terça-feira, 6 de maio de 2008

Centros Comerciais cheios aos domingos

«Em termos pessoais, fazer a revolução, não me interessa minimamente» – disse aquilo com um ar desarmante, sentado à mesa do Café di Roma, nos Armazéns do Chiado – era domingo à tarde e umas quantas pessoas passeavam-se vagarosamente pelos corredores do centro comercial, talvez não muito dispostas a comprar seja o que for, apenas satisfeitas com o facto de poderem passear livres por grandes superfícies comerciais mascaradas de agrupamentos de lojas independentes.

Enquanto bebericava o café tentou expor melhor o seu argumento – as pessoas são felizes assim e precisam de algo para fazer ao domingo. Ou seja, o Terreiro do Paço está fechado ao trânsito, mas ali praticamente não há cafés e nas esplanadas da Baixa cobram os olhos da cara pelo que é, muito resumidamente, um nada de água misturada com um quase nada de café moído. Para além disso ou está muito calor ou um vento frio – podia até ser este o slogan do Portugal para vender lá fora, excessivo.

E então demonstrou o que quase ninguém parece querer ver – qual é a diferença entre um Modelo situado à beira da saída da cidade e um aglomerado de lojas dentro de um prédio? Qual é a diferença entre cinco mil metros do mais variado tipo de mercearia debaixo de um só nome e cinco mil metros do mais variado tipo de mercearia debaixo de cinquenta nomes? O pequeno comércio só sofre com os hipermercados? Ou ter uma loja no centro comercial é agora encarado como o cooperativismo comercial?

Ter, portanto, na lei, que comprar um DVD no Continente é diferente de comprar um DVD na Fnac, ou que por a Byblos ter mais metros quadrados do que a Bertrand do Chiado os seus trabalhadores merecem folga obrigatória ao domingo à tarde, não faz nenhum sentido. Há que procurar, algures entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, a razão pela qual os portugueses trocaram as actividades ao ar livre pelo ar condicionado dos grandes espaços comerciais. Qualquer coisa como um festejo dominical para o nosso ego centrado nos índices económicos europeus. O resto, é conversa (de café).

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