quarta-feira, 4 de junho de 2008

Nova Águia em Torres Vedras


No próximo sábado, a revista Nova Águia cumprirá mais uma etapa do seu "tour" de apresentações, passando pela Livrododia - Centro Histórico, em Torres Vedras. O evento realiza-se às 16 horas.
Neste primeiro número da revista, entre os diversos colaboradores, poderão encontrar um poema meu. Este mesmo que aqui se segue.


**

A Cabeça de Fernando Pessoa

À memória de Alexandre O’Neill

I

Portugal, questão que trago comigo mesmo.
Leio o poeta e aceno com a cabeça.
Devagar, para não bater nas paredes.

II

Tenho andado aqui
à escuta dos pequenos
movimentos da terra
ou das pessoas nela.

III

Não me atrevo a perguntar quem sou.
Nada me tenho a responder.

IV

Pratico a ausência de alarmismos –
somos todos capazes de inventar a solidão
portátil,
boa para andar por casa.

V

Podíamos combinar um encontro
por telemóvel,
eu e o meu país refeito dos sustos
de tantos séculos.

VI

Mas ele não atende.
Deixou-me aqui fechado
comigo mesmo.

VII

Olha, Daisy –
escrevia ele numa carta
a anunciar a sua futura morte
para os amigos que tinha deixado
em Inglaterra.
Olha -
nada sobra de cor-de-rosa.
Nem os mapas.

VIII

Já viste as obras de Lisboa?
E as do Porto?
Já viste as pontes para Espanha?
Acaso atendeste a chamada por satélite
Que te faziam do lado de lá do Oceano?

IX

É que eu nunca fui a Inglaterra.
E não, também nunca fui à Alemanha.
Nunca fui aos grandes países da civilização.
E no entanto continuo aqui, sentado junto ao cais
onde já nem barcos de pescado atracam.

X

Estou cansado, isso sim.
Cansado de todo este amor mal correspondido,
Cansado de toda esta cultura que me entope
As narinas e me faz espirrar à hora marcada.

XI

Porque foi tudo isto o que nos aconteceu –
caravelas
territórios
ilhas
ouro
escravos
filhos
pimenta
guerra
revoluções
fado
futebol
Fátima
- uma tristeza imensa de existir.

XII

Agora já não nos sobram poetas,
esta literatura é coisa de rapazes
caídos pela calçada de um bairro lisboeta
em noite de Santo António.
O resto são auto-estradas.

XIII

Heterónimos?
Só sei de quem os viu passar.

XIV

Coimbrões?
Só lhe restou o cheiro a naftalina das capas.

XV

Geração de 70?
eu nasci em mil novecentos e setenta e nove,
escapei-me, por pouco, à exclusão da universidade,
primeiro porque um governo nos limitava as vagas
depois porque aos meus pais lhes faltou o dinheiro
necessário para pagar todas as taxas de inscrição.
Não me venhas com gerações –
A verdade é que desaprendemos a espontaneidade.

XVI

Portugal, questão que trago comigo mesmo.
Sardinhas, bacalhau e bitoque.
Iscas, cozido e douradas.
Futebol o ano inteiro.
Mar com Berlengas ao fundo.
Esta sensação católica de ser.
A galinha da vizinha tão melhor que a minha.
Quatro canais iguais de televisão.

XVII

Portugal –
entro no carro e ligo o rádio,
sigo em direcção ao mar,
estaciono.
Abro o jornal desportivo,
acaricio-o.
Sabes, Portugal,
estava bem capaz de te virar as costas,
ir cantar para outra freguesia,
sei lá,
se me pagassem melhor,
se me dessem os bons-dias na rua
sem me cuspir as costas do casaco.
Sabes,
estava bem capaz de esquecer o vinho da adega
e o Sporting,
se ao menos noutro lugar qualquer
houvesse um carro e um rádio ligado
seguindo em direcção ao mar,
se ao menos os jornais desportivos no estrangeiro
fossem tão dóceis e domingueiros como os teus.

XVIII

Penso nisto e bocejo.

XIX

Tantos anos de gastronomia
e tanta dor de cabeça acumulada –
eis o fim de toda a história
em poucas páginas impressa.
Tão pouca poesia, para tanta pressa.

XX

E dizer-te agora que para a vizinhança
vieram as braçadas do Camões
o pinhal de Leiria nas cantigas do Dom Dinis
a estricnina do Sá-Carneiro
os petardos do Castilho
as anedotas empacotadas do Bocage
o caminho para Santarém pelo Garrett
os diários incomunicáveis do Ruben A.
as pequenas carícias gregas de Sophia
os poemas do Herberto que só o Manuel Gusmão percebe
a língua afiada do Assis Pacheco
o megafone do Jorge de Sena
os óculos do Alexandre O’Neill
os espirros do Jorge de Sousa Braga
e dizer-te agora que tenho
a cabeça do Fernando Pessoa numa bandeja
e é já hora de jantar.

XXI

E sim, Portugal,
como sempre,
tu não precisas de fazer nada.

2 comentários: