segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Aquele Querido Mês de Agosto


Esta é a imagem que abre o filme "Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes. Uma raposa olha uma galinha, esperando o momento certo para se atirar para dentro do galinheiro. É isso que faz Miguel Gomes? Sim e não. N' "Aquele Querido Mês de Agosto", a raposa olha as galinhas e, se entra no galinheiro, é para debicar milho junto com elas. Neste filme, para além da trama ficcionada, encontramos o caminho até ela na primeira metade da película, em que num formato de documentário vamos conhecendo a região onde se passará a ficção. Miguel Gomes encena o falhanço do seu filme ao mesmo tempo que vai descobrindo as pessoas certas para as personagens que criou. Durante todo o filme, a própria equipa de filmagens faz parte das cenas, aparecendo no meio da acção ou constituíndo-se como acção do filme, como é o caso da brilhante cena final. Tudo isto faz do filme do Miguel Gomes um acontecimento no cinema europeu, como ficou demonstrado no Festival de Cannes e na capa do jornal Libération.
Para além de tudo isso, há, no entanto, algo que se destaca neste filme. Este filme não é um retrato do verão, da música ligeira, das festas populares. Este filme é Portugal. Com as pessoas, a alegria, a tristeza, a fé, a maldade, a desfaçatez. E só por isso se justifica que no meio de um filme que impele, várias vezes, ao riso, exista nele uma aura que me dá vontade de chorar, um choro profundo, uma emoção de profundo reconhecimento com aquilo que eu sou.

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