quinta-feira, 31 de julho de 2008

"eu fui, de facto, uma mulher-a-dias"

valter hugo mãe é hoje entrevistado no DN, por Isabel Lucas. Transcrevo toda a entrevista, porque vale, mesmo, a pena.

Este é um apocalipse cheio de provocações divinas e muito riso. Que apocalipse é este?Embora exista uma diversidade de géneros há a iminência de um apocalipse, de uma impossibilidade de ultrapassar a desgraça final. É a sensação de que a espécie humana se pinta para uma desgraça final. A iminência da morte, o preconceito, a xenofobia, a divisão das classes que não acaba. Isso frustra-me muito enquanto ser humano e cidadão. Frustra-me que não sejamos já maduros o suficiente para ultrapassar essas coisas tão antigas. Já a ideia deste livro estava amadurecida, vi um documentário que me impressionou. Chamava-se Encontro com Milton Santos, esse fabuloso pensador brasileiro que dizia que a humanidade ainda não começou; que ainda estamos nos ensaios para o que há-de ser a humanidade. Para ele a humanidade não há-de ser capaz da crueldade a que assistimos. Para mim aquilo foi espiritual. Encontrei-me nesse protesto e nessa frustração.
Este livro é, então, um protesto?É. Que bom seria se adoptássemos um comportamento de acordo com o que dizemos acreditar.
Como a estratificação social,que passa por coisas tão comezinhas como a lixívia que se divide em classes e que a mulher-a- -dias, Maria da Graça, a protagonista, tão bem conhece? (Risos) Há lixívias gourmet porque há quem não as possa usar. Uma simples lixívia pode ser um padrão de distinção social. Não quis que este livro fosse violento. Sem agredir o leitor, pretendo levá-lo a aceitar o que ele já sabe e a transpor as dificuldades em nos humanizarmos de uma vez por todas.
E escolheu a precariedade laboral das mulheres-a-dias e dos imigrantes de Leste para ilustrar essa desumanidade? Quis que fosse perceptível, por exemplo, que a chegada dos ucranianos a Portugal já acontece em Bragança. Não é uma questão das grandes cidades, mas portuguesa e implica uma postura ética.
E porque diz que não é um livro que agride apesar da iminência de desgraça? Acho que é um livro com muita ternura e que apesar do apocalipse tem muita esperança. Tenho esperança de que vale a pena falar das coisas. Sou contra a tolerância e a favor da aceitação. A tolerância deve ter vindo dos tolos. Não temos de tolerar ninguém, mas de aceitar os outros. Tolerância implica estarmos certos e os outros errados. Sou pela aceitação.
As duas mulheres do livro, Quitéria e Maria da Graça, são capazes de decisões que muitos considerariam pouco aceitáveis...Sim, muitos disparates. Cometem erros esplendorosamente. Isso é óptimo. A grande decisão final da Maria da Graça poderá ser um erro tremendo para a maioria dos mortais, mas ela toma-a convicta de que é o caminho para a felicidade e se errar erra para ser feliz. Aceito a Maria da Graça plenamente. Se calhar eu poderia ser a Maria da Graça; é a personagem com quem mais me identifico. Aceito que a felicidade, por vezes, está na ponta do sofrimento.
Sente-se próximo da Maria da Graça mesmo quando ela acredita plenamente que vai morrer de amor?Sim. Isso é lindíssimo. Acho que um dia destes vou morrer de amor também. Se eu morrer cedo não fiquem tristes, assim de uma forma mais bizarra, é porque morri de amor. Se Deus existir valia a pena existir só para isso, para que nós pudéssemos morrer de amor e depois haver o paraíso e lá poder encontrar a bela amada. Por mais absurdas e violentas que possam ser, acho que algumas coisas valem a pena. é aquela máxima: mais valem 30 anos intensos do que 70 em que nada nos acontece. Estou sempre a ver se me acontecem coisas. Há quem ache isto uma provocação tola. Pode ser, mas gosto de fazer as minhas revisões da matéria e perceber. Gosto do lugar do outro.
Porquê?Fico invejoso. Sou escritor para cobiçar o espaço dos outros. Não implica que não goste de ser como sou, mas isso é limitado. Olho para as pessoas e penso e 'se eu tivesse vivido o que aquele viveu como resultaria isso em texto. Que escritor seria eu se tivesse passado por aquela experiência? Do ponto de vista literário isso é avassalador.
E é um escritor diferente depois de ter estado no lugar da Maria da Graça?Os meus livros, quando os começo, nunca são autobiográficos, mas no fim são completamente. São experiências importantes de aprendizagem do outro. Depois de escrever isto eu fui, de facto, uma mulher-a-dias. (Risos)

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