quinta-feira, 17 de julho de 2008

o seu nome é Riccó (ou Rasmunssen ou Pantani ou Ullrich ou Agostinho ou Chagas...)

Não havendo grande justificação para o facto de, insistentemente, todos os vencedores de provas velocipédicas serem apanhados nas malhas do doping, talvez seja chegada a altura de perceber se é humanamente possível fazer os percursos que estes homens fazem, no tempo que fazem, sem recorrer ao doping. Também é altura de perguntar se aqueles que não são apanhados na ilegalidade não sobrevivem em cima da linha, ou seja, sempre demasiado perto de serem também apanhados. Talvez se esteja a culpar os azarados, inocentando todos os outros que praticam um crime semelhante. Culpar o desporto não serve - é preciso culpar tudo o que o rodeia, a necessidade de espectáculo televisivo a hora marcada, por exemplo, ou a satisfação do patrocinador que exige que determinado atleta surja na frente em determinada etapa. Se o desporto e a competição puderem ser, finalmente, uma variável não programada, talvez o doping não seja necessário. Talvez se possa dormir sossegado sem pensar que o vencedor de hoje será o vilão de amanhã.

3 comentários:

  1. este texto lembrou-me um excerto no livro do Marc Augé que li há poucas semanas:

    O paradoxo exprime-se também muito particularmente no desporto - tão importante na nossa sociedade de imagens quando o corpo que se aproxima mais espectacularmente do corpo glorioso, o corpo do atleta com as suas performances impensáveis, se revela tributário dos produtos que o dopam. O corpo que faz o acontecimento acaba por ser o mais medicalizado, o corpo objecto por excelência, mas não em vista da sua sobrevivência, ou da dos outros (pelo contrário, os tratamentos que sofre são para ele uma ameaça): trata-se antes da ilusão partilhada de escapar ao peso e à terra quer dizer - último paradoxo - ao próprio corpo. O desporto, depois dos novos medos pânicos que nos assaltam, é decerto a grande desilusão de amanhã. À luz deste paradoxo (que quer que a defesa da vida passe pela substituição do corpo objecto ao corpo acontecimento, mas também que a imagem do corpo glorioso se mude facilmente no seu contrário), podemos medir melhor um outro paradoxo do nosso tempo: a coexistência de investigações, difíceis e onerosas, que pretendem expulsar tanto quanto possível o acontecimento do corpo individual, para proteger e prolongar a sua vida, e da morte incontrolada no mundo por obra das violências, mas também da miséria e da doença. Estas mortes, este cadáveres, cuja imagem aparece de vez em quando nos nosso ecrãs, são acontecimentos. Uma utopia planetária não será concebível senão a partir do dia em que consigamos fazer desses acontecimentos o objecto primeiro das nossas preocupações. São preocupações que hoje se esboçam, mas não ganharão em amplitude a não ser que, renunciando aos fantasmas contraditórios dos corpo glorioso, e sem esquecer que as imagens são imagens e os meios são meios, tivermos presente que a relação com outrem, o laço social, o laço simbólico, passa antes de mais, longe das imagens e dos simulacros, pela relação entre os corpos.


    Marc Augé, Para que vivemos?
    traduzido por Miguel Serras Pereira
    Editora 90º

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  2. E quem gosta de ciclismo torna-se cada vez mais incompreendido.

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