segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Direito à Indignação (ou tempo de antena para livreiros que valem a pena)

Joaquim Gonçalves, livreiro da A das Artes, fez-me chegar este email que transcrevo na íntegra.

Ninguém se revolta com isto?
Eu revolto. O dinheiro não é muito, aliás, de muito, tem pouco. O dinheiro, simplesmente, não é. Não há. Existe teoricamente ou por um breve lapso de tempo, entre a carteira do cliente e o fundo sem fundo do banco. Entretanto, no entanto, não sendo tanto, vai dando para ir servindo os gostos do cliente, aqui e ali, com um ou outro pedido mais difícil de arranjar nos fornecedores que confiam em nós. E no mercado. Se não somos clientes com conta aberta, enviam-nos livros à cobrança. Alguns até são simpáticos ao ponto de não cobrarem portes a partir de determinado valor. Alguns até são simpáticos ao ponto de cobrarem os portes mas deixarem que façamos transferência bancária para evitar o porte da cobrança. Há, todavia, “produtos”, como agora lhes chamam alguns novos “abutres” que gerem o sector livreiro, que são exclusivos de determinado fornecedor. Esses têm de ser adquiridos exclusivamente na respectiva fonte. Porque é essa fonte que produz e distribui, em exclusivo, o seu “produto”. Antigamente chamava-se livros.Deixemo-nos de poesia.A Porto Editora tem novas condições de fornecimento. Em resumo, só vende aos seus clientes. E os seus clientes são apenas clientes “a crédito”! Imaginam uma empresa que só vende a crédito! Há a Porto Editora! Dinheiro à vista? De forma nenhuma.Mas, atenção. Para ser cliente da Porto Editora temos de apresentar uma garantia bancária mínima de 5000€ (cinco mil euros) que, como todos sabemos, tem de ser paga ao Banco que no-la dá. E este é um custo acrescido para o “produto”, o qual não pode ser debitado ao cliente dadas as regras sobejamente ignoradas da Lei do Preço Fixo do Livro.A arrogante Porto Editora tem todo o direito de ditar as suas regras. Mas a Porto Editora, tem, também, de acatar as regras da Sociedade em que está inserida. Para fazer cumprir essas regras existem os instrumentos e instituições reguladoras.Desculpem a minha ignorância se é errada a minha corrente de pensamento, mas julgo que a Porto Editora não se pode negar a vender um “produto” que é exclusivamente seu a uma empresa que é legalmente certificada como revendedora de “produtos” do tipo a que nos referimos, a preço de revenda, desde que essa empresa pague.O que a Porto Editora está a fazer é colocar à sua porta a famigerada tabuleta ilegal do “Reservado o direito de admissão”.Há mais de dois meses perguntei à referida empresa, por correio electrónico, qual a forma de adquirir os seus “produtos” sem ser a crédito. (Eu pago logo, senhores! Quem não desejaria ter sempre esta disponibilidade?). Até hoje, apesar do meio expedito do contacto, não obtive nenhuma resposta.Lamentavelmente, porque fui um dos não admitidos no “clube”, caro, da Porto Editora, socorri-me de uma das tais entidades reguladoras do mercado queixando-me da situação e da desigualdade imposta em termos de concorrência. Falo da “Autoridade da Concorrência”. Há mais de um mês. Também “on-line”, preenchendo um formulário que é apresentado e facultando documentos que ajudariam à análise. Respostas… Nada! Na semana passada enviei um “e-mail” perguntando o que se passava, já que estou diariamente a ser prejudicado pela situação. O mail foi lido. A resposta é que não aparece.Em vez de “produtos” eu gostava de voltar a falar de livros atrás do balcão ou no meio das prateleiras. Com pessoas e não com gestores de “produtos”.Ninguém se revolta com isto? Eu revolto.

1 comentário:

  1. Entendo perfeitamente a situação.
    É desesperante ter pedidos de clientes que não se podem servir porque os distribuidores, e às vezes as próprias editoras, aparentemente não estão interesados em fazer o seu trabalho. Talvez seja mais fácil ter só um ou dois mega-canais de venda, parece que as pequenas livrarias só estamos aqui para os chatear com os nossos pequenos pedidos. Que incórdio, isto de servir um par de exemplares de uns quantos títulos esquisitos em vez de encher camiões com fornadas dos best-sellers do momento...
    Esquecem-se é de que todas as pequenas livrarias juntas continuamos a representar uma boa margem de negócio que não deviam descuidar. Andam a dar cabo dos seus próprios pequenos clientes e depois queixam-se quando um dos grandes clientes decide impôr-lhes condições (ainda mais) leoninas e não têm poder negocial para parar-lhes os pés.
    Aqui em Espanha há um par de grandes grupos que também demonstram o mesmo desinteresse em trabalhar com pequenas livrarias, mas por sorte o entramado de distribuidoras e subdistribuidoras é bastante denso y permite encontrar "atalhos" para trazer livros de grupos como Santillana ou Anaya sem ter de ter conta de crédito aberta com eles, e isto com relativa rapidez. De todas as formas, também se nota concentração no campo da distribuição de livros, e com a concentração começam a surgir casos claros de deterioro na qualidade do serviço, como é o caso da distribuidora que entre outras editoras, distribui para o grupo Planeta.
    Quanto à situação em Portugal, enfim, eu não vivo aí e só tenho a experiência como importadora de alguns livros portugueses para o nosso pequeno fundo nesse idioma, mas a verdade é que a perspectiva para quem está de fora é penosa: faltam distribuidoras que trabalhem para a exportação (aqui está um nicho de negócio a explorar, nós seremos os primeiros clientes de quem se dedicar a isto com um mínimo de profissionalismo), muitas editoras não têm nem página web para consultar o catálogo e pedir os livros directamente, toda a gente parece acreditar que responder a e-mails está fora das suas competências, e a sensação geral é de desinteresse por vender livros e de enviá-los ao cliente (no nosso caso, uma livraria) num prazo aceitável.
    Basicamente, temos os mesmos problemas com Portugal que para importar livros romenos, com as diferenças de que nos dirigimos aos portugueses em português e aos romenos em inglês, e que Portugal está muito mais perto.
    E como cereja no topo do bolo, meu sócio (que não fala português) e eu começamos a suspeitar que quem se dirige a uma empresa portuguesa do sector editorial noutra língua tem mais probabilidades de que lhe respondam do que em português, vá-se lá saber porque estranhos complexos lusos...
    Enfim, todo esto choradinho (parece que é uma deformação profissional) para desejar muita sorte e sobretudo muita paciência a Joaquim Gonçalves e aos sufridores livreiros portugueses em geral.
    Sugestão: a união faz a força.
    Muita sorte!

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