terça-feira, 27 de maio de 2008

O pequeno mundo pequeno

Num país pequeno como o nosso, somos muitas vezes levados a pensar que o mundo é, ele próprio, pequeno, já que muito facilmente encontramos nos grandes centros, pessoas ou referências aos meios urbanos médios onde vivemos. Assim, pensar que o mundo é pequeno implica pensar que conhecemos toda a gente que leu determinado livro, que um grupo musical pode proporcionar um encontro com todos os seus fãs em dado local do país, que fazemos todos exactamente as mesmas coisas, exactamente nos mesmos lugares. Existem espaços comerciais que nos são comuns, tal como programas de televisão, e chega a parecer um pouco estranho quando encontramos alguém que julgamos pertencer ao nosso mundo vivendo alheado de tais fenómenos.

Associado a esta sensação de que o mundo é pequeno, criou-se em Portugal uma das melhores redes de distribuição do mundo, sendo que se inovaram em regras e em soluções que, para países muito maiores e onde a diversidade de oferta, quer local, quer de nicho, é muito maior, dificilmente poderia ser coberta. Assim, construímos o que pode parecer um fenómeno – ter lojas espalhadas por um país onde a oferta é exactamente igual para todas as cidades, julgar as condições de um produto pela sua capacidade de cobrir todo o país, independentemente das suas qualidades em determinadas cidades ou regiões. Este é o formato utilizado em várias cadeias de hipermercados e em redes livreiras, por exemplo.

A lógica do país pequeno chegou, entretanto, ao mundo editorial. Com a aquisição de onze editoras, criou-se um grupo editorial que chega a ameaçar ser maior que o próprio mercado (pelo menos no discurso, é isso que tenta demonstrar). Ao adquirir onze editoras, algumas delas bastante diferenciadas em termos de oferta, com trabalho em diferentes nichos temáticos e com implantação regional em alguns dos casos, e pretendendo transformar essas onze num só projecto editorial, onde a imagem de cada um vai sendo absorvida, para além de, em nome do sucesso financeiro, reduzir pessoal e agrupar soluções que tornem a empresa mais eficiente. Acreditar que este é um projecto cultural seria no mínimo bizarro, e começamos a chegar a um ponto em que poderá até parecer que a compra de algumas destas editoras terá sido o preço a pagar para ter no grupo esta ou aquela pessoa, este ou aquele autor.

O risco que se corre após uma acção destas, é exactamente a sensação de se ser maior que o mundo, o mundo pequeno de que falava no início deste texto. E quando se acredita que o mundo é pequeno, muitas vezes perdemos a noção de que existem outras empresas que poderão fazer exactamente o mesmo que nós, mas de uma forma melhor. Ora, acontece que no mercado editorial, melhor não é uma medida exclusivamente financeira, mas detém especificidades ao nível da promoção, do conforto com a marca, da diferenciação do discurso. E aqui, um país pequeno tem as suas vantagens – não é necessariamente através do cheque que se chega mais depressa a todos os leitores.

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