terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uns rapazes e umas raparigas

Depois de ter estado com o Rui Zink na Livrododia, sábado, e apesar de o livro mais falado por ali ter sido O Destino Turístico, que foi lançado no final de Outubro, o que me acompanhou a casa foi A Espera, livro originalmente publicado em 1998 e reescrito em 2007. Para ajudar a confundir as datas, há que referir que o mesmo conta uma história que se passou lá para os idos de 1984, período prévio à entrada de Portugal na CEE. Aliás, é esse o ponto central do livro: a Comunidade Europeia, tendo em vista a entrada de Portugal no grupo, coloca uma série de condições, sendo que uma delas é a total proibição da caça à baleia, actividade da qual ainda existiam resquícios nos Açores. Rui (a personagem, não o autor) segue para os Açores com Ana (sua amiga/namorada/companheira ou outra coisa qualquer), ele em busca das baleias e ela em busca de captar com a sua máquina fotográfica o mistério das Ilhas Desconhecidas. Ambos conseguem os seus intentos e algo mais. Ela, cheia de sentido de transgressão, consegue um passeio de veleiro, e ele, cheio de receios adolescentes (e alguma loucura), conseguiu (para além da baleia) uma visão de futuro (achou ele, porque nunca na vida aquele Rui será um Tom).

Um pequeno interlúdio para explicar esta de Tom. Tom e Sharon são um casal (casal? sim, casal) que anda a viajar de veleiro pelo mundo. Tom perto dos setentas, antigo oficial da Marinha, antigo peixe de sangue na guelra, carregando consigo a culpa de um casamento falhado. Sharon, quarenta anos, aventureira dos mares, única pessoa com um completo sentido de responsabilidade neste livro.

Continuemos, então. A Espera é um livro que se lê num sopro. Eu, pelo menos, comecei a lê-lo no domingo de manhã, continuei pela tarde, e deixei apenas algumas páginas para terminar na noite de segunda-feira. É um grande livro? Não, não será. Mas é um livro sincero e verdadeiro. O que quer isto dizer? Quer dizer que, passando as primeiras páginas, em que a confusão que se passa na cabeça do Rui (a personagem) contamina um pouco a escrita do Rui (o escritor), entramos numa experiência comparável ao habituarmo-nos ao balanço do barco. O nosso cérebro percebe que o livro avança assim, como uma casca de noz pelo oceano, umas vezes em balanços que nos animam, outras em acalmias que nos ensonam, mas sempre mantendo-nos conscientes da fragilidade de um romance (no sentido arquitectónico do termo) perante uma boa história. Talvez seja por isso que a leitura de A Espera se torne tão urgente. Porque, ao mesmo tempo que nos transporta para um lugar onde as boas histórias parecem acontecer todos os dias (os Açores, um barco, a mesa de um bar), também nos lembra, constantemente, daquilo que nós somos. Uns rapazes e raparigas a fazer pela vida.

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