quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Onde se lia, anteriormente, "esperar que envelheça", ler isto

TIRADO DE RAUL BRANDÃO

1.

Árvores de mãos rotas, o coração
chegou-vos aos poros devagar:
esmola cujo rasto é o corpo
numa inclinação indiferente.
Não alagaram logo os caules –
atrasa, acudindo dentro às coisas
num remoer de caminhos.
Eu, se desse em gesto a minha pobreza,
era logo em flor, se fosse perto.

2.

O chão empurra como mãos empurram.
É a fartura. São os mortos, e os mortos
são iguais à paixão. Planeiam
a geração em caixas aturdidas,
a terra preenchida, vertical.

E o que nos é dado por fruto,
até mesmo as emoções que julgamos
desprendidas no ar, são o
húmus estremecido e o ar,
as coisas que emagrecem no ar.


Poema inédito de Duarte Braga

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