terça-feira, 14 de outubro de 2008

Milan Kundera sub-21, João Jr. e os lugares da ficção

Numa notícia da revista checa Respekt, publicada ontem, e divulgada no DN de hoje, revela-se o facto de Milan Kundera ter denunciado, quando tinha 21 anos, um jovem espião ao serviço dos norte-americanos à polícia comunista. Mais uma vez, é lançada a questão sobre os intelectuais e a forma como estes abordam as questões éticas das suas personagens, em comparação com a sua própria vida. Talvez eu pudesse justificar o facto com a idade, à altura, dos intervenientes. Aliás, tão condenável é o facto de Milan Kundera ter denunciado este jovem, como é condenável o facto desse mesmo jovem, investido como espião internacional, correu a contar a alguns dos seus amigos (pelo menos, não é isto que estamos habituados a ver nos filmes). Mas eu não acho que a idade seja justificação para alguma coisa. Há também a questão do contexto histórico, e pensar que durante a juventude não somos impressionados pela ideia da ordem é esquecer aquilo que andamos a tentar ensinar aos nossos filhos - não se esqueçam, rapazes, o que é bom hoje, pode ser mau amanhã (nem preciso de dar exemplos...). Mas, enfim, o que esta notícia e a reacção a ela têm de interessante para mim, é que confirmam que a habilidade para fazer uma coisa não nos torna capazes de fazer outras coisas semelhantes (na sua aparência...). Isto faz-me lembrar uma reportagem da Liga dos Últimos, na semana passada. João Jr., o treinador do Peladeiros, de Viana do Castelo, aproveitou o intervalo para anunciar aos seus jogadores que, na semana seguinte, seria ele a jogar, visto que os que estavam em campo não sabiam cumprir as suas funções. Para mim, isto é uma representação dos casos de condenação dos intelectuais (coisa que, se bem me lembro, era frequente nos regimes totalitários). Em ambos os casos, pessoas baseiam-se em crenças que garantem que, pensar num assunto, é o mesmo que o viver. Não distinguem realidade da ficção. O que lhes é assegurado, constantemente, pela impossibilidade de comprarmos um bilhete de comboio para o país das maravilhas.

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