terça-feira, 17 de junho de 2008

Um pouco daquilo que conhecemos

Slimane é um tunisino de 61 anos, em França há mais de 30, trabalhando nos estaleiros navais de uma cidade portuária do sul daquele país. É um exemplo da primeira geração de emigrantes deste século, que se esconde por detrás da sua total dedicação ao trabalho e ao amor que sente pelos seus. Slimane não percebe, nunca poderá perceber, que esse esconderijo não lhe irá servir de nada, quando, a bem dos resultados da empresa, for colocado fora, ainda para mais com uma indemnização que prevê apenas metade desses 30 anos de dedicação a cada um dos barcos que entrou no estaleiro para encontrar, de novo, a sua utilidade.

Um homem, de quem não sei o nome, na casa dos 40 anos, apareceu na televisão, na hora do fim do bloqueio dos camionistas, de colete reflector e um capacete na mão, anunciando que pedia desculpa a todos aqueles que tinham sido prejudicados com a presença dele no piquete de greve do Carregado, já que no fim das negociações entre os porta-voz dos camionistas e o Governo, ele tinha ficado sem perceber o que tinha estado ali a fazer naqueles dias. Esse homem não poderia nunca perceber que mesmo numa luta justa (o que talvez nem fosse o caso), entre os lutadores há sempre quem ganhe e quem continue igual, pequeno exército dos desejos dos poderosos.

Como crianças indefesas, dia a dia, somos confrontados com situações que nos colocam perante a extrema mágoa de percebermos que, tudo aquilo que podemos fazer pode ser muito pouco para nos levar ao que desejamos. Não estamos preparados para que os mais fortes, os mais poderosos, tenham a capacidade de se mascarar de nossos iguais, apenas para nos utilizar como peões, numa qualquer luta. O patrão que nos despede. O líder sindical que festeja um acordo que não nos serve. Os exemplos são infindáveis. A nossa fragilidade não.

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