terça-feira, 13 de maio de 2008

Avódezanove e o Segredo do Soviético


Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.
Era um largo grande, com uma bomba de gasolina no meio, que virava rotunda para camiões e carros darem a volta a fingir que a cidade era grande.
O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:
— Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de diamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes...
Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.
Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa linda que todos dias me ensinava a cor azul: o mar grande, mais conhecido por oceano.
— Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera... Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!
Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.
— Aprendam meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e às asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.
Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só.
— As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direcção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa…
Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.
— Ainda vamos ver essas estrelas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes...
Na nossa varanda poeirenta, a AvóCatarina, irmã da AvóAgnette, aparecia devagar vestida de preto no antigo luto dela e os cabelos branquinhos como algodão fofo.
— Ainda de luto, dona Catarina? — perguntava a vizinha DonaLibânia.
— Enquanto a guerra durar no nosso país, comadre, todos os mortos são meus filhos.
A AvóNhé regava as plantas, os arbustos e as árvores com um fiozinho de água que aparecia às terças e quintas-feiras. Regava a goiabeira e a figueira, a árvore de sape-sape, as rosas, a palmeira e a mangueira. Depois molhava as escadas e as flores dos vasos.
— Meninos!, todos para dentro. Está na hora do lanche.
A hora do lanche era uma coisa complicada para nós: tínhamos que ir lavar os sovacos, as mãos e a cara antes de sentar à mesa. Comíamos meia fatia de pão, meia banana e um copo de água.
— Quem quiser pode também fazer ngonguenha mas com pouco açúcar que está quase a acabar.
Às vezes no caminho apanhávamos goiabas ou mangas que os morcegos tinham esquecido de atacar. Pouco depois das cinco, o camião com água dos soviéticos ia passar para acalmar a poeira da rua e dos passeios.
Um dos primos ficava com a missão de estar atento aos barulhos. O camarada VendedorDeGasolina acordava quando, dentro das obras do Mausoléu, o condutor soviético ligava o camião da água. Era o sinal. O maluco EspumaDoMar aparecia no portão da casa dele com um chicote pequenino a baloiçar com o vento nas pernas dele.
— AvóCatarina, é verdade que o EspumaDoMar tem um jacaré guardado no quintal dele, na casota do cão?
— Pode ser — a Avó ria.
— E jacaré cabe numa casota de cão?
— Se for pequenino.
Uns tinham medo dessa estória, outros riam de nervos, a comer depressa para irmos para a rua outra vez. A AvóAgnette não estava em casa, tinha ido a um funeral de última hora.
— Aqui em Luanda as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação! — a AvóCatarina dizia.
Uns remoinhos de vento levantavam a poeira do fim da tarde e as folhas do largo do Mausoléu dançavam no ar sem querer ir muito longe.
O camarada VendedorDeGasolina começava a fechar a bomba de gasolina, o EspumaDoMar dançava como se o vento fosse uma música de casamento e muitos trabalhadores, vestidos de fato-macaco azul e capacetes amarelos, saíam do portão principal do Mausoléu. Homens de mãos dadas, a rir, a tirar os capacetes, a beber umas poucas cervejas, a esfregarem os olhos por causa das lágrimas que a poeira inventa.
— Trabalhar deve ser muito chato — falou o Pi — todo mundo fica contente quando é hora de ir para casa.
(...)
— Já para dentro. Parece que vai chover e andas aí a correr a chamar as crises de asma.
Chuva assim de começar de repente sem dar tempo de dizermos que estava ainda só a pingar com cheiro bonito de tirar a poeira das folhas e incomodar os morcegos: em noites assim, eles não voam, ficam desorientados com os barulhos, foi a AvóCatarina que disse, porque os morcegos só vêem com os gritos deles, parece é radar, como os Migs quando voam à noite para ir bombardear as tropas dos sul--africanos carcamanos.
— No céu cabe tanta chuva, Avó?
— São os mortos a chorar ou a rir. Anda a morrer muita gente.
— Não assustes os miúdos, Catarina — a AvóAgnette pediu.
— As crianças não têm medo da verdade. A chuva limpa o mundo. Vou lá acima fechar as janelas.
Subi com a AvóCatarina para ver o ritual. As janelas, para dizer a verdade, estavam sempre fechadas, mas ela abria, muito mesmo, olhava a PraiaDoBispo ou alguma vizinha noutra casa, e fechava o par de janelas com estrondo, para que ninguém duvidasse que as janelas estavam mesmo abertas. A Avó saiu do quarto, e desceu.
Fui para o quarto de banho fechar a janela pequenina. Subi na sanita e espreitei, dali dava para ver o Mausoléu: na escuridão vi camiões chegarem e muitas caixas serem descarregadas por gente militar com aquelas fardas verdes-escuras. Apaguei a luz da casa de banho, para ninguém me ver de longe, aprendi isso num filme de guerra ou alguém tinha me contado. Eram vários camiões, muitas caixas, puseram tudo num barracão bem grande.
Os trovões começaram e a choradeira da AvóAgnette também.
— Meninos, todos para a casa de banho.
Os primos começaram a chegar, a casa de banho foi ficando cheia.
A luz foi, mas a AvóCatarina já tinha preparado a lamparina com cheiro enjoativo do azeite a ser queimado devagarinho. Aquele era o lugar que a AvóAgnette dizia que era seguro no caso de cair um raio no tecto da casa dela. Depois de estarem todos lá dentro, era sempre a mesma coisa:
— Cobriram os espelhos?
A AvóCatarina, sempre a rir sem medo dos trovões nem dos raios, mandava a Madalena pegar em toalhas grandes para tapar os espelhos maiores. Um lá em baixo, na sala, a cristaleira cheia de loiça antiga e o serviço de chá chinês, depois o espelho no quarto da AvóAgnette, e um redondo, todo pesado, que ficava no corredor.
— Menina Tchissola, menina Naima — a Avó ralhava — tirem imediatamente essas blusas encarnadas. Madalena, traz outra roupa para elas.
O vermelho, em toalhas, em tapetes ou mesmo nas blusas, também podia atrair raios e nesse caso era muito chato um raio tocar numa pessoa, porque parece que os raios vinham cheios de uma electricidade toda descontrolada. O 3,14 até me disse uma vez que eles deviam usar o foguetão do Mausoléu, que era tão alto, para apanhar esses raios e depois ligar directamente com os postes da PraiaDoBispo, assim nunca íamos ter problemas de falta de luz, mas disseram que isso não era possível, e talvez estragasse o aspecto embalsamado do camarada presidente AgostinhoNeto.
Felizmente a AvóAgnette se esqueceu de fechar a janela pequena e, junto com o barulho e a luz dos raios, começou a entrar uma frescura de mar para aliviar aquele ambiente de tanta gente a respirar mais a catinga dos que tinham vindo a correr.
A AvóCatarina ficava no quarto dela, na cadeira de balouçar, e parecia servir-se de uma «bebida quente», assim podia ser whisky ou aguardente, e deitava um bocadinho no chão do quarto dela.
— Para aqueles que já se foram e que esperam pelos outros...
Essa frescura de mar trazia um montão de cheiros que era preciso ficar de olhos fechados para conseguir entender aquela mistura como se fosse um carnaval de cores — as mangas ainda boas e verdes penduradas nas árvores, as mangas já roídas pelos morcegos, o cheiro esverdeado do sape-sape, a poeira escorrida das goiabas quase a caírem, a mistura do cheiro da pitangueira com a nespereira, cheiros de capoeiras com galinhas e porcos, o grito dos jacós e dos cães, dois ou três tiros de aká, um rádio que alguém esqueceu ligado na hora do noticiário em línguas nacionais, passos de pessoas que corriam para chegar a casa ou pelo menos a um lugar sem água de molhar e até, se já fosse tarde, os barulhos da padaria que ficava na rua de trás e onde se começava a trabalhar tão cedo, durante toda a noite, para ver se o pão no dia seguinte chegava quente na casa daqueles que afinal dormiram a noite toda. Quer dizer, o cheiro da chuva afinal é uma coisa difícil de explicar para quem não conhece bem a casa de banho na casa da AvóAgnette.
— Tás a dormir ou quê? — me perguntaram.
— Cala masé a boca. Tou a pôr a chuva dentro dos meus pensamentos.
— Ai é? Quando fores grande vais ficar maluco como o EspumaDoMar. E com pensamentos todos inundados.
— Mas pelo menos vou saber falar espanhol.
— Seu burro, ele fala cubano!
Um trovão tipo explosão de dinamite fez luz bem acesa e depois rebentou até estremecermos com medo de verdade, a AvóAgnette começou a fingir que estava a rezar, porque a AvóCatarina já nos tinha dito que a AvóAgnette não sabia rezar, esqueceu todas as rezas, só fica a fingir a mexer os lábios, que é como nós quando cantamos uma música em inglês e improvisamos sílabas de qualquer língua só emprestada no ritmo da música.
A AvóAgnette pegou na toalha de rosto, cobriu um espelho pequenino que estava em cima do lavatório. Lembrei da palavra dinamite, pensei que aqueles camiões podiam ser desse transporte escondido que afinal não queriam que os da PraiaDoBispo soubessem quando é que iam desplodir as casas para aumentar as obras finais do Mausoléu.
— Raio pode acender uma caixa de dinamite? — perguntei a um primo mais velho.
— Só se for o raio-que-te-parta, seu idiota.
Título: Avódezanove e o Segredo do Soviético
Autor: Ondjaki
Editor: Caminho

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