quinta-feira, 17 de julho de 2008

Santa Cruz - Luís Filipe Cristóvão e Ozias Filho



Talvez tenha existido aqui um arvoredo, antes das dunas,
muito antes de toda esta pedra levada pelo vento para o
mar. Escuto esta atracção de séculos, dia a dia, noite a
noite, este enamoramento da natureza, sensual amor dos
elementos inanimados.
*

A minha idade é não ter idade e eu sou do tempo da
construção das casas, dos pés despidos sobre a terra.
Éramos do tamanho dos dias, apenas acrescentados de
uma fogueira, pequenas brasas restando da sopa quente do
jantar. Éramos do material dos legumes e da fruta pequena
que crescia no quintal. Os nossos pés eram pães duros,
mas as lágrimas e a dor eram adultas, carregavam-nos
como quem leva o trigo até à vila. A minha idade é não ter
idade, pouco sei dizer do que não vivi. Foi desses dias que
me fiz inteiro.
*

Pássaros levantam da areia e vêem teus lábios salgados
feridos de vida, um permanente ardor dos sentidos por
entre os teus dedos a saltitar. Recomeça, assim, o trilho da
tua paixão, medita de pés juntos, envoltos na areia, e um
pássaro, ao ficar para trás, permanece, não no céu, mas nos
teus sonhos.
*

Deixa o mar entrar em tua casa, o teu corpo é água salgada
e navega-se como o reencontro. De que te adianta dizeres
agora que nada sabes de poesia? Segura a cabeça entre as
mãos, nada te faltará. Deixa o mar entrar em tua casa, faz-
-te água, sal, areia, reencontro. Navegas em ti como quem
nasce. É apenas isso, o conhecimento das marés.
*
Refúgio, desde sempre, de eremitas, místicos e poetas, Santa Cruz guarda a magia desses tempos imemoriais, cruzando-a, hoje, com os sinais da modernidade. Quer pelos elementos naturais que ali podemos encontrar, quer pela construção exponencial do final do século XX, trabalhada nos últimos anos com arranjos de espaços públicos, Santa Cruz está cheia de pontos de interesse para quem chega em visita, para quem se propõe a ficar para viver. São esses olhares que se cruzam neste livro. O olhar fotográfico de Ozias Filho (Rio de Janeiro, 1962), trabalhado ao longo de diversas visitas sem guia, pelas ruas e pelas arribas de Santa Cruz, em busca do enquadramento, do pormenor, muitas vezes, da onda ou do vento necessários à imagem. O olhar poético de Luís Filipe Cristóvão (Torres Vedras, 1979), na permanência um ouvinte dos segredos sussurrados pelos ares desta terra. Uma obra que marca a memória do lugar, em imagens e palavras que potenciam, sem dúvida, muitas outras. Um livro em aberto, ao usufruto do lugar, à lembrança no futuro.Ozias Filho é licenciado em Jornalismo e Fotografia, pós-graduado em Edição e Director da Vozes Portugal.Luís Filipe Cristóvão é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, pós-graduado em Teoria da Literatura e Gestor Editorial e Livreiro na Livrododia
Título: Santa Cruz
Autores: Luís Filipe Cristóvão (texto) e Ozias Filho (fotografia)
Editor: Livrododia
Lançamento no dia 2 de Agosto.

1 comentário:

  1. " .. por é nesse canto mais recôndito que nos rencontramos, os pequenos pormenores são os que na altura se mostram mais relevantes. Mostrar os hábitos de uma gente que outrora vivia uma ânsia escondida de viver feliz .. "

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