quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Como se compram e vendem livros em Portugal

A mudança mais visível no mercado livreiro português está, normalmente, ligada à entrada da FNAC em Portugal, com a abertura da sua loja no Centro Comercial Colombo em 1998. No entanto, a descaracterização do mercado começou antes, nos anos 80, quando uma cadeia de hipermercados começou a comercializar o produto livro nas suas lojas, aplicando aos livros um percentual de desconto que tornava a concorrência impossível para os pequenos livreiros. Poderá datar-se da década de oitenta o início do declínio de uma rede de pequenos livreiros e de papelarias/livrarias que alimentaram o gosto pela leitura de milhares e milhares de portugueses. A partir desse dia, a realidade nunca mais seria a mesma.

A entrada da FNAC foi, a princípio, visto como algo de positivo para o consumidor. A estratégia do livro mais barato levou a constituição de uma imagem de marca onde é passada a ideia de que é a própria FNAC, num serviço social, quem abdica de parte dos seus lucros para benefício do consumidor final. A realidade é bem diferente, no entanto. Tornando o livro um produto do mercado de massas, empresas como a FNAC e restantes cadeias de hipermercados, impuseram, ao longo dos anos, descontos cada vez maiores às Editoras. Para conseguir responder a um conjunto de retalhistas cada vez mais exigentes e competitivos, as Editoras foram levadas a aumentar os preços de venda ao público, conseguindo assim satisfazer a necessidade de lucro e a manutenção da sua actividade.

Tem vindo a crescer, em paralelo, o número de livros vendidos em cada ano e também o preço médio de um livro em Portugal. Por outro lado, é cada vez menor a diversidade do que é editado em Portugal, bem como a capacidade de pequenas editoras conseguirem exposição nas redes livreiras. Para além disso, o tecido empresarial das pequenas livrarias de rua tem vindo a ser atacado pelo aumento do número de lojas das maiores cadeias e pela lógica de Centro Comercial que invadiu a maior parte das cidades portuguesas. A realidade conduz-nos para um ponto onde será cada vez mais difícil encontrar o livro como um produto cultural, estando hoje em dia definitivamente colocado entre os produtos destinados ao lazer.

Para quem estuda e acompanha os mercados editoriais de todo o mundo, esta realidade é apenas a transposição de modelos de outros países aplicado à realidade portuguesa. A agravante é que, sendo Portugal um mercado muito pequeno, a tendência tem sido a de apostar nos produtos derivados dos mercados internacionais (com uma percentagem de traduções de livros de duvidosa qualidade) em lugar de se fazer um investimento na produção nacional. A resposta do Estado para esta situação, peca por escassa e por não se perceber as suas motivações. Se por um lado é claro que a aposta do Estado passa por incentivar a leitura junto dos mais jovens, com o Plano Nacional de Leitura e a implementação de programas destinados aos alunos do 1º Ciclo nas Bibliotecas Públicas, essas mesmas iniciativas acabam por beneficiar, comercialmente, um grupo restrito de editoras e um grupo relativamente restrito de autores, ficando por esclarecer se está a ser defendida a especificidade cultural de cada região e as escolhas de cada escola e biblioteca, ou se estamos só num processo de normalização do acesso ao livro.

Em resumo, temos hoje livros mais caros, com a aposta na diversidade a responder apenas aos incentivos do mediatismo e não do usufruto cultural. Sendo um mercado comercial atraente ao investimento, está dependente de uma série de especificidades que impedem os lucros fáceis e de muitos dígitos. O que acontecerá a seguir a esta onda de investimentos sem paralelo na história da edição em Portugal é, neste momento, uma previsão que ninguém poderá fazer.

Artigo publicado no número 3 da Revista Rubra, à venda nas Livrarias Letra Livre, Trama e Livrododia. Compras on line através do email revistarubra at gmail.com

1 comentário:

  1. Penso que uma maior exposicao e acesso a livros eh uma coisa boa para o consumidor, mesmo que sejam um pouco mais caros. Para mim a grande revolucao foi on-line com a Amazon e retailers semelhantes..nunca comprei tanto livro na minha vida.

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