terça-feira, 13 de maio de 2008

A gestão da paixão

Na semana passada, de visita a uma sala cheia de alunos de uma pós-graduação, ouvi falar das diferenças entre empresas (para o caso, livrarias) que são geridas por gestores profissionais e outras que têm à cabeça profissionais apaixonados pelo que fazem. Talvez se os elementos da sala fossem outros subsistisse alguma vergonha em dizer que há coisas que se fazem por paixão. Mas, tendo em conta que estávamos entre uma grande percentagem de apaixonados, a conversa pôde seguir por aí. Talvez o que mais me assuste seja aquela que parece ser a maior conclusão desta discussão: quem faz o que faz por paixão, parece estar muito mais motivado e atento a todos os pormenores que constituem o seu negócio. Quem o faz como gestor profissional, pelo seu lado, tem tendência a subjugar tudo à ditadura dos números.

Quando se fala de livrarias (e de uma forma mais abstracta, de empresas de trabalham na área do livro), existe uma componente de paixão que não é eliminável da equação. Principalmente porque, neste mercado, os clientes são apaixonados (por livros, por histórias, por papéis…). Se tentarmos eliminar esta componente, os clientes vão acabar por perceber – porque os livros do top passarão a ser-lhes estranhos, porque as montras parecerão manipuladas por gostos estrangeiros, porque os destaques não lhe serão suficientemente apetecíveis. Talvez exista em Portugal, entre as principais redes livreiras, um exemplo que tenta conciliar o profissionalismo e a gestão profissional, mas é uma entre várias e significará, em termos percentuais, apenas um terço do mercado.

Estarão, então, os clientes de livrarias em risco de estarem a ser enganados? A resposta é sim, mas, para o caso de não terem notado, praticamente todos os clientes de todas as coisas estão a ser enganados. O que acontece, no caso dos livros, é que as grandes redes de distribuição estão a fechar as suas portas ao que, eventualmente, vende menos (e aqui, vender menos, é vender menos mal, o problema do ponto de comparação serem sempre e apenas as «bestas céleres», como lhes chamava O’Neill). O que vai acontecer às pequenas editoras e livrarias que vivem da paixão dos seus clientes? Vão subsistir, claro. Mas o mesmo não se poderá dizer das editoras e livrarias médias, com estruturas que foram ganhando peso graças a um trabalho esforçado junto dos seus potenciais clientes e que serviram, muitas vezes, de flor na lapela para as grandes redes distribuidoras (essas livrarias que gostavam de dar destaque ao diferente, e que agora mudam de política de loja, ou as distribuidoras que precisavam de um trunfo, mas que não apresentam suficiente liquidez para o pagar).

Passa por cada um de nós a subsistência das livrarias e das editoras que amamos. Porque as devemos promover, procurar, acompanhar, fazer parte delas. Devemos ter nós a capacidade de não deixarmos que os gestores façam o filme sozinhos. Nós também temos direito a fazer parte. Porque há muita poesia, muito ensaio, muito romance aparentemente não destinado às massas que vão ser os livros necessários a todos aqueles que vierem depois de nós. E, mesmo que seja uma frase batida, somos nós que fazemos a cama de quem se vier deitar nesta terra logo a seguir. Convém que esteja bem feita. Não estejamos nós a alimentar os números de uma conta que não vamos querer fazer.

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