terça-feira, 16 de setembro de 2008

Quem tem medo da Poesia?

Convive-se em Portugal com duas ideias feitas sobre a poesia, aparentemente contraditórias entre si: por um lado “somos um país de poetas” e por outro “a poesia não vende”. O que pretendo aqui é aprofundar um pouco mais os possíveis significados destas duas afirmações tão bem aceites do Minho ao Algarve, e também nas Ilhas.

A primeira das afirmações, “somos um país de poetas”, está mesmo a pedir para ser refutada. O facto de termos tido um Marquês de Pombal e um Salazar, não fez de nós um país de ditadores, o Eusébio e o Cristiano Ronaldo não fazem de nós um país de futebolistas, não seriam o Camões e o Pessoa (este, no seu âmago, tão pouco português) a fazer-nos um país de poetas. Desconfio que tenha sido algum poeta menor quem tenha difundido essa ideia. Porque existem para aí muitos projectos de ditadores, em casas, empresas, associações e municípios, tal como existem, quase a cada esquina, projectos de jogadores de futebol, uns mais falhados que outros, mesmo que o país esteja cheio de escolinhas (inovações educativas à parte) que prometem ensinar o futebol, agora a sério, às novas gerações. Projectos de poetas também existem muitos. Mas agora sermos um país de poetas não valeu, sequer, para que o Manuel Alegre pudesse escrever versos de uma varanda de Belém.

A segunda das afirmações, “a poesia não vende”, terá uma parte de verdade e outra de exagero. Quando me dizem que a poesia não vende, a primeira coisa que me vem à ideia é a quantidade de coisas que não vendem, mesmo sem sair do produto livro. A quantidade de romances que não vende, as peças de teatro que não vendem, os livros de astrologia que não vendem, os livros de história que não vendem, os livros infantis que não vendem. Tomando a coisa por géneros, pode-se dizer de tudo que não vende. É claro que, em cada um deles, a excepções confirmam as regras. E, aí está, vender terá muito pouco que ver com qualidade. Existem óptimos poetas que só vendem livros a meia dúzia de iluminados que lhe reconhecem as frases e péssimos poetas que vendem centenas porque têm muitos amigos e encaram o livro como um projecto maior das suas vidas (vejam bem que em quase todos os concelhos de Portugal há um poeta local que, com a ajuda da Câmara Municipal ou alguma empresa benemérita fazem edições de autor de mil exemplares e os vendem, quase porta a porta, a toda a gente). A poesia, enquanto projecto editorial, não é um negócio por aí além. Tal como não são negócios por aí além todos os projectos que não apostem tudo na seriedade das suas escolhas e na qualidade dos seus produtos. A poesia, enquanto projecto editorial, é um caminho difícil, cheio de problemas e pedras, mas que encontra sempre, nos seus leitores, por muito poucos que eles sejam, uma rede de afectos e interesses de um valor incalculável.

A boa notícia é que se pode viver disso.

1 comentário:

  1. Tive conhecimento do seu nome por amiga, Inês Leitão, gostei do que vi por aqui e sobretudo do que li. Deixo-lhe também um pouco de letras com o meu blogue: www.nascerluazul.blogspot.com
    'é muito bom sermos um país de poetas, isso significa que utilizamos o coração e não apenas as mãos'

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