sábado, 31 de maio de 2008

Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas

(este texto foi a base da minha intervenção no Workshop Poéticas: Escrever: porquê, para quê, para quem? realizado na Faculdade de Ciências de Lisboa, no dia 30 de Maio, numa organização do Centro de Filosofia das Ciências da UL)

I

No romance Longe de Veracruz, Enrique, o narrador, vive grande parte da sua vida atormentado pelas escolhas artísticas dos seus dois irmãos: António, o escritor, e Máximo, o pintor. Cada um deles tem algo de peculiar: António escreve livros de viagens, os quais são muito elogiados pela crítica, apesar de nunca sair de casa nem despir o seu roupão enquanto escreve; é um viajante de sala e um inventor de histórias, e só inventando-as parece sentir-se bem, mesmo para além das que escreve nos livros. Máximo é um pintor repetitivo: incapaz de ser amado ou de encontrar, sequer, uma amante ocasional, pinta incessantemente noivas a quem impõe defeitos ou submete a escravidão em relação aos homens. Perante estes dois exemplos radicais de artistas, Enrique Tenório vai rebelar-se, anunciando-se contra a arte, a cultura e os artistas, preferindo viver a vida de forma aventureira no lugar de a viver pelos relatos dos livros.
Recorro a este exemplo para dizer que a literatura nasce muitas vezes da recusa da própria literatura. É o que acontecerá com Enrique, que acabará por escrever um livro. É o que acontece na minha poética (e na da tantos outros, embora eu não queira criar aqui nenhuma associação), que passa o tempo a dar importância literária a aspectos não-literários.

II

Defendem os mais velhos, talvez dotados de um certo espírito visionário inacessível aos jovens, que se deve esperar a morte de um autor para o trazer à universidade. Partindo desse princípio, arriscaria a dizer que é necessário que um autor exista para que se possa trazê-lo à universidade. Sem querer entrar na discussão (um pouco patética, mais das vezes) da existência ou não existência de um ente, considero claramente abusivo o facto de ter sido convidado a participar desta conferência, pelo simples facto de não acreditar na minha existência enquanto autor. Assim, considero que a minha presença aqui assenta em duas falácias:

1) que o facto de ter publicado alguns poemas espalhados por três livros com uma circulação menos que mínima, praticamente sem nenhuma recepção crítica, me torna passível de ser sequer mencionado numa sala de uma Faculdade.
2) que o meu nome possa ser associado a esta Faculdade pelo simples facto de, durante oito anos, a ter frequentado para uma licenciatura e um mestrado inacabado.

Sentir-me-ia muito mais confortável se não estivesse aqui nesta condição; já aqui estive noutra, falando de um autor que não eu, e a experiência, garanto-vos, não foi brilhante. Convidar-me a voltar para, ainda por cima, discorrer sobre o acidente de eu ser um autor, é qualquer coisa que só um louco poderia fazer. Mas acho que sobre isso, talvez a Golgona Anghel tenha algo a dizer no período de debate que se seguirá a esta conversa.

III

Podem os elementos não-literários ser o elemento central de uma poética? Sim – é pelo menos a defesa desse ponto que pretendo aqui fazer. Para começar, encontrando na Teoria da Literatura um ponto de suporte a esta ideia, visto que quer estudos filosóficos, quer estudos culturais, nos dão hoje ferramentas para essa aplicação. Longe da lógica barthesiana de análise do quotidiano, o que defendo é a introdução de elementos desses quotidiano na construção do poema, buscando nas leituras de acontecimentos depositados nas nossas memórias, algo que possa configurar o primeiro plano de aproximação ao poema. O poema é, de facto, um campo de batalha, ou de intersecção, se preferirmos imagens menos violentas, daquilo que vem das leituras que fazemos ao longo da nossa vida, com aquilo que julgamos adivinhar de nosso nessas leituras. Julgo que não estarei muito longe da verdade (ou, pelo menos, de uma verdade) se disser que se começa a escrever porque qualquer coisa naquilo que se lê se enquadra em uma outra das nossas experiências (sendo que, aqui, experiência significa, não só aquilo que vivemos, mas sobretudo aquilo que imaginamos).

IV

Podem estas duas coisas (experiência de vida e experiência de imaginação) andar juntas? Atrevo-me a dizer que sim. No meu caso, apelido essa conjugação de miopia. É a miopia que me faz imaginar coisas onde elas aparentemente não existem. É na miopia que nascem as minhas metáforas. Nunca me senti particularmente dotado para contar histórias nem, devido a um natural desinteresse pela linguística, fui capaz de converter as minhas imagens mentais em descrições límpidas e completas. Limito-me, assim, a escrever o que vejo, e logo seria terrivelmente aborrecido se não fosse míope porque é esse mesmo desvio que me possibilita enriquecer e diferenciar o meu discurso. O texto sai beneficiado pela névoa que me cobre o olhar e procuro completar as suas imagens desfocadas com as conversas que se ouvem ao longe (e que, logo, se compreendem mal), com a memória que é trapaceira habitual, e com as emoções, elemento mais instável desta impossível equação que tento fazer com a minha poesia.

V

Poesia tornada equação? Pode a poesia ser testada? Eventualmente não. Vivemos entre dois pesos que nos perturbam, constantemente, a leitura do poema. Por um lado a sociedade científica em que vivemos – a nossa civilização precisa de estatísticas, previsões económicas, certezas sobre a idade das pedras ou sobre a existência de água em Marte. Ao mesmo tempo, há quem acredite que um poema se lê e percebe consoante o humor do momento, ou quem tente, colocando dentro do depósito do carro todo e qualquer líquido aparentemente corpulento, encontrar o substituto do gasóleo.
Ou seja, o poema vai sobrevivendo entre a dissecação e a massificação como procura de um ponto de equilíbrio e, sobretudo, de um lugar dentro do universo das frases e das palavras onde se possa respirar. Essa procura passa por diversas etapas, mas não devemos interpretá-las como um método científico – antes é a oficina de trabalho do poeta onde a sua obra vai sendo apurada – e talvez esse seja um lugar onde não se devem efectuar visitas de estudo, porque rascunhos são sempre qualquer coisa longe do poema que só existe no momento em que o poeta o assume como terminado (e por aqui se depreende que um poema não é um filho, que nasce quando quer).

VI

Apresento-vos o método de preparação desta conferência.
Entre o convite e a apresentação de um título e um resumo para a citada conferência, recorri a algumas sínteses sobre a minha poética preparados para encontros anteriores. O resumo preparado assume aquilo que me parecem ser alguns princípios básicos do meu assumir-me como escritor.

Título:

Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas

Resumo:

Na minha comunicação vou abordar a elaboração da minha poética pessoal como uma constituinte de uma tradição de múltipla provocação entre a prática e a teoria da escrita. Os pontos-chave da comunicação serão as diferenças entre a prosa e a poesia, questões de linguagem como o restrito número de palavras disponíveis ao meu uso, problemáticas periféricas como a influência da miopia na visão poética ou questões emocionais como bens necessários à riqueza do texto. Toda a sessão estará gravemente ameaçada pelo risco anunciado no título da mesma.


Entre a entrega do título e do resumo, passaram-se imensos dias onde a importância da preparação da conferência surgiu como uma daquelas marcas na agenda, coisas que havemos de fazer um dia, na qual identificamos uma utilidade até para outros usos mas que adiamos. Isto até que chegou, finalmente, o dia.
Consultei, ainda, o meu professor Miguel Tamen, pedindo-lhe o plano de sessões do seminário que ele lecciona actualmente na Universidade de Chicago sob o título “Things poets say”. Entre o seu conselho e a possibilidade de consultar esses documentos na Internet, li as entrevistas concedidas ao “The Paris Review” pelos poetas Robert Frost, Ezra Pound, Robert Graves e W.H.Auden. Alguns contributos desses poetas poderão ser identificados (já muito mastigados) entre o corpo de texto aqui lido.
Terá sido também importante para a escrita deste trabalho, a leitura, ainda incompleta, do livro de Enrique Vila-Matas, Longe de Veracruz, e o visionamento da segunda parte do jogo de preparação entre as selecções de futebol da Inglaterra e dos Estados Unidos da América.
A maior parte deste texto foi escrito enquanto ouvia músicas de Samuel Úria, Bernardo Barata, Sébastien Tellier e Feromona.

VII

Termino respondendo ao para quê e o para quem, assumindo que gastei a maior parte do meu tempo falando do porquê.
Ao para quê respondo com a inevitabilidade. Não saberia dizer para quê porque não vejo uma razão para o fazer, antes acredito que sou impelido a fazê-lo, já não como adolescente que precisa de deitar fora palavras mas como quem encontra no acto de escrever uma forma de expressão necessária ao equilíbrio pessoal interior. Reforço, não tenho uma razão mas tenho uma necessidade. Uma necessidade que se segue de um trabalho (logicamente associado ao prazer) de fazer melhor, satisfazendo-me enquanto produtor de algo e também como leitor do meu trabalho.
Para quem, neste caso, escrevi para uma plateia imaginária que acaba por se materializar nos aqui presentes. Já escrevi poemas para pessoas determinadas, para eventos, para letras de músicas. A maior parte do tempo, escrevo para mim. Para mostrar a mim próprio que sou capaz. Sim, por puro gozo egocêntrico. Talvez esse seja mesmo o ponto essencial de qualquer poética. Uma grande dose de ego em busca de se expressar artisticamente.

Santa Cruz/ Torres Vedras, 28 e 29 de Maio de 2008

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