quarta-feira, 4 de junho de 2008

"mostra-me o BI" e alguma conversa sobre livros infantis

Através do Cadeirão Voltaire, fiquei a saber da mais recente polémica no mundo editorial inglês (que, by the way, parece ter polémicas muito mais interessantes do que as nossas): classificar os livros infantis por idades. O plano é simples, assinalar em todos os livros qual a idade aconselhada para a utilização daquele produto. Parecendo uma medida lógica, em termos comerciais, já que o mercado dos produtos para a infância se baseia nesse mesmo aconselhamento, todos nós temos também a experiência do que é ter que comprar a roupa para dois anos mais velhos ou de como as crianças recusam aquilo que parece ser aconselhado para uma idade mais baixa que a sua. Ou seja, reconhecendo alguma utilidade nesta medida, é mais que óbvia que é uma medida redutora.

Vários autores vieram já a público, anunciar que esta medida não faz qualquer sentido. No entanto, Meg Rosoff, lança um contributo que me parece ser fundamental: se alguém que compra livros infantis quiser saber o que comprar, como fará para solucionar o problema de não encontrar nunca críticas sobre livros infantis? Estará aqui, para mim, a questão mais interessante: perceber se o mercado poderá continuar a alimentar um segmento tão forte sem que haja nenhum trabalho de análise sobre esse mesmo mercado, sem que exista quem faça opinião sobre quais os livros e como é que esses mesmos livros poderão ser utilizados pelos educadores.

Em Portugal, o Plano Nacional de Leitura falhou nesta questão: em vez de trabalhar a liberdade de escolha dos livros para cada uma das crianças, veio listar livros consoante o seu interesse para o trabalho em aula ou a leitura em casa (o que parece ser ainda mais redutor do que uma classficação por idade). Haverá, nesta discussão, uma oportunidade para se fazer uma discussão mais séria e ponderada sobre o assunto (sem precisar de grandes orçamentos ou campanhas publicitárias), uma discussão que envolva quem está a trabalhar editorialmente no livro infantil e quem o pensa, quer seja como educador, quer seja como crítico. Espero que não seja mais uma oportunidade perdida.

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