segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O regresso a casa de Agustina


Cresci traumatizado pela Agustina, pois tinha eu 17 anos e andava no 12º ano, obrigaram-me a ler A Síbila, evento que não se prolongou para além do oitavo capítulo, tendo a edição do livro sido despachada logo que possível (no ano seguinte, na faculdade, oferecida) do espaço da minha pequena biblioteca em construção.
Desde aí, nunca mais livro da Agustina entrou lá em casa, em contradição com o gozo que me deu ouvir a senhora, sempre que possível, fosse em debates, na televisão ou em entrevistas. Havia, notoriamente, uma distância entre aquilo de que eu tinha fugido (um mundo de mulheres, a minha imaturidade) e aquilo que tanto me atraía (a visão certeira - mesmo ao tipo canelada - que só algumas mulheres do norte têm, e mais ninguém tem).
Quando percebi que Dicionário Imperfeito reunia excertos de não-ficção de Agustina, pensei que a minha oportunidade de redenção tinha chegado. Comprei o livro e parti à procura da evidência. E logo a encontrei:
Poeta
(...)
Não há como um humorista para ser poeta: delicioso e autêntico poeta. Em geral não gosto daqueles poetas a quem, como dizia Nietzsche, a dor faz cacarejar como as galinhas. Nos autênticos poetas, o humor é prova duma desilusão profunda. Algo que, por ser subtil, não tem nome, nem aspecto. É uma sombra da dor, mas não é dor.
*
Se há alguém que não se interessa pelos poetas, são as mulheres. As paixões que as palavras desencadeiam, isso as mulheres recebem no código que a poesia contém.
O resto lerei no meu sofá. Hoje é o dia em que Agustina regressa a minha casa.

1 comentário:

  1. já somos dois.

    Para quem, como eu, não trabalha entre os livros (apesar de ter feito toda a formação nessa área), a Agustina nunca é a escolhida quando me apetece ler pelo prazer que é ler ou mesmo quando estou mais predisposta a ler um livro que desafie o leitor.

    Mas nem sempre o hábito faz o monge e andava eu ainda pelos bancos da faculdade, quando li "Adivinhas de Pedro e Inês".

    Uma história dentro da História, com inúmeras referências aos locais por onde Pedro e Inês andaram a enamorar-se. Sem dúvida, um enlace perfeito daquilo que se pensa ser a realidade histórica (ou será a lenda?) com a ficção.

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