: juntar a si figuras públicas que tenham ficado deslocadas dos partidos comunista e socialista, aumentando assim a sua capacidade eleitoral. Sublinho aqui a noção de capacidade eleitoral, porque entre a UDP, PSR e Política XXI e o grupo de Manuel Alegre, é muito difícil encontrar alguma afinidade que seja, e lembremo-nos que há menos de dez anos, uns eram os párias da esquerda e outros os líderes senhoriais da burguesia de centro-esquerda. O terceiro vector é o Partido Comunista. Mal ou bem, o PCP manteve-se no seu rumo durante estes últimos dez anos, e mesmo perdendo influência junto dos fazedores de opinião, dos sindicatos e nas ruas, foi conseguindo resultados com a sua estratégia de acertar no alvo mesmo estando parado. Sentindo-se em alta, é mais ou menos óbvio que o PCP critique os outros dois grupos, até porque, até agora, essa coisa da nova esquerda é conversa para entreter os aficionados do mediatismo.

O que me parece é que, a existir uma nova esquerda, ela não pode nunca partir de nenhuma destas pessoas que aqui se fala. Nem Manuel Alegre, nem Francisco Louçã, nem Helena Roseta, nem Jerónimo de Sousa, podem ser uma nova-seja-o-que-for, pela simples razão de que nenhum deles apresenta uma nova ideia, uma nova solução, para os problemas que sentimos há décadas. Qualquer solução de grupo que saia daqui, estará sempre debaixo da guilhotina do mediatismo, e se há algo que a nova esquerda poderia propor era uma solução para esta coisa que nos afecta tanto que é sermos obrigados a pensar a vida dia a dia, sem sabermos o que será o nosso futuro. Precisamos de ideias, mais do que votos. Precisamos da segurança do pensamento, mais do que pensarmos que uma maioria ou minoria absoluta com quatro anos de duração nos fará melhores ou piores do que aquilo que somos. E isso é coisa que, certamente, não nos chegará pelos telejornais.

Tomai lá do Cachapa!

Cavaquissilva, filho, vitalidade da literatura portuguesa é isto:

É cada vez maior o número de pessoas que escreve e publica. Entre esses, há alguns que possuem uma voz mas que insistem em escrever o que lhes parece certo, vendável ou que pode agradar à família próxima. Historicamente está provado que este tipo de escritores nunca vencerá a morte e que provavelmente os seus livros serão vendidos a peso muito antes dela.Este curso, limitado nas inscrições, está destinado aos que gostariam de encontrar os tomates que o seu conformismo ou as confortáveis rotinas insistem em esconder.

(é só um cheirinho, não dispensa o clic no link de cima)

9º Serão Contos ao Frio


Mais uma iniciativa dos incansáveis bichinhos de conto.

Ele bem que avisou


e mesmo que o anúncio tenha sido apenas sussurrado, no meio de outros nomes, a ver se ninguém percebia, aí está Santana de volta.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mercado do Bolhão

São três da tarde e entro, pela primeira vez, no Mercado do Bolhão, edifício que é, por fora, a imagem feita construção das contradições do nosso urbanismo e do nosso comodismo. Mas comecemos por dentro. Estamos numa grande cidade europeia (ainda assim, a grande cidade europeia que mais se faz notar pela manutenção de uma identidade cultural própria) e temos acesso às mais impensáveis compras, desde um santinho que falta para substituir um outro que se quebrou no presépio, a um saquinho com uma mistura de pimentas, produtos de dietética, todo o tipo de frutas e legumes, carnes e peixes. É uma mistura de cheiros e cores que nos tocam de maneira mais intensa, por ser um dia de chuva.

Depois, as pessoas. A cada passo somos interpelados por uma proposta ou um convite a olhar melhor, a olhar outra vez, a banca que esconderá os tesouros de Aladino e os mapas para se descobrir o Santo Graal. E à primeira palavra percebemos também que estar ali é pertencer a uma enorme família que não se esquece nunca da atenção e dos cuidados que são devidos àqueles de quem mais gostamos. É reconfortante estar no meio daquela gente, tão longe dos efeitos histriónicos que nos são transmitidos via televisão a quando de visitas pré-eleitorais com respectivos banhos de multidão incluídos.

São três da tarde e o centro do Porto é um turbilhão de gente que se passeia entre a loja mais tradicional e o último grito da inovação tecnológica em forma de comércio. E, no entanto, a aparente contradição deste gesto é constitutiva de uma maneira de estar com o outro que se pressente, mais do que noutras, no centro desta cidade. Mesmo na aparente violência do confronto entre diferentes, há um discurso comum, vindo de uma longa história feita através dos séculos, que permite a compreensão e a convivência. Símbolo de tudo isto é o Mercado do Bolhão, embora as pessoas e os objectos que o recheiam não escondam o estado de abandono a que está votado pelo comodismo dos nossos governantes.

Imaginá-lo transformado para um outro qualquer futuro, poderá bem ser uma traição da identidade da cidade do Porto. Abandoná-lo à sua decadência, uma irresponsabilidade. Entre um e outro gesto, há o discurso comum já referido. Os portuenses não poderão deixar de recorrer a ele, neste momento tão delicado.

cantiga d'amigo ou um bolinho para o caminho

no fundo,
o que andamos a fazer,
é encontrar uma maneira
de dar boca ao coração.

e enquanto isso se faz,
libertando se vai meu corpo
de anterior condição.

Circo de Natal

Agora que o PCP alugou o carro daquele maluco d' O Regresso ao Futuro e viajou para a Checoslováquia de 1970 e o Bloco de Esquerda se ocupa em ser a ala esquerda do Partido Socialista, a reboque de Manuel Alegre e Helena Roseta, permitam-me dizer que a boçalidade e o isolamento dos nossos políticos não foi nunca tão acentuado como hoje. Sinal óbvio é ainda a re-eleição-com-posterior-desfiliação-de-vários-quadros-do-partido no CDS/PP. Vivemos, certamente, num mundo que aqueles que nos querem representar não compreendem. Tal como não compreenderam os Sindicatos de Professores quando assinaram o memorando de entendimento com o Ministério ou quando, passado quase um ano, não conseguiram passar para o papel uma alternativa credível ao sistema de avaliação de professores. É este o mundo (o país?) que nos resta: soundbyte atrás de soundbyte até criar ruído suficiente que se pareça com qualquer acção real, seguido de posterior descredibilização da ideia inicial não cumprida. Não deixa de ser curioso como dois militantes de partidos do centro que se encontram, de momento, de fora do grande prato ou tacho ou malga grande, acabem a liderar o bando dos ex-revolucionários com tendências moralistas que querem chegar ao poder. Não deixa de ser fastidioso que certa esquerda, tão segura da razão dos seus princípios, tente depois encontrar um ícone intelecto-popular para ir a eleições. Não há, mesmo, paciência para este circo...

Gaia é um labirinto

mas depois de perguntar o caminho a quatro pessoas, fazer um telefonema e perseguir um carro, lá cheguei ao Centro Comercial Vilagaia e adquiri um exemplar em perfeitas condições (e encadernado) do livro Frei António das Chagas - um homem e um estilo do Século XVII, de Maria de Lourdes Belchior Pontes, livrinho (501 páginas) esse que me irá acompanhar pelos próximos meses, senão anos.

o campo na cidade


ou como voltar a insistir na felicidade pela agricultura

(na imagem, a casa da quinta do parque de serralves, no porto)

quem é baltasar serapião?


acabo de ler o remorso de baltasar serapião, um livro que me espantou pela força da linguagem que me transportou para o universo medieval da história. os grandes livros são assim, não têm avisos, nem setas, nem explicações, é a própria linguagem, a maneira de desenrolar a narrativa, que nos faz sentir o que é aparentemente ficção bem dentro de nós.
uma dúvida, no entanto, foi crescendo com a experiência de leitura deste livro: quem é baltasar serapião? o rapaz desejoso de ser homem, de construir vida e família, de honrar o seu nome e cumprir o sonho de esposar com a mais bela das raparigas da aldeia ou, por outro lado, o homem desajeitado e brutal que destrói a sua própria felicidade com desconfianças, que só reconhece instabilidade no normal decorrer das coisas, que altera as feições da amada e mata os amigos que lhe garantem a vida? quem é ele, que me leva a simpatizar com ele nos ensejos e a demonizá-lo nas acções?

isto não pode ser uma crítica literária porque as críticas literárias não se relacionam com dúvidas destas. será, muito provavelmente, um questionamento filosófico, um puxamento para a frente de um espelho onde eu talvez tema, alguma vez, vir-me a reconhecer.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

serviços mínimos

passei toda a semana a escrever quase nada aqui no blogue. andei em cantigas, citações, exercícios de nada. ao fim de uns quantos anos a actualizar blogues, aprendes uma coisa: o silêncio não é opção. então aprendes a fazer serviços mínimos, alimentando assim quem te visita, para que não pareça mal, para que pareça que continuas a ter o que dizer.

passei toda a semana a escrever quase nada aqui no blogue. e agora que chega sexta-feira, queria ter qualquer coisa importante que servisse a todos aqueles que, perdidos com um computador durante um fim-de-semana, viessem espreitar aqui a minha casa. mas não, não há nada. e não é o silêncio. os dias têm sido de leitura, de pesquisa, de invenção de alguns poemas, de delineação de projectos.

passei toda a semana a escrever quase nada aqui no blogue. e porque é que isso me afecta? não sei. escrevo isto e já estou outra vez com vontade de o apagar. de deixar o espaço em branco dominar a entrada na página. mas resisto a isso. deixo ficar. como se fosse uma confidência ou uma justificação. como se, assim, fizesse um pouco mais sentido a minha vida quando, logo à noite, estiver encostado ao balcão do café a ouvir as pedras de gelo a tilintar no copo que seguro com a mão direita. como se isso importasse para alguma coisa.

já ouviste falar de Clarice Lispector?

bem-vindo sejas ao teu direito a seres notícia*

[veja, neste espaço, aquilo que lhe apetecer...]

*citação de Joseph Brodsky

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sim, eu leio o Correio da Manhã

Para que a minha capacidade de indignação se mantenha em alta.

Assim não, Caramanlis

Um bom exemplo de um regime à deriva, é aquele em que, ao mesmo tempo que se pede paz social e sossego nas ruas, se condena dois polícias por "homicídio voluntário" quando todos os indícios indicam o contrário.

isto é missa arejada, mas não é missa ao ar livre


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

acção romântica e revolucionária

Manuel Luís diz que o pai "se viu sem lugar ideológico, porque não queria poder, o poder não era para ele. A tendência revolucionária tinha-se intensificado. Interessava-lhe mais a acção romântica e revolucionária". Foi nessa altura que lhe notou "maior sofrimento".

daqui

Alçada Baptista por Mexia

António Alçada Baptista escreveu dois livros fundamentais para qualquer pessoa que queira pensar o catolicismo português: Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus (1971) e Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança (1982). Fundou uma das revistas mais estimulantes do nosso panorama cultural (O Tempo e o Modo) e uma excelente editora (a Moraes). Foi depois disso um bom presidente do Instituto Português do Livro. Era um homem afável, culto, cosmopolita e dialogante. Isto é justo que se diga, e tem sido dito. Mas também é justo que se lembre que Os Nós e os Laços (1985) marcou uma viragem na sua carreira e, mais importante, no romance português, hoje infestado de «literatura dos afectos» e de afilhadas de Alçada. As pessoas falam muito de O Que Diz Molero ou Os Cus de Judas, mas creio que Os Nós e os Laços teve mais influência na escrita portuguesa, marcando uma deriva «débil» que durou vinte anos (ainda dura) e de que talvez nos tenhamos finalmente libertado com o aparecimento de alguém como Gonçalo M. Tavares.

daqui

Y-net

Já está na net.

há coisa de um ano

nascia o bibliotecário de babel. felizmente, para nós, nasceu já crescido e educado. e assim continua, para alegria dos nossos dias.

Laboratório de Radiologia

encostar o queixo à placa, depois a têmpora, depois a cabeça.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sofia - João Coração

Está tudo aqui - as referências a um ícone (mulher, de preferência), o cenário de ninfas blasées, a auto-referência na exibição de um jornal, a simplicidade da música. Assim, de repente, somos todos parisienses. Obrigado, João Coração.

Telepac - golpe final

Ontem, às 17 horas, voltamos a ter net. O que aconteceu? A Telepac fez uma actualização de sistemas nos servidores e esqueceu-se de avisar os clientes que as passwords tinham sido alteradas.

O óbvio, sempre o óbvio, a falhar. Apetece dizer uma grande asneira...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

but hey...

há sempre aqueles momentos em que nós não sabemos o que dizer. ou como o dizer. de facto, nas últimas semanas, uma série de acontecimentos encadeados vieram formular todo um caminho a seguir na minha vida que, ou estava oculto, ou eu não sabia bem que ele existia sequer. de facto, acontece com a vida o que já acontecera na poesia: um dia percebes que a tua mão sabe como seguir pela frase, sem que estejas sempre a fazer-lhe perguntas ou a tentar copiar as respostas dos tipos que se sentam ao teu lado nas mesas. um dia percebes que, a partir daqui, segues por ti. sabes fazê-lo.

isso tem tanto de animador como de assustador. perceber que a vida se resolve, assim, por si, quando tu fazes por não a controlar mas apenas por ajudá-la na busca dessas próprias respostas, não será sequer maturidade, será saber como se faz. aprendi a fazer. repito para mim mesmo, aprendi a fazer. e talvez esteja ainda um pouco embaraçado com a facilidade com que agora as coisas se arrumam na minha cabeça. e por isso não sei como o dizer. não sei o que dizer. embora, atabalhoadamente, continue a tentar.

sábado, 6 de dezembro de 2008

o poeta estróina e o varatojano austero

Do Fonseca pouco nos dizem os biógrafos, os
cronistas, interessados naturalmente em exaltar o
Venerável, e justificadamente interessados também
portanto em esquecer o que no mundo fora
António da Fonseca Soares. E quando se lhe
referem é para do confronto Fonseca-Chagas, pelo
contraste, se agigantar o perfil penitente do último.
Duas personalidades distintas num só homem: a
do Fonseca, poeta estróina, soldado e D. Juan,
namorador de primas e não primas, desflorados
da honra alheia, autor de centenas de romances,
de sonetos e glosas, de madrigais e décimas, e a do
Chagas, penitente, director de almas, pregador
apostólico, varatojano austero,
conhecido autor das
Cartas Espirituais, e ainda de elegias impregnadas

de uma dolorida religiosidade, de cânticos
espirituais, de sermões e de outras obras, algumas
miúdas, prenhes de um desencantado amargor,
fruto provavelmente da sua experiência mundanal.
Estas duas vidas, a primeira frívola e desregrada, a
segunda asceticamente penitente e reparadora das
faltas cometidas, ajustam-se perfeitamente ao ritmo
vital do seu tempo.


Maria de Lurdes Belchior Pontes
(bold da minha responsabilidade)

Os 10+ da Livrododia, no Jornal Expresso

1º Más Maneiras de Sermos Bons Pais, Eduardo Sá, Oficina do Livro
2º A Razão dos Avós, Daniel Sampaio, Caminho
3º Lázzarus, Viegas Pinto, Chiado Editora
4º Destinho Turístico, Rui Zink, Teorema
5º A Viagem do Elefante, José Saramgo, Caminho
6º Um homem com sorte, Nicholas Sparks, Presença
7º As Linhas de Torres Vedras, André Melícias, CMTV/Livrododia
8º Para cima e não para norte, Patrícia Portela, Caminho
9º Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro, Philippe Delerm, Livrododia
10ª James Dean fez carreira no Bombarral, Vítor Cunha Morais, Caderno

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Árvore da Livrododia

Este é o novo postal da Colecção que a dupla de arquitectos Manuel Lema Barros e Cristina Castelo Branco disponibilizam na cafetaria da Livrododia - Centro Histórico. Para além de postal, é também uma réplica, para usar em casa, da nossa famosa árvore interior. Lindo.

raios partam a Telepac, ac, ac, ac, ac...

dois dias dois, sem internet, por causa de uma avaria no servidor que prometiam resolver em algumas horas. e não, não é só no meu serviço - é, pelo menos, em grande parte da cidade.

raios partam a Telepac, ac, ac, ac, ac...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

milésimo post deste blogue e logo para anunciar descontos

Podem pensar que somos o Pai Natal!!

No dia 3 de Dezembro, visite as lojas Livrododia e beneficie de 20% de desconto em todos os artigos de livraria, papelaria e gifts.

Não perca a oportunidade.
Este Pai Natal não aparece todos os dias.

III Prémio Jovem Literário Luiz Teixeira

Foi lançado na sexta-feira passada, dia 28 de Novembro, o III Prémio Jovem Literário Luiz Teixeira, competição aberta para textos de prosa e poesia escritos em língua portuguesa por autores com menos de 30 anos de idade. Para além do prémio pecuniário, o autor verá a sua obra publicada pela Livrododia Editores.

Este prémio está incluído na série de Prémios Rainha, uma iniciativa da Câmara Municipal das Caldas da Rainha. A notícia e o respectivo regulamento podem ser consultados aqui.


Vieira rock n'roll



Imagens da Leitura do Sermão dos Bons Anos do Padre António Vieira, ontem, na Igreja da Misericórdia de Torres Vedras (fotografias de André Simões)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

being valter hugo mãe

Paulo Praça - À força da nossa voz

Lua, Cerveja, Alfama

João
vendo ao triste pastor
com enganos
ser-lhe negada a sua pastora
como se a não tivera merecida

diz-lhe:

rapaz
o Viagra veio dar verosimilhança a
O amor nos tempos de cólera mas
tens de fazer mais que bulir
outros sete anos

O novo livro de Miguel Manso, Quando Escreve Descalça-se, foi lançado no sábado passado, com o selo da Livraria Trama.

A poesia andando: treze poetas no Brasil

Foi lançada pelos Livros Cotovia uma antologia de treze poetas brasileiros organizada por duas editoras da 7Letras, Marília Garcia e Valeska de Aguirre. As autores defendem que esta é uma antologia da poesia de agora, da poesia que está a ser feita no Brasil, uma poesia do quotidiano, das coisas que acontecem, um tanto narrativa, até. É uma boa antologia para se ficar com uma ideia da produção do outro lado do atlântico, mas sobretudo da edição desse lado de lá.

Perante os treze poetas, seria muito provável que perto de uns dez deles tivessem imensa dificuldade em Portugal, numa editora com circulação comercial. E numa semana em que se oferece duas páginas no ipsílon, uns dois minutos de televisão no Câmara Clara, seria bom reflectir sobre o estado da edição de poesia no nosso país. Porque é que não há espaço para a poesia nas editoras de circulação, nem, grande parte das vezes, espaço para a poesia nos órgãos de comunicação, mas uma antologia de poetas estrangeiros recebe essa atenção?

Será que os responsáveis de comunicação estão a trabalhar muito bem ou será que o segredo não está na massa, mas sim, no molho que se vê?

Meu querido Primeiro de Dezembro*

Hoje de manhã, ligo a televisão à hora do pequeno almoço e levo com o José Hermano Saraiva a falar do 1º de Dezembro, terminando a peça com uma frase um tanto enigmática: "toda a Europa aclamou a subida de D. João IV ao trono".

Curiosamente, não sei porquê, tinha a ideia contrária, de que este D.João IV tinha levado uns a ser reconhecido pelo Vaticano e pelos mais importantes reis europeus... Mas certamente o Mentiroso-mor do Reino deve ter umas quantas quinto-imperialistas fontes mais correctas do que as minhas.

E viva Portugal (que se fossemos espanhóis hoje não tínhamos feriado...)!

* o título deve ser lido a cantar dino-meiristicamente.

Um poema de aniversário

“We might never fall in love” de W.B.
poema dedicado ao Ricardo e à Catarina, por ocasião do primeiro aniversáro da Livraria Trama

Não sei bem o que é, é um poema,
é um dia de chuva na segunda circular,
a estrada de Paço d’ Arcos, um prédio no Cacém,
a música do Walter Benjamin no mp3
(afinal não era o filósofo austríaco, era outro),
as compras de natal ainda por fazer,
o início do mês, a greve dos professores,
problemas no multibanco,
um café que tomámos na Livraria Trama
enquanto víamos as pessoas
de chapéu-de-chuva a passar,
seria certamente um dia de chuva,
o carro estacionado e quantas moedas puseste,
a polícia municipal a anotar uma matrícula
que desconheço,
a tua mão a deslizar pelo braço do sofá branco,
eu a contar os minutos,
a pensar em explosões em Bombaim
ou cá dentro de mim.
Não sei bem o que é, é um poema,
é uma chamada tua a meio da noite que me acorda,
uma tentativa falhada para uma banda sonora,
três asneiras da janela aberta do carro
no cruzamento para Queluz,
um livro, muitos livros, na mala, no banco de trás,
as compras do jantar ainda por fazer,
o fim do mês, a greve dos carteiros,
problemas com as contas no banco,
um encontro que tivemos na Livraria Trama
enquanto não havia mais ninguém
em qualquer parte do mundo,
em qualquer parte de nós,
ter-me esquecido onde deixei o carro
e a tua mão a deslizar, eternamente,
pelo braço do sofá branco
e eu a contar os minutos
até que ela chegue a mim,
aqui dentro de mim.

LFC