quinta-feira, 15 de maio de 2008

dos vários tipos de realidade

A posição tomada pela Câmara Municipal de Lisboa, suspensão da montagem da Feira do Livro, vem pôr em causa, não só a realização da feira, mas, a própria possibilidade de existir algum evento que reúna todos os editores portugueses. Não deixa de ser irónico que uma década de "guerra" entre APEL e UEP não feriu nunca de morte o maior evento do livro realizado em Portugal como a intervenção do Município.

Quais são as razões invocadas, então? Que a APEL não consegue garantir a presença de autores como José Saramago, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes e que não terá apresentado um layout final da organização da Feira. Se, no que toca ao layout, cai por terra o argumento, constatando-se as incertezas quanto a participações, quer de editoras que se inscreveram, quer de que editoras representarão, ou não, essas editoras previamente inscritas. Isso é algo que a organização não controla em ano algum, não vejo porque este ano seria diferente.

Já no que toca ao Interesse Público e ao subsídio que a Câmara poderá não entregar caso se verifique a ausência de livros de autores como José Saramago, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes, parece-me que se poderá iniciar aqui uma questão interessante. A Feira do Livro de Lisboa ( e todas as restantes feiras do país) serve para facilitar o acesso à diversidade de livros publicados por todas as editoras ou, como parece indicar o argumento camarário, serve para reforçar o peso de dois ou três nomes no panorama literário português? Quer se queira, quer não, livros destes três autores (que eu respeito profundamente, atente-se) podem encontrar-se em todas as livrarias, em inúmeras papelarias, em diversos hipermercados e estações de serviço por todo o país. Mas em quantos lugares podemos encontrar a tenda dos pequenos editores? Em que outro lugar podemos ter, ali à mão de semear, o fundo de catálogo dos Livros Horizonte? Em que lugar podemos conversar com diversos editores e comerciais de todas as editoras portuguesas? Onde mais podemos perceber o alcance do livro no tecido económico e cultural do nosso país? Em mais lado nenhum.

Existiu, até ao ano de 2007, uma possibilidade de ter ao alcance de toda a população (pelo menos das cidades de Lisboa e do Porto) aquilo que se vai produzindo pelo país em matéria de livro. Com o que se está a passar, corremos o risco de ter perante os nossos olhos Praças Leya em todas as livrarias e no Parque Eduardo VII e no Palácio de Cristal e na Feira de Coimbra e sabe deus onde mais. Que o senhor Presidente da Câmara de Lisboa não entenda isto por si próprio não me escandaliza - que não tenha alguém que o sussurre ao ouvido durante a sessão de câmara, é que me parece difícil de aceitar.

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