terça-feira, 15 de julho de 2008

E os pretos?



Na passada quinta-feira houve tiroteio na Quinta da Fonte, em Loures, com direito a abertura de todos os telejornais. Diz quem sabe que não é coisa virgem, nem na Quinta da Fonte, nem em dezenas de bairros cheios de intenções sociais falhadas em redor de várias cidades do país. A televisão tem ocupado parte do tempo com directos, com a repetição de imagens do lado de um dos grupos participantes na rixa, com a lamentação de algumas famílias, com a preocupação dos dirigentes. Ao ver a festa crescer, apetece perguntar, então e os pretos? Não se viram nos directos, nem nas imagens de telemóvel, nem nas queixas sobre a insegurança nos bairros onde vivem. Também não se têm visto em protestos mais ou menos organizados, nem em sindicatos, nem no parlamento, nem entre as estrelas dos programas de sábado à noite na televisão. Por incrível que pareça, nas telenovelas portuguesas também quase nunca há pretos. Nem no cinema. Nem no teatro. Nem na literatura. De fora deste terreno livre de pretos, parece estar o desporto, onde há muitos pretos, nas várias modalidades. Mas isso parece ser apenas uma forma de dizer aos pretos que há uma forma de eles serem como os outros, se souberem dar uns pontapés numa bola ou correr mais depressa do que os outros. Mas só se for assim, porque, para vos dar um exemplo, na minha terra, não há polícias pretos, nem gnr's pretos, nem funcionários públicos pretos. Apesar de haver por aí muitos pretos. Faz-me pensar que existe qualquer coisa que ainda não resolvemos como sociedade. Estamos podres, cheiramos mal, porque ainda acreditamos em histórias da carochinha que ficaram escritas na língua do Estado Novo. Somos, quase todos, tendencialmente racistas, tendencialmente precisados de um líder forte, tendencialmente mal preparados para entender o mundo que muda à nossa volta. No mundo editorial não conheço nenhum preto. Entre os comerciais não conheço nenhum preto. Até entre os grandes escritores africanos de língua portuguesa quase não há pretos. Vivemos imensamente preocupados com os medos que criamos para trazer por casa, e isso, estupidamente, faz-nos esquecer que a mudança depende, mais das vezes, apenas de nós próprios.

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