quinta-feira, 31 de julho de 2008

"eu fui, de facto, uma mulher-a-dias"

valter hugo mãe é hoje entrevistado no DN, por Isabel Lucas. Transcrevo toda a entrevista, porque vale, mesmo, a pena.

Este é um apocalipse cheio de provocações divinas e muito riso. Que apocalipse é este?Embora exista uma diversidade de géneros há a iminência de um apocalipse, de uma impossibilidade de ultrapassar a desgraça final. É a sensação de que a espécie humana se pinta para uma desgraça final. A iminência da morte, o preconceito, a xenofobia, a divisão das classes que não acaba. Isso frustra-me muito enquanto ser humano e cidadão. Frustra-me que não sejamos já maduros o suficiente para ultrapassar essas coisas tão antigas. Já a ideia deste livro estava amadurecida, vi um documentário que me impressionou. Chamava-se Encontro com Milton Santos, esse fabuloso pensador brasileiro que dizia que a humanidade ainda não começou; que ainda estamos nos ensaios para o que há-de ser a humanidade. Para ele a humanidade não há-de ser capaz da crueldade a que assistimos. Para mim aquilo foi espiritual. Encontrei-me nesse protesto e nessa frustração.
Este livro é, então, um protesto?É. Que bom seria se adoptássemos um comportamento de acordo com o que dizemos acreditar.
Como a estratificação social,que passa por coisas tão comezinhas como a lixívia que se divide em classes e que a mulher-a- -dias, Maria da Graça, a protagonista, tão bem conhece? (Risos) Há lixívias gourmet porque há quem não as possa usar. Uma simples lixívia pode ser um padrão de distinção social. Não quis que este livro fosse violento. Sem agredir o leitor, pretendo levá-lo a aceitar o que ele já sabe e a transpor as dificuldades em nos humanizarmos de uma vez por todas.
E escolheu a precariedade laboral das mulheres-a-dias e dos imigrantes de Leste para ilustrar essa desumanidade? Quis que fosse perceptível, por exemplo, que a chegada dos ucranianos a Portugal já acontece em Bragança. Não é uma questão das grandes cidades, mas portuguesa e implica uma postura ética.
E porque diz que não é um livro que agride apesar da iminência de desgraça? Acho que é um livro com muita ternura e que apesar do apocalipse tem muita esperança. Tenho esperança de que vale a pena falar das coisas. Sou contra a tolerância e a favor da aceitação. A tolerância deve ter vindo dos tolos. Não temos de tolerar ninguém, mas de aceitar os outros. Tolerância implica estarmos certos e os outros errados. Sou pela aceitação.
As duas mulheres do livro, Quitéria e Maria da Graça, são capazes de decisões que muitos considerariam pouco aceitáveis...Sim, muitos disparates. Cometem erros esplendorosamente. Isso é óptimo. A grande decisão final da Maria da Graça poderá ser um erro tremendo para a maioria dos mortais, mas ela toma-a convicta de que é o caminho para a felicidade e se errar erra para ser feliz. Aceito a Maria da Graça plenamente. Se calhar eu poderia ser a Maria da Graça; é a personagem com quem mais me identifico. Aceito que a felicidade, por vezes, está na ponta do sofrimento.
Sente-se próximo da Maria da Graça mesmo quando ela acredita plenamente que vai morrer de amor?Sim. Isso é lindíssimo. Acho que um dia destes vou morrer de amor também. Se eu morrer cedo não fiquem tristes, assim de uma forma mais bizarra, é porque morri de amor. Se Deus existir valia a pena existir só para isso, para que nós pudéssemos morrer de amor e depois haver o paraíso e lá poder encontrar a bela amada. Por mais absurdas e violentas que possam ser, acho que algumas coisas valem a pena. é aquela máxima: mais valem 30 anos intensos do que 70 em que nada nos acontece. Estou sempre a ver se me acontecem coisas. Há quem ache isto uma provocação tola. Pode ser, mas gosto de fazer as minhas revisões da matéria e perceber. Gosto do lugar do outro.
Porquê?Fico invejoso. Sou escritor para cobiçar o espaço dos outros. Não implica que não goste de ser como sou, mas isso é limitado. Olho para as pessoas e penso e 'se eu tivesse vivido o que aquele viveu como resultaria isso em texto. Que escritor seria eu se tivesse passado por aquela experiência? Do ponto de vista literário isso é avassalador.
E é um escritor diferente depois de ter estado no lugar da Maria da Graça?Os meus livros, quando os começo, nunca são autobiográficos, mas no fim são completamente. São experiências importantes de aprendizagem do outro. Depois de escrever isto eu fui, de facto, uma mulher-a-dias. (Risos)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

muitos muitos mil

Conheci uma pessoa que tinha Fé nos Homens. Mas isso é uma longa história.

manuel a. domingos, no meia-noite todo o dia

Contra a Maioria Silenciosa

Vivemos num país em que existem pessoas que acreditam que os vizinhos homossexuais sodomizam gatos. Mas essas pessoas só são presas porque, para além de acreditarem nessa estupidez, também disparam armas contra os vizinhos. Os que acreditam na estupidez sem se manifestar em excesso, a maioria silenciosa, continua, cantando e rindo, à solta.

A Literatura voando sobre a relva

A direcção do Sporting, Pedro Barbosa e Paulo Bento precisam, neste momento, do apoio e compreensão de todos os adeptos. Porque se eles dobrarem perante a chatagem desta aventesma microscópica será porque têm medo de nós. Não somos nem nunca fomos um clube de vitórias, não me fodam. Mais segundo lugar menos segundo lugar, o que é essa merda para o Sporting? Mas temos agora uma hipótese de ouro para fodermos alguém, em vez de sermos enrabados como sempre fomos (Futre, Figo).

Maradona, n' A Causa Foi Modificada

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Augúrio

E, se quiserdes ouvir,
consiste a suma ciência
em num subido sentir
da só divinal Essência:
obra é de sua clemência
o quedar não entendendo,
toda ciência transcendendo.

São João da Cruz

Leituras de Praia

Deitado ao sol, leio o pequeno tratado espiritual A Nuvem do Não-Saber, editado em Portugal pela Assírio e Alvim, num passo em que o autor anónimo explica que mesmo o maior pecador poderá, um dia, vir a sentar-se junto ao Senhor, enquanto o homem santo que nunca pecou poderá vir a a arder no inferno. Acabo por adormecer debaixo do calor da tarde. Ao acordar, sedento, de testa vermelha, ainda hesito na confusão entre a literatura e a realidade.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

As Esperas I e II



O concurso "Viva o Parque" já vai na 4ª edição, penso eu, e todos os anos convida fotógrafos não profissionais a participar com as suas visões sobre um determinado tema, sempre tendo como pano de fundo o Parque Verde da Cidade de Torres Vedras. Nunca tinha concorrido antes, mas este ano, a Valex insistiu bastante para que o fizesse e o resultado foi este. O tema era "As pessoas no Parque" e desde logo pensei colocar um elemento estranho no Parque Verde, qualquer coisa que não pudesse ser vista por lá todos os dias. Estes dois postais, que comprei há uns anos na Feira do Livro de Lisboa, com fotografias do Ruben A. e da Cristina Campo, estavam guardados no armário, depois de terem passado imenso tempo na parede da minha anterior casa. Levei-os ao Parque e com a ajuda da Valex, fomos experimentando. O inesperado disto tudo é o júri ter achado que as duas fotografias mereciam ser premiadas. E agora, graças a este concurso (e à insistência da Valex), sou bem capaz de vir a ter a minha primeira máquina fotográfica.
A exposição de todas as fotografias selecionadas vai ser inaugurada no próximo dia 26 de Julho, pelas 19 horas, no Edifício dos Paços Concelho, e ficará aberta ao público até dia 13 de Setembro.

Antecedentes Criminais

CTT (Conjunto Típico Torreense) - Destruição

Memória do Baby Boom do Rock Português

terça-feira, 22 de julho de 2008

Maria da Graça e os Portugueses

Maria da Graça é uma mulher que representa muitas das mulheres portuguesas, uma mulher portuguesa que, a maior parte do tempo, nós não queremos que exista ou que fingimos não existir. Não por ser mulher ou por ser portuguesa, apenas porque nos é mais confortável pensar que vivemos num quadradinho à beira-mar plantado onde, mal ou bem, a vida segue o seu caminho sossegada. Maria da Graça pode ter tudo, mas não tem uma vida sossegada. É mulher-a-dias, explorada sexualmente pelo seu patrão, pelo qual nutre uma paixão impossível. O seu marido vive metade do ano no mar, e não morrendo por lá, ela tenta matá-lo nos meses que ele passa em terra. Pior do que tudo isso é a série de desentendimentos que ela mantém com São Pedro, às portas do céu, já que este não a quer deixar morrer de amor.

Maria da Graça representa uma boa parte das nossas desgraças. Os empregos miseráveis mantidos debaixo de promessas inverosímeis, seja de amor, seja de futuro. A distância que mantemos daqueles que nos são mais próximos, nas emoções, nos contactos, na resistência que mantemos ao toque. Somos distantes por natureza, talvez por isso tenhamos ido tão longe para descobrir novos mundos, mas também por isso nunca tivemos grande interesse em aprender ou ensinar algo por lá, roubámos o que tínhamos a roubar e voltámos satisfeitos à nossa pobreza do dia-a-dia. E o pior de tudo, é este querer mandar nos deuses, fazer da nossa fé algo que nos sirva os caprichos, mais que uma experiência de beleza, de divino, de poesia ou de crer.

Maria da Graça é a personagem principal do livro O Apocalipse dos Trabalhadores, de valter hugo mãe, recentemente editado pela Quidnovi. Entrar dentro deste livro é uma experiência semelhante à de entrar na alma do nosso país, agora que vivemos no século XXI. É ver por dentro aquilo que sentimos regularmente cá fora, muitas vezes sem nos apercebermos convenientemente da forma dos monstros que criamos. Tem sido o meu livro desta semana e não me tem sido possível escapar a falar dele a toda a gente que encontro. Como o faço para vocês, leitores desconhecidos desta crónica em rascunho.

Publicidade 2 em 1 ou amiguismos

Através da Sputnik, fiquei a saber do Pense Nicho, do meu amigo Pedro Barata Castro, arquitecto do Porto.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Domingo à tarde

Domingo à tarde
na praia
a ler o apocalipse dos trabalhadores
e
perceber
só passado algum tempo
que um casal de emigrantes,
na alemanha, talvez,
dorme a sesta
a meus pés.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

quinta-feira, 17 de julho de 2008

eu passo o serão a ver televisão

I suspect that there is no serious scholar who doesn’t like to watch television. I’m just the only one who confesses.

Umberto Eco, no The Paris Review.

Santa Cruz - Luís Filipe Cristóvão e Ozias Filho



Talvez tenha existido aqui um arvoredo, antes das dunas,
muito antes de toda esta pedra levada pelo vento para o
mar. Escuto esta atracção de séculos, dia a dia, noite a
noite, este enamoramento da natureza, sensual amor dos
elementos inanimados.
*

A minha idade é não ter idade e eu sou do tempo da
construção das casas, dos pés despidos sobre a terra.
Éramos do tamanho dos dias, apenas acrescentados de
uma fogueira, pequenas brasas restando da sopa quente do
jantar. Éramos do material dos legumes e da fruta pequena
que crescia no quintal. Os nossos pés eram pães duros,
mas as lágrimas e a dor eram adultas, carregavam-nos
como quem leva o trigo até à vila. A minha idade é não ter
idade, pouco sei dizer do que não vivi. Foi desses dias que
me fiz inteiro.
*

Pássaros levantam da areia e vêem teus lábios salgados
feridos de vida, um permanente ardor dos sentidos por
entre os teus dedos a saltitar. Recomeça, assim, o trilho da
tua paixão, medita de pés juntos, envoltos na areia, e um
pássaro, ao ficar para trás, permanece, não no céu, mas nos
teus sonhos.
*

Deixa o mar entrar em tua casa, o teu corpo é água salgada
e navega-se como o reencontro. De que te adianta dizeres
agora que nada sabes de poesia? Segura a cabeça entre as
mãos, nada te faltará. Deixa o mar entrar em tua casa, faz-
-te água, sal, areia, reencontro. Navegas em ti como quem
nasce. É apenas isso, o conhecimento das marés.
*
Refúgio, desde sempre, de eremitas, místicos e poetas, Santa Cruz guarda a magia desses tempos imemoriais, cruzando-a, hoje, com os sinais da modernidade. Quer pelos elementos naturais que ali podemos encontrar, quer pela construção exponencial do final do século XX, trabalhada nos últimos anos com arranjos de espaços públicos, Santa Cruz está cheia de pontos de interesse para quem chega em visita, para quem se propõe a ficar para viver. São esses olhares que se cruzam neste livro. O olhar fotográfico de Ozias Filho (Rio de Janeiro, 1962), trabalhado ao longo de diversas visitas sem guia, pelas ruas e pelas arribas de Santa Cruz, em busca do enquadramento, do pormenor, muitas vezes, da onda ou do vento necessários à imagem. O olhar poético de Luís Filipe Cristóvão (Torres Vedras, 1979), na permanência um ouvinte dos segredos sussurrados pelos ares desta terra. Uma obra que marca a memória do lugar, em imagens e palavras que potenciam, sem dúvida, muitas outras. Um livro em aberto, ao usufruto do lugar, à lembrança no futuro.Ozias Filho é licenciado em Jornalismo e Fotografia, pós-graduado em Edição e Director da Vozes Portugal.Luís Filipe Cristóvão é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, pós-graduado em Teoria da Literatura e Gestor Editorial e Livreiro na Livrododia
Título: Santa Cruz
Autores: Luís Filipe Cristóvão (texto) e Ozias Filho (fotografia)
Editor: Livrododia
Lançamento no dia 2 de Agosto.

o seu nome é Riccó (ou Rasmunssen ou Pantani ou Ullrich ou Agostinho ou Chagas...)

Não havendo grande justificação para o facto de, insistentemente, todos os vencedores de provas velocipédicas serem apanhados nas malhas do doping, talvez seja chegada a altura de perceber se é humanamente possível fazer os percursos que estes homens fazem, no tempo que fazem, sem recorrer ao doping. Também é altura de perguntar se aqueles que não são apanhados na ilegalidade não sobrevivem em cima da linha, ou seja, sempre demasiado perto de serem também apanhados. Talvez se esteja a culpar os azarados, inocentando todos os outros que praticam um crime semelhante. Culpar o desporto não serve - é preciso culpar tudo o que o rodeia, a necessidade de espectáculo televisivo a hora marcada, por exemplo, ou a satisfação do patrocinador que exige que determinado atleta surja na frente em determinada etapa. Se o desporto e a competição puderem ser, finalmente, uma variável não programada, talvez o doping não seja necessário. Talvez se possa dormir sossegado sem pensar que o vencedor de hoje será o vilão de amanhã.

teofanias urbanas

À livraria, vêm, de vez em quando, clientes muito especiais que nos criticam a falta de comunicação de campanhas. O discurso inclui, mais das vezes, frases como "deviam apostar no marketing" ou "não sei porque não avisam os clientes" ou, ainda, "podiam tentar fazer isso chegar a mais gente, porque ninguém sabe".
O mais curioso é que estes parecem ser clientes que não lêem jornais (onde estamos sempre a aparecer, especialmente nos regionais), não lêem blogues, não visitam sites, não ouvem rádio... São pessoas que vivem muito preocupadas com o marketing, como se o simples sussurrar da palavra marketing resolvesse a incapacidade de dar atenção aos fenómenos que nos rodeiam. Como se o marketing fosse isso mesmo, a capacidade de cada um transformar o ego do outro.

terça-feira, 15 de julho de 2008

publicidade enganosa


E os pretos?



Na passada quinta-feira houve tiroteio na Quinta da Fonte, em Loures, com direito a abertura de todos os telejornais. Diz quem sabe que não é coisa virgem, nem na Quinta da Fonte, nem em dezenas de bairros cheios de intenções sociais falhadas em redor de várias cidades do país. A televisão tem ocupado parte do tempo com directos, com a repetição de imagens do lado de um dos grupos participantes na rixa, com a lamentação de algumas famílias, com a preocupação dos dirigentes. Ao ver a festa crescer, apetece perguntar, então e os pretos? Não se viram nos directos, nem nas imagens de telemóvel, nem nas queixas sobre a insegurança nos bairros onde vivem. Também não se têm visto em protestos mais ou menos organizados, nem em sindicatos, nem no parlamento, nem entre as estrelas dos programas de sábado à noite na televisão. Por incrível que pareça, nas telenovelas portuguesas também quase nunca há pretos. Nem no cinema. Nem no teatro. Nem na literatura. De fora deste terreno livre de pretos, parece estar o desporto, onde há muitos pretos, nas várias modalidades. Mas isso parece ser apenas uma forma de dizer aos pretos que há uma forma de eles serem como os outros, se souberem dar uns pontapés numa bola ou correr mais depressa do que os outros. Mas só se for assim, porque, para vos dar um exemplo, na minha terra, não há polícias pretos, nem gnr's pretos, nem funcionários públicos pretos. Apesar de haver por aí muitos pretos. Faz-me pensar que existe qualquer coisa que ainda não resolvemos como sociedade. Estamos podres, cheiramos mal, porque ainda acreditamos em histórias da carochinha que ficaram escritas na língua do Estado Novo. Somos, quase todos, tendencialmente racistas, tendencialmente precisados de um líder forte, tendencialmente mal preparados para entender o mundo que muda à nossa volta. No mundo editorial não conheço nenhum preto. Entre os comerciais não conheço nenhum preto. Até entre os grandes escritores africanos de língua portuguesa quase não há pretos. Vivemos imensamente preocupados com os medos que criamos para trazer por casa, e isso, estupidamente, faz-nos esquecer que a mudança depende, mais das vezes, apenas de nós próprios.

Arquitectura, Natureza e Amor

A Dafne Editora continua a sua colecção de Opúsculos - Pequenas construcções literárias sobre Arquitectura - com um texto de Gonçalo M. Tavares intitulado Arquitectura, Natureza e Amor. O opúsculo está disponível para download aqui.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A época do vazio

A época do vazio é aquela em que não se sabe ainda se estamos a evoluir ou, apenas, a dar passos atrás. Um grau de informação excessiva, em cruzamento, cria a sensação de caos no pensamento e nos sentidos, e vês-te a agir conforme um modelo que não te é próprio. A esse acto poderá ser dado o nome de esforço que evita o vazio, intentando uma evolução, mesmo que ainda nebulosa, da situação. Desse esforço pode, ainda assim, obter-se resultado nenhum. O homem é um animal de hábitos. Que um animal tente contrariar a sua natureza é qualquer coisa de essencial à evolução. A dúvida resiste na ideia da evolução ser natural ao homem.
existem muitas outras coisas
para as quais as palavras
são ainda
inexistentes.
gestos mínimos
máximas memórias

a vida segue
à flor do mar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Quando não for capaz de lhe contar, publique.

Diário quando importa

Há um leve cheiro a frango assado a entrar pelas janelas, da churrasqueira aqui ao lado. Estou sentado no computador que há-de ser a caixa da feira do livro de Santa Cruz. Hoje foi mais um dia de montagens, o primeiro dia em que se começaram a desencaixotar os livros (que já vêm marcados das livrarias, em Torres Vedras), o dia em que decidiu onde iam ficar as mesas, os expositores (que tiveram que ser montados segundo as regras), tudo isso. Hoje foi também o dia em que fiquei por aqui a tentar se perceber se gosto ou não gosto de montar livrarias, feiras do livro. De manhã, pensava que sim. Agora também. Pelo meio, vou tendo as sempre recorrentes dúvidas.
À hora do lanche encontrei o Sr. Luís, um antigo livreiro que sempre que me encontra vai tentando saber como correm as coisas, sendo que é também um frequentador habitual das minhas livrarias. A meio, ou já para o final, da conversa, disse-me: "quando te falei do negócio, eu disse-te que não era um negócio fácil, que é preciso ter um estilo de vida e um posicionamento totalmente diferente do resto das pessoas, e que tudo isso junto foi o que eu tentei fazer quando tinha a minha livraria, e não fui capaz, porque não tinha dinheiro". Ele não sabe, e se calhar nunca vai saber como me bateu esta frase, este momento. Queria ter-lhe dito mais alguma coisa, mas ele já tinha seguido rua fora.
São agora sete e um quarto, as coisas vão acalmando por aqui, havemos de voltar à noite para continuar a montar as coisas. E ao pensar nisto, sei que as coisas que têm muita graça, muitas vezes não têm graça nenhuma. Que esta coisa de se ser diferente de toda a gente (ou de, pelo menos, da maior parte das pessoas que conhecemos), tem um preço alto, demasiado alto, um preço que não tem nada a ver com dinheiro, mas tem tudo a ver com a forma como nos pretendemos aguentar, como eu me pretendo aguentar, vivo e com o mínimo de saúde mental, até ao fim dos meus dias. E seja como for que eu lá chegue, sei que não vai ser fácil. Como não é fácil que este texto, que já não vai pequeno, se aguente online até que eu o "poste", com esta frágil ligação que aqui temos...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Capitão Romance - Ornatos Violeta

Uma certa incapacidade de dizer.
Por isso, segue a música.

Time to Pretend - MGMT

As férias do Bibliotecário

São organizadas consoante as livrarias existentes na região visitada.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Haverá muito mais a dizer.
Por agora, habitamos a linha onde a lágrima escorre fácil.
Há pessoas que conquistam pedaços do nosso coração.
Não importa o nome que lhe damos, aquilo que fazemos,
o tempo que passamos juntos.
Essas pessoas ficarão para sempre.

Ler em Julho - II

Uma série de goleadas. Lida entre um café e uma tarde na praia, senti-me, qual ciclista no Tour de France, a subir e descer montanhas. Da entrevista a Margarida Rebelo Pinto, nada - nem a autora, sempre a fugir com o rabo à seringa, dizendo e desdizendo-se numa mesma entrevista, nem o entrevistador, em perseguição, cheio de ideias feitas, faltando-lhe carta de condução. Umas páginas à frente, a redenção. José Mário Silva entrevista Zadie Smith e os dois dão uma "abada" - conhecimento da literatura, sinceridade, humor (o que mais é preciso para fazer um homem feliz, para além de ler isto a sentir o calor a aquecer-lhe as costas?). Dar relevo, ainda a Pedro Mexia e a Tiago Cavaco - estamos garantidos para os próximos 30 anos, em termos de crítica literária séria e divertida ao mesmo tempo (podia colocar aqui umas citações do texto do Tiago, mas não vos vou tirar o gozo de a descobrirem por inteiro, apetece gritar Aleluia!). Para esquecer, mas posso ser só eu a ser esquisito, os artigos que tendem a fazer a Ler uma revista para toda a gente, assumindo-se que o que toda a gente quer saber resume-se em 15 linhas de coisas vagas.

Para a história, ficam os resultados do fim-de-semana.

Zadie Smith, 6 - Margarida Rebelo Pinto, 0
Pedro Mexia, 4 - Cidades com livros, 1
Tiago Cavaco, 5 - Livros para ler no Verão, 2

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ler em Julho

A Ler de Junho foi fraquinha - Saramago não é um entrevistado tão interessante como Lobo Antunes, não havia uma segunda matéria que me tivesse cativado por aí além. Agora, em Julho, Margarida Rebelo Pinto (e as consciências tremem). Não seria, em caso algum, a minha escolha para a capa, muito menos agora, que não vende nem por sombras aquilo que já vendeu. Ainda assim, repito a compra. Uma entrevista com Zadie Smith, um artigo sobre 10 cidades literárias, a crítica de Tiago Cavaco sobre a Leitura Infinita de Tolentino Mendonça. Bem, razões de sobra para voltar a ler a Ler. Depois vos direi...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

já que estamos numa de roteiro cultural


Alentejo, Alentejanos e Livrarias

Rodrigo Guedes de Carvalho vai estar na A das Artes, em Sines, no próximo dia 5 de Julho, às 18 horas. Para quem estiver de passagem pelo Alentejo ou por ali viva, fica na Rua 25 de Abril ( ao fundo da avenida principal da cidade, onde acabam os prédios e começam as vivendas, volta à esquerda e... chegou!).
Valerá a pena a visita, não só pelo autor, como para conhecer o espaço desta livraria que combate, desde 2003, a seca no Alentejo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Coisas doces sem açucar

Toda a gente devia ter um (ou dois) cartões de cliente da Pó dos Livros. Se não for antes, passo por lá no dia 16 de Julho, para encontrar o Bruce Holland Rogers e o José Mário Silva a falar sobre micro-ficção.

That's amore!

Não gosto de Bancos, mas, pelos vistos, os Bancos também não gostam de mim.

Mercearias

Quem a ouve, percebe - a ideia não é mudar o estilo "quero, posso e mando", nem sequer procurar a concertação social, não, o que faz falta, para a Drª Ferreira Leite, é voltar a gerir isto tudo como se fosse uma mercearia. A Direita Portuguesa ainda vive na ilusão da obra do Vovô, da Grande Mercearia do Estado Novo, que durante 48 anos fez e desfez como bem lhe apeteceu. Para além disso, volta a haver um dirigente político de nomeada que assume que a discriminação é necessária, porque os valores da família e tal e coiso.

Se algo mudar, continuamos todos coxos, mas capazes de dar passos para trás.

terça-feira, 1 de julho de 2008

A máquina de fazer asneiras

Uma iniciativa da Letra Pequena.

Livrarias

Consigo distinguir uma livraria quando entro numa. Não me sinto muito diferente das outras pessoas por conseguir isto. É uma coisa que já consigo fazer há imenso tempo. Desde quando era relativamente pequenino e entrar numa livraria, na minha terra, significava passar por uma loja cheia de revistas, totolotos e máquinas de calcular, subir umas escadinhas apertadas onde eu tinha sempre medo de cair e virar à direita, para a livraria, coisa de crescido já que virar à esquerda significava entrar na sala dos brinquedos.

Consigo distinguir uma livraria quando entro numa. Não tem computadores, nem máquinas fotográficas, nem software, hardware, jogos de computador, séries televisivas, filmes a preços de várias cores, antes se chegar a ver a capa de um primeiro livro. Também gosto dessas outras lojas, mas não são livrarias. Não me dizem, com ar de quem descobriu a pólvora, «temos esse livro na nossa loja do Algarve» quando me encontro em Braga. Apetece dizer que seria mais fácil ir à editora. Normalmente é.

Consigo distinguir uma livraria quando entro numa. É como quando se entra numa Igreja, acontece qualquer coisa de mágico, mas numa livraria pode-se estender a mão para os livros e ficar ali a mergulhar neles. Encontra-se sempre alguém que percebe de livros, como nós, e nos fala maravilhado de um qualquer livro do qual ainda ninguém falou. Nas livrarias sabem-se segredos, encontram-se respostas, inventam-se amizades. Nas livrarias somos capazes de sonhar, mesmo quando estamos a dormir. Consigo distinguir uma livraria quando entro numa. Queria ser capaz de explicar isto a quem não o consegue.

e por falar nisso

Tiago Cavaco, na versão Tiago Guillul, escolhe, para o Bodyspace, as dez melhores canções de sempre neste preciso momento.

o prazer de trabalhar

Durante a viagem para o trabalho, ouvir José Tolentino Mendonça a elogiar Tiago Cavaco.

O meu Tavares preferido

Eu sou filho, tanto como esses rapazes, de uma cultura imensamente marcada pela língua inglesa - e gosto muito. Mas é suposto haver uma certa distância entre aquilo que nos entra pelos ouvidos e aquilo que nos sai pela boca. É certo que há casos de portugueses a tocar com americanos, formando bandas transatlânticas, mas essas são excepções: o resto é mesmo pessoal da Brandoa a fingir que é de Bristol. E isso é bem mais grave, e mais sintomático da falência do português, do que o abate das consoantes mudas. Porque, das duas uma: ou se reduz uma canção à sua melodia, o que já por si diz muito da decadência das palavras, ou então não se percebe como é que um artista português, para se expressar publicamente, deixa de fora a língua que usa na rua, nas conversas de amigos, nas declarações de amor.

Não se trata aqui de "proteger" o português ou de resistir a invasões culturais, que são argumentos do tempo da Outra Senhora. Trata-se, isso sim, de acreditar na arte como uma extensão da vida - e de ver com espanto que a riqueza da língua e as suas potencialidades musicais não motivam minimamente jovens criadores, num meio tão popular quanto o das canções.

João Miguel Tavares, no Diário de Notícias