terça-feira, 4 de novembro de 2008

a hora do café

a mulher acabou de servir os cafés e refugiou-se na copa, onde tinha guardada uma chávena de chá quente. estava um frio de quebrar espelhos, na pequena vila da serra. da copa, a mulher conseguia ver os clientes que, distraídos, iam sorvendo devagar os cafés, entre palavras de ocasião e olhares furtivos para a televisão, onde passava um qualquer jogo de futebol. do chá quente a mulher tirava alguns dos pensamentos que lhe povoavam a cabeça, como o seu filho dormindo na cama grande da casa da avó, o bem que sabe deitar num sofá a ver um filme numa noite sem compromissos, as saudades que ela tinha de sentir as mãos gretadas de um homem forte a prender-lhe a cintura enquanto a penetrava. ao levantar os olhos da chávena, já outro cliente esperava ao balcão, a mesma lassidão dos gestos, o mesmo olhar perdido entre a máquina de café e a televisão, o mesmo desprezo amigável na forma de pedir a bica. a mulher sorriu e virou-lhe costas, como quem encontra algum prazer nestes jogos de rapazes.

1 comentário:

  1. muito muito bom. quase que me apetecia roubar-te este texto para o por no balado do café triste:)

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