terça-feira, 22 de julho de 2008

Maria da Graça e os Portugueses

Maria da Graça é uma mulher que representa muitas das mulheres portuguesas, uma mulher portuguesa que, a maior parte do tempo, nós não queremos que exista ou que fingimos não existir. Não por ser mulher ou por ser portuguesa, apenas porque nos é mais confortável pensar que vivemos num quadradinho à beira-mar plantado onde, mal ou bem, a vida segue o seu caminho sossegada. Maria da Graça pode ter tudo, mas não tem uma vida sossegada. É mulher-a-dias, explorada sexualmente pelo seu patrão, pelo qual nutre uma paixão impossível. O seu marido vive metade do ano no mar, e não morrendo por lá, ela tenta matá-lo nos meses que ele passa em terra. Pior do que tudo isso é a série de desentendimentos que ela mantém com São Pedro, às portas do céu, já que este não a quer deixar morrer de amor.

Maria da Graça representa uma boa parte das nossas desgraças. Os empregos miseráveis mantidos debaixo de promessas inverosímeis, seja de amor, seja de futuro. A distância que mantemos daqueles que nos são mais próximos, nas emoções, nos contactos, na resistência que mantemos ao toque. Somos distantes por natureza, talvez por isso tenhamos ido tão longe para descobrir novos mundos, mas também por isso nunca tivemos grande interesse em aprender ou ensinar algo por lá, roubámos o que tínhamos a roubar e voltámos satisfeitos à nossa pobreza do dia-a-dia. E o pior de tudo, é este querer mandar nos deuses, fazer da nossa fé algo que nos sirva os caprichos, mais que uma experiência de beleza, de divino, de poesia ou de crer.

Maria da Graça é a personagem principal do livro O Apocalipse dos Trabalhadores, de valter hugo mãe, recentemente editado pela Quidnovi. Entrar dentro deste livro é uma experiência semelhante à de entrar na alma do nosso país, agora que vivemos no século XXI. É ver por dentro aquilo que sentimos regularmente cá fora, muitas vezes sem nos apercebermos convenientemente da forma dos monstros que criamos. Tem sido o meu livro desta semana e não me tem sido possível escapar a falar dele a toda a gente que encontro. Como o faço para vocês, leitores desconhecidos desta crónica em rascunho.

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