sábado, 13 de setembro de 2008

Pequeno contributo para uma possível polémica acerca de poesia, gerações e novidades

Depois de ontem aqui ter plantado uma dúvida que me foi suscitada pela leitura do texto de Luís Miguel Queirós no Ipsílon, e dessa dúvida ter levado a um comentário alongado do Henrique Fialho sobre o assunto, tento hoje, feita uma segunda leitura do texto primeiramente mencionado, descobrir algumas pistas para comentar a pergunta "Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?".

Como o próprio Queirós indica no seu texto, "uma certa ansidade contemporânea pela descoberta" joga, a maior parte das vezes, tanto contra os actores como contra o próprio público. Tantas e tantas vezes, à efusividade da descoberta de algo novo, segue-se a natural desilusão de quem não viu bem, não entendeu bem que o novo, para o ser realmente, precisa de tempo para envelhecer. Na poesia, em toda a Arte, esta regra é ainda mais fulcral que noutras áreas: o jovem poeta ainda não teve o tempo necessário para ler e compreender, largamente, aquilo que veio antes dele, e vive na constante iminência de vir a não se auto-reconhecer naquilo que escreve enquanto novo autor. Com isto pretendo, de entrada, defender aqueles a quem se tenta colar o rótulo de novo: o ruído mediático é um inimigo feroz da poesia, tanto quanto pode ferir o silêncio.

Esperar-se que um jornal, mesmo que um suplemento cultural, faça a resenha de um movimento ou de uma geração é, ainda, esperar de mais. A principal crítica que se poderá fazer ao texto de Queirós é não ficar claro, em momento algum, se estamos perante uma reportagem ou um artigo de opinião. Essa hibridez joga contra o texto. Soa um pouco como uma tentativa de compensar a falta de atenção que se dá a poesia com um fácil engano: jogar a poesia para a primeira página quando ninguém está habituado a encontrá-la sequer na última. Isto deixa em cheque tanto quem escreve como quem lê. Mas eu não me venho aqui queixar do destaque que se dá: para quem vive na poesia e pela divulgação da poesia, qualquer esmola é satisfatória e permite acreditar que o futuro, se o houver, será melhor.

Queirós confirma no seu texto algumas verdades há muito constatadas: a poesia, mesmo a famosa, pouco ou nada vende, as livrarias, na sua maioria, não lhe reservam espaço, os jornais tanto menos, as editoras olham-na como uma possibilidade de prestígio mais do que um verdadeiro programa editorial. Se olharmos o panorama editorial português, só a Deriva cumpre enquanto editora de poesia: tem um programa editorial constante, pensado, em que a apresentação dos autores resume um posicionamento sobre o fenómeno poético. A isso junta uma capacidade de estar presente na maior parte das livrarias nacionais, através de uma distribuidora consistente. Mais nenhuma editora cumpre estes requisitos, programa e distribuição, para além de que os livros desta editora, sedeada no Porto, têm gozado, na imprensa, até de alguma atenção, com anúncios de publicações e críticas.

Mas o ponto inicial do texto de Queirós vem trazer à discussão um tema que tem dividido os leitores e os poetas portugueses desde os anos 70: precisará a poesia de um crítico que a justifique? Serão as gerações coisas de críticos e não de poetas? Que contributo poderá dar um crítico a uma geração? Falo disto também num tempo em que a crítica da poesia, e de toda a literatura, passou a ser coisa de jornal, e os jornais, então, coisa de leitura rápida e facilmente esquecida. Se Manuel de Freitas e Pedro Mexia, pertencentes a essa "nova geração" de que Queirós fala, são os críticos dos anos 90, que contributo têm dado, ou estão dispostos a dar, para a produção de material crítico sobre os poetas do séc.XXI? A meu ver, estará aqui o engano, não só deste texto, mas da própria ideia de geração na poesia, pelo menos na actual poesia portuguesa. Uma geração que não se conhece, nem reconhece, que pouco se encontra, que não fala e não discute, é uma geração que não existe. Faria todo sentido juntar, numa lista de novíssimos (ou de outra coisa qualquer) gente que publicou já sete livros a gente que não publicou nenhum se, de facto, fosse gente que trabalhasse em conjunto, se reunisse para problematizar o que é ou não é a poesia de agora. Mas como isso não acontece, não fazemos mais do que jogar à sorte a possibilidade de adivinhar um novo poeta num só poema.

Não acreditando em gerações, eu, não acredito mesmo nada numa geração do século XXI. Porque esta nossa capacidade de encontrar "um qualquer obscuro poeta norte-americano" nos tem tirado, muitas vezes, a vontade de ir até a uma biblioteca folhear aqueles que, antes de nós, escreveram na nossa língua. E não há geração sem língua, sem história. Os melhores de nós serão aqueles que até mais tarde souberem reinventar a sua língua e a sua poesia. Isso dar-lhes-á a possibilidade de, então, apontar para entre os jovens que serão a novíssima geração do segundo quarto do século XXI. A única certeza que temos hoje é que, nesse gesto, iremos, com certeza, acertar ao lado.

5 comentários:

  1. não tive oportunidade de ler o texto da Y (ou lá como a querem intitular), mas sobre esta conversa de gerações de poesia, que começou, segundo me lembro, no ciberespaço, em 2002 ou 2003, já nãp há muito a dizer, só a repetir - salvo excepções mais ou menos honradas ou interessadas.

    naquela época - ainda tão perto, mas esquecida por muitos - foram remetidos para o estrelato nomes como Pedro Mexia, José Mário Silva, José Luís Peixoto, Manuel de Freitas, Gonçalo M. Tavares, entre outros, conforme o gurpo de influência a que pertenciam ou consoante o grau de isolamento de cada um.

    A discussão sobre a geração anos 90 passava por uma renovação para o séc. XXI talhada pelos interesses que se instalavam.

    Ao contrário de si, acredito em gerações exactamente pelos motivos comportamentais que descreve, comunicação interpares ou entre partes interessadas, criadores, críticos, mecenas, leitores, gente com ideias e com vontade de as pôr cá fora.

    Participei em algumas discussões sobre a geração de 90 e não vou voltar - até porque me afastei há muito - ao assunto com a ideia de se repetir a discussão com a geração XXI.

    Porque não existiu a geração de 90 (finais) nem a geração XXI (inicio - ou alguém se esqueceu que um séc tem 100 anos?) existirá.

    A sociedade é individualista e poucos são os que se comportam em grupo pelo grupo e não por interesses individuais.

    O movimento mais interessante a que assisti surgiu com a Averno e a revista Periférica. Nesta revista discutiu-se a questão geracional, em profunda batalha com Pedro Mexia - que escrevia algures num jornal qualquer contra os interesses instalados no meio cultural trazido por Manuel de Freitas... acho que era isso.

    Quanto ao Henrique, espero que com este post do Luís, se lhe torne mais claro o que significa não acreditar numa suposta geração constituída por indivíduos do umbigo (outra discussão antiga), que construíram alguma coisa, que tentam alguma coisa... em grupos... porque é giro, porque é bom criar lobbies (eu gosto até um certo limite: quando o peixe está podre) ganhadores... mas ganhadores de quê?

    Existem pessoas que escrevem e publicam, outros que escrevem e não publicam, os que escrevem e se publicam, os que não escrevem e fazem comentários idiotas como este que deixo aqui, e os que que realizam o aprofundado movimento da crítica, que coincidentemente, tantas vezes, não adiantam mais do que palmadinhas nas costas de amigos, amigalhaços e companheiros de route do mundo virtual.

    Esse artigo da Y é o que fôr... daqui antevejo um vazio e o gastar de papel ou bits e bytes, como eu faço aqui.

    Do pouco que vou seguindo, é sempre interessante ver que nada muda, venham anos.

    O Luís que continue o seu trabalho como editor e escritor, espero que não esteja a perder muito dinheiro... ou terá que ainda ir fazer uma horas como barman para a noite de Sta Cruz.

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  2. tenho seguido esta "novela". concordo com o geral deste novo post. e até te digo - nos últimos anos, quase tudo o que leio é poesia portuguesa. não por algum género de militância, mas porque de facto é o que me interessa ler.

    sim: essa "geração" não se encontra. haverá pequenas quintinhas que geram algumas rivalidades um bocado patetas, e sempre algumas vaidades.

    além disso - para poder falar de uma "geração" seria necessário passar algum tempo sobre a coisa que desse perspectiva - assim funciona a historiografia.

    se tu dizes isso da deriva, como conheces bem o meio, acredito - mas por acaso não tinha essa ideia.

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  3. «Quanto ao Henrique, espero que com este post do Luís, se lhe torne mais claro o que significa não acreditar numa suposta geração constituída por indivíduos do umbigo (outra discussão antiga), que construíram alguma coisa, que tentam alguma coisa... em grupos... porque é giro, porque é bom criar lobbies (eu gosto até um certo limite: quando o peixe está podre) ganhadores... mas ganhadores de quê?»


    Se puder explicar melhor o que quer dizer com este parágrafo, fico-lhe muito agradecido.

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  4. explicarei o possível, pois o que quer dizer está lá directo, sem segundas intenções ou vontades, exceptuando uma eventual resposta à questão.

    primeiro quero dizer que não sabia que a minha ID iria aparecer da forma como surge e, por isso, não assinei. o meu nome é José Manuel e, pode ser que te recordes, Henrique, tinha um blog chamado Rainsong.

    o que eu quis dizer, é que se do primeiro posto do Luís parecia transparecer alguma azia por ter sido excluído do tal inusitado artigo, neste post, o seu argumento se tornou claro face à sua incredulidade para com a existência de gerações.

    o resto do parágrafo é, tendo-me identificado, reconhecível no desenvolvimento das questões trazidas por ti (na Antologia...) e por outros, desde o blog Janela Indiscreta ao surgimento do É Cultura Estúpido, no S. Luiz, num tempo em que eram os amadores que discutiam a "cena" em oposição aos dias de hoje, em que são os profissionais que se afirmam como pensadores e trazendo para o debate como interessante algo que já cheira mal, mas tão omissos sobre o passado - renova-se a história com a história.

    lembro-me, sem dados para citação, que muita gente chegou a abordar o umbiguismo da geração de escritores, como do umbisguismo dos que se iam mostrando na altura.

    os grupos de interesses (aplique-se aqui um valor neutro, para que encaixem todos os lados da moeda) foram sendo criados em várias frentes, estando hoje criada e, de alguma forma, consolidada, uma plataforma (plural?) de interesses na divulgação cultural de um conjunto de pessoas, os que eu chamo de resistentes pela causa (não me interessa minimamente o tipo de causa), os ganhadores.

    Repara, Henrique, que digo ganhadores, porque enfrentaram muita coisa até chegarem a projectos como a Minguante ou revistas alternativas, ou outras coisas visíveis e o mostrarem a quem andava distraído e menos desperto (ou sem acessibilidades).

    Ganharam o quê?, pergunto por me interessar uma resposta de quem ganhou. Posso tentar responder, mas vou falhar de certeza.

    Se calhar ganham o prazer de terem conquistado espaço num paronama que sempre se mostrou fechado a "amadores" - lembro a arrogância da Charlotte (Bomba Inteligente). Por terem conseguido criar uma rede social (inclui uma espécie de lobby) única, que emergiu de pontos virtuais comuns, mas físicos tantas vezes distantes, para se tornar concreta.

    Enfim, que há a explicar sobre os factos?

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  5. Olá José Manuel. Nunca me passou pela cabeça que o Luís estivesse com azia. Fosse o caso, recomendar-lhe-ia um copinho de água com uns pingos de aloé vera. ;-) A pergunta que ele colocou foi, pela sua honestidade, um excelente pretexto para discutirmos estas questões. O Luís “sentiu-se” e fez muito bem. Que outros tivessem a humildade de o fazer como ele fez seria excelente.

    Tal como o Luís, eu também não acredito em gerações… em cima do joelho. À distância, podemos falar em sempre discutíveis gerações de 70 (a dos vencidos da vida), gerações de neo-realistas e de surrealistas, a geração de 61 (hmmmmmm), gerações que correspondam a movimentos e a tendências, escolas à moda antiga. Mas tudo isso deve ser feito à distância e respeitando, quanto a mim, o que de essencial existe numa geração: a partilha de um ideal (estético, ético, político, filosófico, científico, etc.) comum.

    As novas gerações, os novíssimos e os emergentes, foram sempre um pretexto para se falar da actualidade. Não são geração nenhuma no sentido acima aludido. São, digamos assim, os neófitos, os gerados, os bebés da velha puta: a poesia. Não percebo é essa oposição entre os amadores e os profissionais. Em matéria de poesia, não acredito, nunca acreditei, em peritos e especialistas (aliás, noutras matérias também desconfio sempre muito dessa gente). Acredito nos amadores, no sentido de serem aqueles que amam. O resto passa-me um bocado ao lado. Aliás, se bem me lembro é precisamente isto que advogo em alguns dos textos reunidos n’“O Meu Cinzeiro Azul” (Canto Escuro, 2007).

    Quanto a isso a que chamas factos, parece-me que é uma história que está ainda por fazer. Não desconfio das intenções de ninguém, nem me interessam minimamente os objectivos que cada um tenha, não me passam ao lado os grupos de interesses porque não sou ingénuo, mas eu faço questão de passar ao lado deles, muito menos estou preocupado com panoramas, charlottes, redes sociais, lobbys, etc. Pessoalmente, não tenho uma visão guerreira destas coisas. Gosto da palavra resistência. Faço o que faço por gosto. Por amadorismo.

    Também te posso dizer que tudo o que ganhei com a escrita e os blogs até hoje foram dores de cabeça, alguma diversão, um ou outro amigo novo, a simpatia de muitos leitores que jamais teria não fosse a minha actividade nos blogs. Nunca tive que enfrentar nada nem ninguém para ter feito o que até agora fiz. A Minguante só precisou de se enfrentar a si própria e algumas dificuldades técnicas. Mas o Fernando chegou para elas. (Atenção: já não tenho nada que ver com a Minguante há algum tempo). Não me importo minimamente que ignorem os meus livros nas páginas dos jornais. De certa forma, até me deixa satisfeito. Tenho tido EXCELENTES surpresas na caixa de e-mail. Só me arrependo de uma coisa: de ainda não ter lido os livros do Luís que o Manuel A. Domingos me fez chegar às mãos há alguns dias. Tenho-os aqui e irei lê-los com toda a atenção. Disso podes estar certinho. :)

    Abraço do Fialho.

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