quinta-feira, 26 de junho de 2008

Somos de quem?

A dúvida cresce perante o discurso daquele homem: será assim tão difícil conciliar bem-estar económico e moral? Onde termina a ética que nos leva, durante uma vida inteira, a trabalhar num projecto cultural, político e social, para que um dia ceder tudo isso a um aglomerado de empresas que visa, apenas e só, o lucro? Podemos mudar de vida sem mudar de discurso? Como conseguimos justificar, não tanto perante os outros, mas perante nós próprios, a evolução na continuidade de um discurso essencialmente cultural para um discurso essencialmente capitalista?

A dúvida cresce perante o discurso daquele homem: mas quem lhe perguntou pela sua vida, pelo seu salário, pelos seus bens? As pessoas chegaram para o ouvir falar de livros, de histórias e de sonhos. Não querem saber, e bem, se os pilares da casa se fazem de dinheiro ou de paixão, não é com elas. Não é com ninguém, ver o senhor enlear-se nas suas próprias questões, de sentir que o dinheiro que lhe pagam agora, ao fim de cada mês, o obriga a falar e a dizer coisas em que, há uns meses atrás, talvez não acreditasse. O grande capital não é burro, mesmo que às vezes pareça. Quando nos compra, não espera que adoptemos o seu discurso, apenas espera que lhe aumentemos o lucro. Nós, os pequenos, é que não sabemos como viver com isso.

A dúvida cresce perante o discurso daquele homem: uma estrada grande e larga está à minha frente, uma enorme página em branco a pedir-me que eu a preencha. Meto as mãos aos bolsos, algumas moedas, poucas, mas a certeza que a vida me foi dando de que haverá sempre qualquer coisa no fundo dos bolsos, que me faça aguentar mais um dia. A minha voz, a justificar o injustificável? Não me parece. Não quero que assim seja. Não quero ter que sentir a sair pelos lábios algo que o coração não sente. Mantenho a minha fidelidade a mim mesmo, às minhas palavras. Talvez seja essa a única garantia que tenho, quando dou o próximo passo.

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