sábado, 24 de maio de 2008

Algumas verdades difíceis de engolir II

O Público de ontem deu destaque ao estudo feito pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa onde se demonstra que mais de metade das famílias pobres vivem do seu próprio trabalho e que uma assustadora percentagem de 40% das famílias portuguesas viveram períodos de carência e pobreza, pelo menos uma vez, entre 1995 e 2000. Este estudo vem por em causa uma característica cultural portuguesa muito forte que acredita que os pobres vivem em barracas, são preguiçosos e subsidiados pelo Estado. Ao contrário, são nos agregados familiares onde há emprego e casa que a pobreza mais se faz sentir, no sentido em que são enormes as dificuldades para se conseguir viver com os baixos salários que se praticam em Portugal.

Num momento em que, talvez mais do que nunca, a especulação financeira coloca em maus lençóis a vida de cada um, onde se questionam as diferenças salariais entre os melhor e os pior pagos do país, onde se pressente que as dificuldades em se garantir um nível cultural e educativo elevado (não estou a falar do curso que se tira, mas do que realmente se aprende nesse curso), as dificuldades em encontrar empresas que abram portas, no lugar de as fechar, por todo o país, este estudo vem devolver-nos ao lugar a que pertencemos: um país da cauda da Europa, periférico, que vive acima das suas possibilidades e desdenha as suas potenciais vantagens em relação aos outros países da União.

Apostando na construção em lugar da natureza, no centro financeiro centro-europeu em lugar da plataforma com os países americanos e africanos de língua portuguesa, no diploma em lugar do conhecimento, na caridade em lugar da solidariedade, o país vai cavando o seu desaparecimento sob as águas. E vai-nos tudo parecer demasiado salgado quando quisermos beber um último copo de água.

Sem comentários:

Enviar um comentário