quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Lázzarus, primeiro livro de Viegas Pinto


De volta à pensão, calado, fechado em si, o Rui tentava responder de modo isento e coerente à pergunta que Lázaro lhe havia feito. E não era nada em que ele não tivesse pensado anteriormente, no fundo uma questão tão simples e tão complexa. Como seria se Jesus tivesse vindo ao mundo nos dias de hoje? Haveria hoje uma religião cristã tal como a conhecemos ou pelo contrário, haveria um vazio de ideias e de ideais católicos no seu lugar? Ou seria essa mesma religião hoje um monstro, um portento de influência capaz de mover montanhas e países, única e totalitarista à escala mundial, como aliás sempre foi essa a sua vontade nos tempos antigos? Como teria sido se, quando Jesus caminhou pela Terra, os homens fossem mais informados, as notícias corressem pelo ar com som e a cores, com diferentes ângulos de opinião e debatidas por um vasto painel de individualidades? E a justiça mais justa, os tribunais mais isentos e sérios e a própria religião existente mais humana e social?
Olhando através da janela para um belo fim de tarde que se desenrolava à sua frente, perguntava-se agora como haveria de explicar ao Sr. Emídio aquilo que já havia decidido fazer em relação à história de Lázaro. Mas iria o seu patrão concordar com ele, agora que se encontravam numa época de vacas magras e todos os tostões eram poucos para o jornal continuar a existir? Decidiu-se então, num repente, telefonar para Torres Vedras, directamente para o jornal e não para o telemóvel do Sr. Emídio. Se ele o atendesse ou não, seria o destino a decidir o que haveria de fazer dali em diante
.”

(…)

“(…)E sempre, mesmo nesse tempo, sem televisão, sem revistas e jornais, sem informação e cultura, sem diversidade… sem luz, sempre surgiram algumas vozes descrentes, cépticas. Que discordavam, que negavam, que diziam “Não, esse homem mente” e “Não, esse homem é um impostor”. E assim fizeram com Nosso Senhor Jesus Cristo, assim fizeram com S. João Batista e muitos outros homens santos que ao invés de uma espada e de um escudo viajavam apenas com a maior dádiva que Deus lhes havia concedido: a palavra. E se por ela viveram, também por ela morreram. (…)
(…) E os media, nos dias de hoje, não negam e duvidam de tudo e mais alguma coisa, não atacam, julgam, destroem, idolatram, descredibilizam, arrastam pela lama, queimam na fogueira, crucificam! Não são eles a inquisição de outrora, o clero corporativo e todo-poderoso, dogmático, fundamentalista, faccioso… Hoje, como ontem, são capazes de derrubar um presidente e eleger um rei! A sua opinião é regra, representa a verdade e o bom senso. E quando unidos, poucos podem enfrentá-los. As suas chamas dilaceram o mais sólido carácter, as suas rodas trituram o mais justo dos mortais e o seu chicote consegue vergar o mais virtuoso dos homens, como se do mais vil pecador se tratasse.
(…) Mas responda-me, se souber. (…) Se Jesus caminhasse hoje de novo entre nós, ou João Batista por exemplo, que tratamento mereceria ele da parte dos meios de comunicação? Seria considerado um louco, um pária, ou um santo, um exemplo a seguir? E os Fariseus, teriam a opinião pública do lado deles ou seriam crucificados nos jornais? Contribuiriam os media para o surgimento de uma nova religião ou seriam eles o travão que impediria o seu surgimento e proliferação? Será que me consegue responder a isso?”
Alberto Leonel Viegas Clímaco Pinto nasceu em Torres Vedras em 1969. Formou-se em Engenharia Civil no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. No ano de 2003 escreveu o seu primeiro conto, “Flash”, tendo de seguida concluído mais seis obras, das quais “Lázzarus” é a primeira a ser publicada, pela Chiado Editora.

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