terça-feira, 20 de maio de 2008

Alguns Escritores - Eduardo Halfon

Conheci-o, de uma forma um pouco aleatória, à entrada de um autocarro, na Póvoa de Varzim, quando um polícia parecia prestes a passar uma multa a um carro mal estacionado na marginal, facto comum nas nossas estradas, mas pelos vistos uma surpresa para quem, como ele, vinha de outras latitudes. Conheci-o, é uma forma de dizer. Já o conhecia das páginas de um jornal, onde lera um dos seus contos/crónica/excerto de romance. Apenas não o reconheci logo, a minha cabeça demorou alguns segundos a processar aquele Eduardo em sons castelhanos.

Andava pelo hall do Hotel, pelas várias salas onde nos encontrávamos, como quem plana ligeiramente acima do chão, assinalando com o olhar as pequenas variantes que cada manhã nos traz. Reparava em tudo, desde o vocabulário dos empregados de mesa, às frases soltas dos mais velhos sobre este ou aquele pormenor da história do país, a forma como nós próprios olhamos os outros. Ia juntando as peças das várias respostas que cada um de nós lhe íamos dando, como se o mundo fosse um imenso puzzle sem fim, onde cada um vai colocando as peças que bem encontrar.

Ele sabe, com um saber profundo, alguns dos segredos que regem os bons livros, a vida literária no que de mais humano ela tem. Reconhece essas pequenas curvas que existem entre as letras, entre as palavras, entre as próprias páginas dos livros, e perseguirá até ao fim dos tempos os segredos das pessoas que compõem esse esquema alternativo do sonho. Procura os escritores e todos os seus hábitos, todas as suas manhas, todos os seus pequenos nadas que os fazem, e não há resposta científica para isto, embalar-nos daqui para outros universos. Talvez esteja seguro de que esta é a única forma de encontrar o comboio daqui para o paraíso da literatura.

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