sábado, 31 de maio de 2008

Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas

(este texto foi a base da minha intervenção no Workshop Poéticas: Escrever: porquê, para quê, para quem? realizado na Faculdade de Ciências de Lisboa, no dia 30 de Maio, numa organização do Centro de Filosofia das Ciências da UL)

I

No romance Longe de Veracruz, Enrique, o narrador, vive grande parte da sua vida atormentado pelas escolhas artísticas dos seus dois irmãos: António, o escritor, e Máximo, o pintor. Cada um deles tem algo de peculiar: António escreve livros de viagens, os quais são muito elogiados pela crítica, apesar de nunca sair de casa nem despir o seu roupão enquanto escreve; é um viajante de sala e um inventor de histórias, e só inventando-as parece sentir-se bem, mesmo para além das que escreve nos livros. Máximo é um pintor repetitivo: incapaz de ser amado ou de encontrar, sequer, uma amante ocasional, pinta incessantemente noivas a quem impõe defeitos ou submete a escravidão em relação aos homens. Perante estes dois exemplos radicais de artistas, Enrique Tenório vai rebelar-se, anunciando-se contra a arte, a cultura e os artistas, preferindo viver a vida de forma aventureira no lugar de a viver pelos relatos dos livros.
Recorro a este exemplo para dizer que a literatura nasce muitas vezes da recusa da própria literatura. É o que acontecerá com Enrique, que acabará por escrever um livro. É o que acontece na minha poética (e na da tantos outros, embora eu não queira criar aqui nenhuma associação), que passa o tempo a dar importância literária a aspectos não-literários.

II

Defendem os mais velhos, talvez dotados de um certo espírito visionário inacessível aos jovens, que se deve esperar a morte de um autor para o trazer à universidade. Partindo desse princípio, arriscaria a dizer que é necessário que um autor exista para que se possa trazê-lo à universidade. Sem querer entrar na discussão (um pouco patética, mais das vezes) da existência ou não existência de um ente, considero claramente abusivo o facto de ter sido convidado a participar desta conferência, pelo simples facto de não acreditar na minha existência enquanto autor. Assim, considero que a minha presença aqui assenta em duas falácias:

1) que o facto de ter publicado alguns poemas espalhados por três livros com uma circulação menos que mínima, praticamente sem nenhuma recepção crítica, me torna passível de ser sequer mencionado numa sala de uma Faculdade.
2) que o meu nome possa ser associado a esta Faculdade pelo simples facto de, durante oito anos, a ter frequentado para uma licenciatura e um mestrado inacabado.

Sentir-me-ia muito mais confortável se não estivesse aqui nesta condição; já aqui estive noutra, falando de um autor que não eu, e a experiência, garanto-vos, não foi brilhante. Convidar-me a voltar para, ainda por cima, discorrer sobre o acidente de eu ser um autor, é qualquer coisa que só um louco poderia fazer. Mas acho que sobre isso, talvez a Golgona Anghel tenha algo a dizer no período de debate que se seguirá a esta conversa.

III

Podem os elementos não-literários ser o elemento central de uma poética? Sim – é pelo menos a defesa desse ponto que pretendo aqui fazer. Para começar, encontrando na Teoria da Literatura um ponto de suporte a esta ideia, visto que quer estudos filosóficos, quer estudos culturais, nos dão hoje ferramentas para essa aplicação. Longe da lógica barthesiana de análise do quotidiano, o que defendo é a introdução de elementos desses quotidiano na construção do poema, buscando nas leituras de acontecimentos depositados nas nossas memórias, algo que possa configurar o primeiro plano de aproximação ao poema. O poema é, de facto, um campo de batalha, ou de intersecção, se preferirmos imagens menos violentas, daquilo que vem das leituras que fazemos ao longo da nossa vida, com aquilo que julgamos adivinhar de nosso nessas leituras. Julgo que não estarei muito longe da verdade (ou, pelo menos, de uma verdade) se disser que se começa a escrever porque qualquer coisa naquilo que se lê se enquadra em uma outra das nossas experiências (sendo que, aqui, experiência significa, não só aquilo que vivemos, mas sobretudo aquilo que imaginamos).

IV

Podem estas duas coisas (experiência de vida e experiência de imaginação) andar juntas? Atrevo-me a dizer que sim. No meu caso, apelido essa conjugação de miopia. É a miopia que me faz imaginar coisas onde elas aparentemente não existem. É na miopia que nascem as minhas metáforas. Nunca me senti particularmente dotado para contar histórias nem, devido a um natural desinteresse pela linguística, fui capaz de converter as minhas imagens mentais em descrições límpidas e completas. Limito-me, assim, a escrever o que vejo, e logo seria terrivelmente aborrecido se não fosse míope porque é esse mesmo desvio que me possibilita enriquecer e diferenciar o meu discurso. O texto sai beneficiado pela névoa que me cobre o olhar e procuro completar as suas imagens desfocadas com as conversas que se ouvem ao longe (e que, logo, se compreendem mal), com a memória que é trapaceira habitual, e com as emoções, elemento mais instável desta impossível equação que tento fazer com a minha poesia.

V

Poesia tornada equação? Pode a poesia ser testada? Eventualmente não. Vivemos entre dois pesos que nos perturbam, constantemente, a leitura do poema. Por um lado a sociedade científica em que vivemos – a nossa civilização precisa de estatísticas, previsões económicas, certezas sobre a idade das pedras ou sobre a existência de água em Marte. Ao mesmo tempo, há quem acredite que um poema se lê e percebe consoante o humor do momento, ou quem tente, colocando dentro do depósito do carro todo e qualquer líquido aparentemente corpulento, encontrar o substituto do gasóleo.
Ou seja, o poema vai sobrevivendo entre a dissecação e a massificação como procura de um ponto de equilíbrio e, sobretudo, de um lugar dentro do universo das frases e das palavras onde se possa respirar. Essa procura passa por diversas etapas, mas não devemos interpretá-las como um método científico – antes é a oficina de trabalho do poeta onde a sua obra vai sendo apurada – e talvez esse seja um lugar onde não se devem efectuar visitas de estudo, porque rascunhos são sempre qualquer coisa longe do poema que só existe no momento em que o poeta o assume como terminado (e por aqui se depreende que um poema não é um filho, que nasce quando quer).

VI

Apresento-vos o método de preparação desta conferência.
Entre o convite e a apresentação de um título e um resumo para a citada conferência, recorri a algumas sínteses sobre a minha poética preparados para encontros anteriores. O resumo preparado assume aquilo que me parecem ser alguns princípios básicos do meu assumir-me como escritor.

Título:

Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas

Resumo:

Na minha comunicação vou abordar a elaboração da minha poética pessoal como uma constituinte de uma tradição de múltipla provocação entre a prática e a teoria da escrita. Os pontos-chave da comunicação serão as diferenças entre a prosa e a poesia, questões de linguagem como o restrito número de palavras disponíveis ao meu uso, problemáticas periféricas como a influência da miopia na visão poética ou questões emocionais como bens necessários à riqueza do texto. Toda a sessão estará gravemente ameaçada pelo risco anunciado no título da mesma.


Entre a entrega do título e do resumo, passaram-se imensos dias onde a importância da preparação da conferência surgiu como uma daquelas marcas na agenda, coisas que havemos de fazer um dia, na qual identificamos uma utilidade até para outros usos mas que adiamos. Isto até que chegou, finalmente, o dia.
Consultei, ainda, o meu professor Miguel Tamen, pedindo-lhe o plano de sessões do seminário que ele lecciona actualmente na Universidade de Chicago sob o título “Things poets say”. Entre o seu conselho e a possibilidade de consultar esses documentos na Internet, li as entrevistas concedidas ao “The Paris Review” pelos poetas Robert Frost, Ezra Pound, Robert Graves e W.H.Auden. Alguns contributos desses poetas poderão ser identificados (já muito mastigados) entre o corpo de texto aqui lido.
Terá sido também importante para a escrita deste trabalho, a leitura, ainda incompleta, do livro de Enrique Vila-Matas, Longe de Veracruz, e o visionamento da segunda parte do jogo de preparação entre as selecções de futebol da Inglaterra e dos Estados Unidos da América.
A maior parte deste texto foi escrito enquanto ouvia músicas de Samuel Úria, Bernardo Barata, Sébastien Tellier e Feromona.

VII

Termino respondendo ao para quê e o para quem, assumindo que gastei a maior parte do meu tempo falando do porquê.
Ao para quê respondo com a inevitabilidade. Não saberia dizer para quê porque não vejo uma razão para o fazer, antes acredito que sou impelido a fazê-lo, já não como adolescente que precisa de deitar fora palavras mas como quem encontra no acto de escrever uma forma de expressão necessária ao equilíbrio pessoal interior. Reforço, não tenho uma razão mas tenho uma necessidade. Uma necessidade que se segue de um trabalho (logicamente associado ao prazer) de fazer melhor, satisfazendo-me enquanto produtor de algo e também como leitor do meu trabalho.
Para quem, neste caso, escrevi para uma plateia imaginária que acaba por se materializar nos aqui presentes. Já escrevi poemas para pessoas determinadas, para eventos, para letras de músicas. A maior parte do tempo, escrevo para mim. Para mostrar a mim próprio que sou capaz. Sim, por puro gozo egocêntrico. Talvez esse seja mesmo o ponto essencial de qualquer poética. Uma grande dose de ego em busca de se expressar artisticamente.

Santa Cruz/ Torres Vedras, 28 e 29 de Maio de 2008

sexta-feira, 30 de maio de 2008

gingko teaser


ainda a reportagem da revista gingko. mais aqui.

Ninivitas feat. Heróis do Mar

versão experimental


agenda


concerto

ontem ao fim da tarde, Tiago Guillul, Samuel Úria y sus muchachos deram um grande mini-concerto acústico na Livrododia. Foi memorável para quem lá esteve. Há um filme, em preparação, onde se explica como Tiago Guillul se entregará às garras do capitalismo e como ter assistido a um jogo do Torreense mudou a vida de Samuel Úria.

Simplesmente histórico!

Nota: Para mais tarde ficará guardada a análise em tentarei explicar porque é que sempre que me refiro a Tiago Guillul ou Samuel Úria uso pontos de exclamação.

RLVA - as fotos


fotos e montagem João Paulo Barrinha

quinta-feira, 29 de maio de 2008

agenda

Amanhã, pelas 16 h30, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Edifício 8, sala 2. 23), a sexta mesa do workshop organizado pelo Centro de Filosofia das Ciências, " Poéticas - Escrever, porquê, para quê, para quem?"
Com:
-Luís Filipe Cristóvão (FLUL, moderador)Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas
-Cláudia Sofia Ferreira (FLUL)Reescrita: a história de uma viagem ao segundo nascimento e à eternidade
-João Araújo (CFCUL)Alguns modelos literários e as suas relações com as ciências

À volta dos livros

No seu número de Maio/Junho, a Revista Gingko apresenta dez livrarias que "se transformaram num ponto de encontro para amantes da literatura, da música, do teatro ou, até, dos prazeres da boa-mesa."

As livrarias em destaque são:
O Bichinho de Conto, Fábrica Braço de Prata, Livraria Livrododia, Garfos e Letras, Livrarias Almedina, Intensidez Bibliocafé, Livraria Arquivo, Gato Vadio, Livraria Fonte das Letras e Livraria Trama.

O artigo, assinado por Sara Raquel Silva e completado com um sugestivo ensaio fotográfico feito em alguns destes espaços, sugere um roteiro para amantes de livrarias dentro do nosso país. A revista tem site, mas o artigo só se encontra disponível na sua versão em papel.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Amanhã, faça chuva ou faça sol


É aparecer!

afinal...

Dizem por aí que um colectivo de livreiros independentes está para aparecer...

ver os ciclistas

eu e valex numa foto de joão pedro jorge

terça-feira, 27 de maio de 2008

O pequeno mundo pequeno

Num país pequeno como o nosso, somos muitas vezes levados a pensar que o mundo é, ele próprio, pequeno, já que muito facilmente encontramos nos grandes centros, pessoas ou referências aos meios urbanos médios onde vivemos. Assim, pensar que o mundo é pequeno implica pensar que conhecemos toda a gente que leu determinado livro, que um grupo musical pode proporcionar um encontro com todos os seus fãs em dado local do país, que fazemos todos exactamente as mesmas coisas, exactamente nos mesmos lugares. Existem espaços comerciais que nos são comuns, tal como programas de televisão, e chega a parecer um pouco estranho quando encontramos alguém que julgamos pertencer ao nosso mundo vivendo alheado de tais fenómenos.

Associado a esta sensação de que o mundo é pequeno, criou-se em Portugal uma das melhores redes de distribuição do mundo, sendo que se inovaram em regras e em soluções que, para países muito maiores e onde a diversidade de oferta, quer local, quer de nicho, é muito maior, dificilmente poderia ser coberta. Assim, construímos o que pode parecer um fenómeno – ter lojas espalhadas por um país onde a oferta é exactamente igual para todas as cidades, julgar as condições de um produto pela sua capacidade de cobrir todo o país, independentemente das suas qualidades em determinadas cidades ou regiões. Este é o formato utilizado em várias cadeias de hipermercados e em redes livreiras, por exemplo.

A lógica do país pequeno chegou, entretanto, ao mundo editorial. Com a aquisição de onze editoras, criou-se um grupo editorial que chega a ameaçar ser maior que o próprio mercado (pelo menos no discurso, é isso que tenta demonstrar). Ao adquirir onze editoras, algumas delas bastante diferenciadas em termos de oferta, com trabalho em diferentes nichos temáticos e com implantação regional em alguns dos casos, e pretendendo transformar essas onze num só projecto editorial, onde a imagem de cada um vai sendo absorvida, para além de, em nome do sucesso financeiro, reduzir pessoal e agrupar soluções que tornem a empresa mais eficiente. Acreditar que este é um projecto cultural seria no mínimo bizarro, e começamos a chegar a um ponto em que poderá até parecer que a compra de algumas destas editoras terá sido o preço a pagar para ter no grupo esta ou aquela pessoa, este ou aquele autor.

O risco que se corre após uma acção destas, é exactamente a sensação de se ser maior que o mundo, o mundo pequeno de que falava no início deste texto. E quando se acredita que o mundo é pequeno, muitas vezes perdemos a noção de que existem outras empresas que poderão fazer exactamente o mesmo que nós, mas de uma forma melhor. Ora, acontece que no mercado editorial, melhor não é uma medida exclusivamente financeira, mas detém especificidades ao nível da promoção, do conforto com a marca, da diferenciação do discurso. E aqui, um país pequeno tem as suas vantagens – não é necessariamente através do cheque que se chega mais depressa a todos os leitores.

pobreza e desigualdades

Tudo certo, mas não acha que defender isto agora possa parecer um pouco tarde para quem sempre o viu na frente do pelotão que nos trouxe até aqui?

pequena anotação sobre o nada

são sete e pouco da manhã, o dia ainda mal nasceu e só se percebe que isso aconteceu pela luz clara que entra pelas frinchas dos estores. ouve-se o mar, bravo, o vento a soprar contra as janelas. puxo a almofada para baixo do pescoço. fecho os olhos.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

afinal o que é preciso?

A semana passada enviei a 23 livreiros um e-mail com o seguinte texto:

Caros Amigos,
O sector do livro, em Portugal, passa por uma fase de reestruturação que tem levado à criação de grandes grupos económicos onde se juntam editores e livreiros. Perante este cenário, o papel dos pequenos empresários do ramo livreiro (ou livrarias independentes, como é mais comum serem chamados), vêem-se muitas vezes encurralados, por um lado, pelas condições impostas pelos grupos editoriais e, por outro, pela feroz concorrência dos grandes grupos livreiros.Numa situação destas, não faz sentido que as livrarias independentes não dialoguem entre si, delineando estratégias comuns de promoção do livro e dos seus espaços como lugares de fruição cultural. Assim, venho propor a realização de um encontro entre representantes do maior número possível de livrarias independentes, de modo a que se possa encontrar um caminho comum para o sucesso de cada um dos nossos projectos.

Até ao momento, recebi apenas uma resposta, agradecendo o envio, mas declinando a reunião.
Assim vai a caravana passando...

agenda


Amanhã, 27 de Maio, pelas 18 horas, Ondjaki apresenta, na Livrododia Centro Histórico, o seu novo romance.

quatro coisas nunca antes vistas por ali

Mulheres barbudas, carros de golfe, travellings anos 70, um cantor a inspirar hélio. Sébastien Tellier, Divine, na Eurovisão.

sábado, 24 de maio de 2008

questões de mercado

Contrariando todas as leis do marketing bloguístico, aqui estou eu, a escrever, a um sábado.

Poéticas - Escrever: porquê, para quê, para quem?

29-30 de Maio
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Edifício 8, sala 2. 23

Quinta 29 de Maio
1. 10h00 – 12h00
Eduardo Pellejero (CFCUL, moderador)A questão poética. Uma pergunta central, algumas respostas marginais
Ana Gaspar (CFCUL, UNL)Da psicanálise à poética: um olhar sobre a duplicidade na obra de Gaston Bachelard
Nuno Miguel Proença (CFCUL)O jogo, a cena e o sonho: Freud e o enigma da criação literária

2. 14h00 – 16h00
Antonio J. Alías Bergel (Universidade de Granada)Uma poética de leite, cacau, avelã e açúcar. Sobre a pós-poética de Nocilla Dream - Agustín Fernández Mallo
Enrique Alvarez (Universidade Complutense, Madrid)Miguel Labordeta: poesía y marginalidad
Gonçalo Zagalo (FLUL, CFCUL, moderador) Roberto Bolaño: Literatura e desterro

16h20 Apresentação do volume «Fora» da filosofia: As formas de um conceito em Sartre, Blanchot, Foucault e Deleuze(Eduardo Pellejero, Golgona Anghel, Organizadores), CFCUL, 2008.

3. 17h00– 19h00
Moisés Ferreira«Escrever, inscrever, escreviver
Alexander Gerner (CFCUL, moderador)Mergulhar, Responder, Gritar: Para uma poética da atenção em Paul Celan e Paul Valéry
Antonio Cardiello (FLUL)A tentação de escrever: exercícios de desengano em E. Cioran

Sexta 30 de Maio
4. 10h00 – 12h00
José Mário Silva Extinção e memória em W. G. Sebald: a ética do caminhante solitário
Golgona Anghel (FLUL, CFCUL, moderador)Da figura à boca. Uma mutação etopoética
João Pedro Cachopo (FCSH - UNL)A escrita de Nava: como tocar o céu sob as entranhas

5. 14h00 – 16h00
Catarina Pombo (CFCUL)Deleuze: um 'L' de Literatura
Fernando Machado Silva (Universidade de Évora, moderador)Antonin Artaud: interpretações de Jacques Derrida e Gilles Deleuze
Cláudia Madeira (Universidade Nova de Lisboa)Transpoéticas

6. 16h30 – 19h00
Luís Filipe Cristóvão (FLUL, moderador)Do grave risco de me interessar por coisas que não podem ser demonstradas
Cláudia Sofia Ferreira (ICS- UL)Reescrita: a história de uma viagem ao segundo nascimento e à eternidade
João Araújo (CFCUL)Alguns modelos literários e as suas relações com as ciências

Coordenação: Golgona Anghel e Eduardo Pellejero
No âmbito do projecto interno do CFCUL“Filosofia da Literatura e da Linguística”

o momento das nossas vidas

Mesmo dando-me feliz pela vitória do seu adversário, não posso deixar de me sentir identificado com aquele que foi, para mim, o homem da noite, John Terry, a demonstrar, num mínimo gesto, a grandeza trágica do homem e do espectáculo que é uma final de um grande campeonato de futebol.

Algumas verdades difíceis de engolir II

O Público de ontem deu destaque ao estudo feito pelo Prof. Alfredo Bruto da Costa onde se demonstra que mais de metade das famílias pobres vivem do seu próprio trabalho e que uma assustadora percentagem de 40% das famílias portuguesas viveram períodos de carência e pobreza, pelo menos uma vez, entre 1995 e 2000. Este estudo vem por em causa uma característica cultural portuguesa muito forte que acredita que os pobres vivem em barracas, são preguiçosos e subsidiados pelo Estado. Ao contrário, são nos agregados familiares onde há emprego e casa que a pobreza mais se faz sentir, no sentido em que são enormes as dificuldades para se conseguir viver com os baixos salários que se praticam em Portugal.

Num momento em que, talvez mais do que nunca, a especulação financeira coloca em maus lençóis a vida de cada um, onde se questionam as diferenças salariais entre os melhor e os pior pagos do país, onde se pressente que as dificuldades em se garantir um nível cultural e educativo elevado (não estou a falar do curso que se tira, mas do que realmente se aprende nesse curso), as dificuldades em encontrar empresas que abram portas, no lugar de as fechar, por todo o país, este estudo vem devolver-nos ao lugar a que pertencemos: um país da cauda da Europa, periférico, que vive acima das suas possibilidades e desdenha as suas potenciais vantagens em relação aos outros países da União.

Apostando na construção em lugar da natureza, no centro financeiro centro-europeu em lugar da plataforma com os países americanos e africanos de língua portuguesa, no diploma em lugar do conhecimento, na caridade em lugar da solidariedade, o país vai cavando o seu desaparecimento sob as águas. E vai-nos tudo parecer demasiado salgado quando quisermos beber um último copo de água.

Algumas verdades difíceis de engolir I

Os voos da CIA sobrevoaram mesmo Portugal. Ana Gomes, que durante imenso tempo foi investida no papel de louca da companhia, tinha razão. Os actuais membros do Governo dizem que nunca esconderam nada. Os anteriores ficam calados, como se não fosse nada com eles. A culpa há-de ser do barril de crude.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

entusiasmo

diz-me com quem andas

A Livrododia Editores vai estar na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão 172, junto com a Fenda, os Livros de Areia e a 90 graus. Os livrinhos, a preços convidativos, estão por lá, aos montes. Em boa vizinhança!

guardados para o fim

Às 15 horas, os pavilhões do Grupo Leya começavam, finalmente, a ser montados. Pela amostra da estrutura, iguais aos restantes. Novos. Mas iguais.

Ah, e para quem não está a ver onde vai ser a famosa Praça Leya, pois fiquem sabendo que vai ficar mesmo à porta da Tenda dos Pequenos Editores. Fará boa vizinhança?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Fui daqui para a Eurovisão

Laka, concorrente da Bósnia-Herzegovina, com a música Pokusaj.

O meu favorito da noite passada.

Eurovisão II

Oh Europe, where or where did it all go wrong....?

Dustin the Turkey, concorrente irlandês ao Euro Festival da Canção

Eurovisão I

Good Evening Europe, where have you been all this time?

Apresentador jugoslavo do Euro Festival da Canção.

à margem da alegria

A Feira do Livro de Lisboa começa no sábado, 24 de Maio, pelas 17 horas.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Esplanada do Rock


Alguns Escritores - Eduardo Halfon

Conheci-o, de uma forma um pouco aleatória, à entrada de um autocarro, na Póvoa de Varzim, quando um polícia parecia prestes a passar uma multa a um carro mal estacionado na marginal, facto comum nas nossas estradas, mas pelos vistos uma surpresa para quem, como ele, vinha de outras latitudes. Conheci-o, é uma forma de dizer. Já o conhecia das páginas de um jornal, onde lera um dos seus contos/crónica/excerto de romance. Apenas não o reconheci logo, a minha cabeça demorou alguns segundos a processar aquele Eduardo em sons castelhanos.

Andava pelo hall do Hotel, pelas várias salas onde nos encontrávamos, como quem plana ligeiramente acima do chão, assinalando com o olhar as pequenas variantes que cada manhã nos traz. Reparava em tudo, desde o vocabulário dos empregados de mesa, às frases soltas dos mais velhos sobre este ou aquele pormenor da história do país, a forma como nós próprios olhamos os outros. Ia juntando as peças das várias respostas que cada um de nós lhe íamos dando, como se o mundo fosse um imenso puzzle sem fim, onde cada um vai colocando as peças que bem encontrar.

Ele sabe, com um saber profundo, alguns dos segredos que regem os bons livros, a vida literária no que de mais humano ela tem. Reconhece essas pequenas curvas que existem entre as letras, entre as palavras, entre as próprias páginas dos livros, e perseguirá até ao fim dos tempos os segredos das pessoas que compõem esse esquema alternativo do sonho. Procura os escritores e todos os seus hábitos, todas as suas manhas, todos os seus pequenos nadas que os fazem, e não há resposta científica para isto, embalar-nos daqui para outros universos. Talvez esteja seguro de que esta é a única forma de encontrar o comboio daqui para o paraíso da literatura.

Visto de fora

João Miguel Tavares, sobre a Feira do Livro, no DN de hoje:

É um desconsolo, mas é mesmo assim: estar próximo dos livros não torna as pessoas mais inteligentes. Basta olhar para o conflito entre a APEL e a Leya a propósito da Feira do Livro e verificar como essa gente que faz da literatura a sua profissão consegue revelar uma tão grande falta de senso [...]

segunda-feira, 19 de maio de 2008

subscrevo

Subscrevo as palavras de Henrique Perdigão, publicadas na Rua de Castela:

Desiludido com a pobreza franciscana que rodeia o actua mercado do livro e com a falta de profissialismo que se verifica nas pessoas e organizações que o compõem, questiono:
Até quando?
Que mais é necessário acontecer para O LIVRO desempenhar o papel de actor principal e erradicar de vez com tanta gentinha que não se cansa de se colocar em bicos de pés, aparecer vaidosamente nos meios de comunicação social e transmitir a milhões uma desprestigiante imagem de incompetência?
Como LIVREIRO, lamento que O LIVRO e aqueles que com Ele trabalham, dignamente, ao longo de todos os dias do ano, sejam vitimas da arrogância, prepotência, falta de ética, amadorismo e vaidade de alguns Editores, que, ano após ano, no período que antecede a Feira do Livro, não olham a meios para atingirem os fins e aparecerem nos media pelos piores motivos.
Separar o trigo do joio está a ser uma tarefa dificil! Por ser assim, cada vez mais, a LATINA tem mais vontade em continuar e colaborar com os Editores que prestigiam O LIVRO e não desistem...

Henrique Perdigão

malagueta 9


Já está online o número 9 da revista Malagueta, desta vez com uma resenha sobre As sete estradinhas de Catete, do Paulo Bandeira Faria, da qual uma versão já havia sido publicada neste blogue. Não deixem de visitar o site da revista, para descobrir vários outros textos interessantes.

Feirar

Afinal, todos vão poder "feirar" à vontade - ainda não se sabe quando, mas vão. Teria este... se não tivesse outro sentido/ ser natural de um país subdesenvolvido. (Ruy Belo)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Atualizados

O Acordo está aprovado.

Agenda

Hoje à noite, na Livraria Trama, apresentação da Revista Literária Sítio 4, seguido de Concerto de Piano por Fernando M. Dinis.

A partir das 21h30, com entrada livre.

o valor e o interesse

O artigo de Hélder Robalo no DN de hoje põe os pontos nos ii acerca do que estamos a falar quando falamos de Feira do Livro, em termos económicos. 3 milhões de euros, em Lisboa, mais 2 milhões no Porto. Ao todo, 5 milhões de euros a dividir por todas as editoras participantes, num negócio em que só a Porto Editora factura 84 milhões/ano. Muito pouco, portanto. No mesmo artigo, editores da Quasi, Cotovia, Relógio d'Água e Guerra & Paz são unânimes em dizer que o mais importante na Feira é disponibilizar os fundos aos clientes. Fundos que já não tem lugar na maior parte das livrarias, devido a pressões de grande rotação e a um ritmo de mais de 1000 novidades por mês. Por isso vale de tão pouco o argumento do interesse público estar dependente dos livros do Saramago e do Lobo Antunes. Poderia era estar dependente da presença de estes dois e de muitos mais escritores que estivessem presentes, não só para a tradicional sessão de autógrafos mas para conversas nas várias esplanadas da Feira com os seus leitores. Também poderia estar dependente de uma programação cultural com apresentações de livros, sessões de leitura e concertos. Poderia, finalmente, estar dependente da organização poder garantir a presença de todos os editores, por muito pequenos que eles fossem, de modo a não esquecermos a diversidade do mundo editorial português.

Mas, enfim, o mundo anda mesmo de pernas para o ar...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Se é para gastar dinheiro à parva, vamos antes ao Eleven...

Duas horas fora do escritório, e mais uma bomba - a Gradiva, depois do abaixo-assinado que promoveu ao início do dia de hoje, sai da UEP.
Existem razões muito fortes para o abaixo-assinado da Gradiva ter todo o sucesso: de facto, são as pequenas e médias editoras quem investe mais (em termos comparativos) na Feira do Livro. Uma estrutura pequena, como é o caso da Livrododia, tem que juntar-se a outras pequenas estruturas, no caso, a distribuidora 90 graus e as suas várias editoras, para conseguir estar na Feira. É um esforço que fazemos, cujo o sucesso nos levanta dúvidas, mas que estamos dispostos a correr para disponibilizar os nossos livros aos visitantes da Feira. Para além desse esforço económico que representa para nós a presença na Feira, tentamos que vários dos nossos autores estejam presentes para sessões de autógrafos, bem como tentem, através dos seus contactos, levar as pessoas à Feira.
Isto não são peanuts, não são números, não são pavilhões inovadores (estou para ver!) - são pessoas, a dar tudo por tudo, para participar na Festa, a suar, a dar as horas que podiam ser descanso, para poderem passear pelo Parque e ver os seus livros ali expostos (Sim, Sr. Isaías, nós vamos à Feira desde pequeninos, nós sabemos o que é um livro do dia...).
Se isso é menos importante que o valor do cheque que poderá patrocinar a reeleição do Sr. António Costa, não sei. A mim custa-me ver a Feira assim deitada pelo Parque abaixo. E reafirmo que não teria mesmo graça nenhuma ver uma feira só do feita de Praça Leya. Ainda assim, a nós, aos pequenos, estas notícias levam-nos a ficar muito perto de desistir. Porque não é possível aguentar a incerteza de haver ou não feira. Porque o esforço que foi feito até agora, pode ter sido em vão. Porque o único resultado prático que isto pode ter, é colocar os pequenos do lado de fora da Feira. Como já foram ficando de fora de vários outros espaços...

Prémio 20.000

Ao menino ou à menina que comprovar ser o visitante 20.000 (contagem à direita), será oferecido um presente.

Festejaremos assim o lado bom do livro.

RLVA


É hoje à noite, na Cooperativa Comunicação e Cultura, em Torres Vedras, pelas 23 horas. PARDJARRAS no dj/vj set e CRISTÓVÃO na palavra, um live act não ensaiado (serve de aviso) onde se poderão ouvir palavras de Adrianne Pauly, Curt Kirkwood, Caetano Veloso, Carla Cook, Luiz Ruffato, António Orihuela, Alexandre O'Neill, David González, Martin Espada, José Luís Peixoto, Luís Filipe Cristóvão, Frederico Mira George e Boris Vian.

parece que andamos um pouco esquecidos de que...

...a Feira do Livro de Lisboa sempre foi organizada pelos editores.

(assim como alguns clubes se esquecem que as regras da Liga são criadas e aprovadas por eles próprios)

dos vários tipos de realidade

A posição tomada pela Câmara Municipal de Lisboa, suspensão da montagem da Feira do Livro, vem pôr em causa, não só a realização da feira, mas, a própria possibilidade de existir algum evento que reúna todos os editores portugueses. Não deixa de ser irónico que uma década de "guerra" entre APEL e UEP não feriu nunca de morte o maior evento do livro realizado em Portugal como a intervenção do Município.

Quais são as razões invocadas, então? Que a APEL não consegue garantir a presença de autores como José Saramago, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes e que não terá apresentado um layout final da organização da Feira. Se, no que toca ao layout, cai por terra o argumento, constatando-se as incertezas quanto a participações, quer de editoras que se inscreveram, quer de que editoras representarão, ou não, essas editoras previamente inscritas. Isso é algo que a organização não controla em ano algum, não vejo porque este ano seria diferente.

Já no que toca ao Interesse Público e ao subsídio que a Câmara poderá não entregar caso se verifique a ausência de livros de autores como José Saramago, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes, parece-me que se poderá iniciar aqui uma questão interessante. A Feira do Livro de Lisboa ( e todas as restantes feiras do país) serve para facilitar o acesso à diversidade de livros publicados por todas as editoras ou, como parece indicar o argumento camarário, serve para reforçar o peso de dois ou três nomes no panorama literário português? Quer se queira, quer não, livros destes três autores (que eu respeito profundamente, atente-se) podem encontrar-se em todas as livrarias, em inúmeras papelarias, em diversos hipermercados e estações de serviço por todo o país. Mas em quantos lugares podemos encontrar a tenda dos pequenos editores? Em que outro lugar podemos ter, ali à mão de semear, o fundo de catálogo dos Livros Horizonte? Em que lugar podemos conversar com diversos editores e comerciais de todas as editoras portuguesas? Onde mais podemos perceber o alcance do livro no tecido económico e cultural do nosso país? Em mais lado nenhum.

Existiu, até ao ano de 2007, uma possibilidade de ter ao alcance de toda a população (pelo menos das cidades de Lisboa e do Porto) aquilo que se vai produzindo pelo país em matéria de livro. Com o que se está a passar, corremos o risco de ter perante os nossos olhos Praças Leya em todas as livrarias e no Parque Eduardo VII e no Palácio de Cristal e na Feira de Coimbra e sabe deus onde mais. Que o senhor Presidente da Câmara de Lisboa não entenda isto por si próprio não me escandaliza - que não tenha alguém que o sussurre ao ouvido durante a sessão de câmara, é que me parece difícil de aceitar.

as coisas importantes

Ontem, estava eu no Colombo a apresentar o livro do Waldir, no meio da festa proporcionada pelos Tabanka Djazz, quando recebi as notícias da suspensão da montagem da Feira do Livro de Lisboa. A música dos Tabanka não me deixou receber a notícia como se fosse realidade. Naquele momento, eu estava muito muito longe, satisfeito como uma criança, a dar ao pé.

sms de aniversário

"Irmão, parabéns por teres aguentado mais um ano. Estás a ficar velho. Encontramo-nos dentro de um copo de rum, num dos tascos da cidade"

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Leya Lá

Com a compra do conjunto de editoras que fazia parte do grupo de investimento Explorer, a Leya é agora um enorme império de 11 editoras portuguesas + 2 africanas, e adivinham-se tempos cinzentos para o mercado do livro em Portugal. O que está acontecer com a Feira do Livro (lógica do quero/posso/mando), está também a passar-se com as livrarias independentes (que já levaram com novas condições de fornecimento independentemente do volume de compras, contrariando, inclusive, a opinião dos comerciais que trabalham directamente com essas mesmas livrarias). Prevejo que, entretanto, esta luta se estenda às chamadas grandes redes livreiras. Com 11 editoras, a Administração do Grupo Leya irá agora tentar rever, em baixa, as condições de fornecimento à Fnac, Bertrand e hipermercados. E vamos assim poder ver quem é que tem os dentes mais afiados.
Sobrará, como sempre, para os mais pequenos. Tendo que ceder na percentagem de uns, os números terão que ser compostos com aumentos nos descontos dos outros. Vivendo, como vive o Sr. Isaías, convencido que é o maior, as pequenas livrarias de nada lhe valem e não serão alternativa para a rotação dos seus livros - perante a dificuldade, compra-se, e talvez existam redes livreiras por aí, disponíveis, a serem compradas em breve. Será, prevê-se, uma negócio em circuito fechado. Avançou-se com a criação de grupos editoriais e talvez se tenha esquecido que Portugal e todas as suas editoras poderiam ser apenas um grupo, que mesmo assim seria um grupinho dos pequenos, a nível europeu. Esperar que o grupinho funcione só por si, é esperar demais, ainda por cima quando se tratam de aventureiros do papel, que julgam que tudo se vende e compra, independentemente do que vem dentro do embrulho.
Resta-nos esperar que venha alguém maior, de fora, com experiência e conhecimento no mercado dos livreiros, e compre o negócio de fachada do Senhor Pais do Amaral. Mas também fique ele sabendo que o negócio não será assim tão lucrativo. Cada peça que ele coloca fora do tabuleiro é um trunfo valioso para os seus "pequenos" concorrentes e, a pouco e pouco, o que eram fortes editoras individualmente vão perceber que o total de vendas alcançado não será, sequer, a soma das vendas de cada uma delas no ano anterior. E será esse o dia em que a realidade será mostrada ao outro lado do espelho.

Não Leya

Arrepio-me todo quando ligam do Grupo Leya para cá.

Temos marcada uma sessão de autógrafos com um autor do grupo, que vai lançar o seu novo livro no dia 23 de Maio. A sessão está marcada para dia 27. Tentando não fazer as coisas à pressa, o número de exemplares desejados já foi pedido, através do comercial que faz a nossa zona.

Agora, recebemos uma chamada do Grupo Leya dizendo que o título em questão (que vai sair dia 23 de Maio) ainda não está disponível (óbvio) e perguntam se o quero substituir por algum outro.

Será que há paciência para isto?

papéis

vou tirando cadernos e papéis soltos de dentro de uma mochila, que ficou guardada lá por casa, à espera de um dia qualquer em que alguém os quisesse ler. seguro os papéis, olho-lhes as manchas de tinta, e tento viajar para esses dias, entre 95 e 02, em que os textos foram escritos. a missão é simples - salvar, do meio das manchas, as frases que precisam de ser salvas. para poder avançar, respirar fundo, dormir no sossego de uma casa (cabeça)arrumada.

Agenda

Hoje, às 18h30, nova apresentação de Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, com a presença de Waldir Araújo e participação musical da banda Tabanka Djazz.

É em Lisboa, na Fnac Colombo. Venham dar-nos uma força.

cromos




Todos os campeões da europa de futebol, aqui.



terça-feira, 13 de maio de 2008

Oh, meu deus, não!!!

O monstrinho feio cresce.

Avódezanove e o Segredo do Soviético


Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.
Era um largo grande, com uma bomba de gasolina no meio, que virava rotunda para camiões e carros darem a volta a fingir que a cidade era grande.
O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:
— Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de diamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes...
Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.
Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa linda que todos dias me ensinava a cor azul: o mar grande, mais conhecido por oceano.
— Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera... Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!
Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.
— Aprendam meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e às asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.
Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só.
— As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direcção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa…
Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.
— Ainda vamos ver essas estrelas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes...
Na nossa varanda poeirenta, a AvóCatarina, irmã da AvóAgnette, aparecia devagar vestida de preto no antigo luto dela e os cabelos branquinhos como algodão fofo.
— Ainda de luto, dona Catarina? — perguntava a vizinha DonaLibânia.
— Enquanto a guerra durar no nosso país, comadre, todos os mortos são meus filhos.
A AvóNhé regava as plantas, os arbustos e as árvores com um fiozinho de água que aparecia às terças e quintas-feiras. Regava a goiabeira e a figueira, a árvore de sape-sape, as rosas, a palmeira e a mangueira. Depois molhava as escadas e as flores dos vasos.
— Meninos!, todos para dentro. Está na hora do lanche.
A hora do lanche era uma coisa complicada para nós: tínhamos que ir lavar os sovacos, as mãos e a cara antes de sentar à mesa. Comíamos meia fatia de pão, meia banana e um copo de água.
— Quem quiser pode também fazer ngonguenha mas com pouco açúcar que está quase a acabar.
Às vezes no caminho apanhávamos goiabas ou mangas que os morcegos tinham esquecido de atacar. Pouco depois das cinco, o camião com água dos soviéticos ia passar para acalmar a poeira da rua e dos passeios.
Um dos primos ficava com a missão de estar atento aos barulhos. O camarada VendedorDeGasolina acordava quando, dentro das obras do Mausoléu, o condutor soviético ligava o camião da água. Era o sinal. O maluco EspumaDoMar aparecia no portão da casa dele com um chicote pequenino a baloiçar com o vento nas pernas dele.
— AvóCatarina, é verdade que o EspumaDoMar tem um jacaré guardado no quintal dele, na casota do cão?
— Pode ser — a Avó ria.
— E jacaré cabe numa casota de cão?
— Se for pequenino.
Uns tinham medo dessa estória, outros riam de nervos, a comer depressa para irmos para a rua outra vez. A AvóAgnette não estava em casa, tinha ido a um funeral de última hora.
— Aqui em Luanda as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação! — a AvóCatarina dizia.
Uns remoinhos de vento levantavam a poeira do fim da tarde e as folhas do largo do Mausoléu dançavam no ar sem querer ir muito longe.
O camarada VendedorDeGasolina começava a fechar a bomba de gasolina, o EspumaDoMar dançava como se o vento fosse uma música de casamento e muitos trabalhadores, vestidos de fato-macaco azul e capacetes amarelos, saíam do portão principal do Mausoléu. Homens de mãos dadas, a rir, a tirar os capacetes, a beber umas poucas cervejas, a esfregarem os olhos por causa das lágrimas que a poeira inventa.
— Trabalhar deve ser muito chato — falou o Pi — todo mundo fica contente quando é hora de ir para casa.
(...)
— Já para dentro. Parece que vai chover e andas aí a correr a chamar as crises de asma.
Chuva assim de começar de repente sem dar tempo de dizermos que estava ainda só a pingar com cheiro bonito de tirar a poeira das folhas e incomodar os morcegos: em noites assim, eles não voam, ficam desorientados com os barulhos, foi a AvóCatarina que disse, porque os morcegos só vêem com os gritos deles, parece é radar, como os Migs quando voam à noite para ir bombardear as tropas dos sul--africanos carcamanos.
— No céu cabe tanta chuva, Avó?
— São os mortos a chorar ou a rir. Anda a morrer muita gente.
— Não assustes os miúdos, Catarina — a AvóAgnette pediu.
— As crianças não têm medo da verdade. A chuva limpa o mundo. Vou lá acima fechar as janelas.
Subi com a AvóCatarina para ver o ritual. As janelas, para dizer a verdade, estavam sempre fechadas, mas ela abria, muito mesmo, olhava a PraiaDoBispo ou alguma vizinha noutra casa, e fechava o par de janelas com estrondo, para que ninguém duvidasse que as janelas estavam mesmo abertas. A Avó saiu do quarto, e desceu.
Fui para o quarto de banho fechar a janela pequenina. Subi na sanita e espreitei, dali dava para ver o Mausoléu: na escuridão vi camiões chegarem e muitas caixas serem descarregadas por gente militar com aquelas fardas verdes-escuras. Apaguei a luz da casa de banho, para ninguém me ver de longe, aprendi isso num filme de guerra ou alguém tinha me contado. Eram vários camiões, muitas caixas, puseram tudo num barracão bem grande.
Os trovões começaram e a choradeira da AvóAgnette também.
— Meninos, todos para a casa de banho.
Os primos começaram a chegar, a casa de banho foi ficando cheia.
A luz foi, mas a AvóCatarina já tinha preparado a lamparina com cheiro enjoativo do azeite a ser queimado devagarinho. Aquele era o lugar que a AvóAgnette dizia que era seguro no caso de cair um raio no tecto da casa dela. Depois de estarem todos lá dentro, era sempre a mesma coisa:
— Cobriram os espelhos?
A AvóCatarina, sempre a rir sem medo dos trovões nem dos raios, mandava a Madalena pegar em toalhas grandes para tapar os espelhos maiores. Um lá em baixo, na sala, a cristaleira cheia de loiça antiga e o serviço de chá chinês, depois o espelho no quarto da AvóAgnette, e um redondo, todo pesado, que ficava no corredor.
— Menina Tchissola, menina Naima — a Avó ralhava — tirem imediatamente essas blusas encarnadas. Madalena, traz outra roupa para elas.
O vermelho, em toalhas, em tapetes ou mesmo nas blusas, também podia atrair raios e nesse caso era muito chato um raio tocar numa pessoa, porque parece que os raios vinham cheios de uma electricidade toda descontrolada. O 3,14 até me disse uma vez que eles deviam usar o foguetão do Mausoléu, que era tão alto, para apanhar esses raios e depois ligar directamente com os postes da PraiaDoBispo, assim nunca íamos ter problemas de falta de luz, mas disseram que isso não era possível, e talvez estragasse o aspecto embalsamado do camarada presidente AgostinhoNeto.
Felizmente a AvóAgnette se esqueceu de fechar a janela pequena e, junto com o barulho e a luz dos raios, começou a entrar uma frescura de mar para aliviar aquele ambiente de tanta gente a respirar mais a catinga dos que tinham vindo a correr.
A AvóCatarina ficava no quarto dela, na cadeira de balouçar, e parecia servir-se de uma «bebida quente», assim podia ser whisky ou aguardente, e deitava um bocadinho no chão do quarto dela.
— Para aqueles que já se foram e que esperam pelos outros...
Essa frescura de mar trazia um montão de cheiros que era preciso ficar de olhos fechados para conseguir entender aquela mistura como se fosse um carnaval de cores — as mangas ainda boas e verdes penduradas nas árvores, as mangas já roídas pelos morcegos, o cheiro esverdeado do sape-sape, a poeira escorrida das goiabas quase a caírem, a mistura do cheiro da pitangueira com a nespereira, cheiros de capoeiras com galinhas e porcos, o grito dos jacós e dos cães, dois ou três tiros de aká, um rádio que alguém esqueceu ligado na hora do noticiário em línguas nacionais, passos de pessoas que corriam para chegar a casa ou pelo menos a um lugar sem água de molhar e até, se já fosse tarde, os barulhos da padaria que ficava na rua de trás e onde se começava a trabalhar tão cedo, durante toda a noite, para ver se o pão no dia seguinte chegava quente na casa daqueles que afinal dormiram a noite toda. Quer dizer, o cheiro da chuva afinal é uma coisa difícil de explicar para quem não conhece bem a casa de banho na casa da AvóAgnette.
— Tás a dormir ou quê? — me perguntaram.
— Cala masé a boca. Tou a pôr a chuva dentro dos meus pensamentos.
— Ai é? Quando fores grande vais ficar maluco como o EspumaDoMar. E com pensamentos todos inundados.
— Mas pelo menos vou saber falar espanhol.
— Seu burro, ele fala cubano!
Um trovão tipo explosão de dinamite fez luz bem acesa e depois rebentou até estremecermos com medo de verdade, a AvóAgnette começou a fingir que estava a rezar, porque a AvóCatarina já nos tinha dito que a AvóAgnette não sabia rezar, esqueceu todas as rezas, só fica a fingir a mexer os lábios, que é como nós quando cantamos uma música em inglês e improvisamos sílabas de qualquer língua só emprestada no ritmo da música.
A AvóAgnette pegou na toalha de rosto, cobriu um espelho pequenino que estava em cima do lavatório. Lembrei da palavra dinamite, pensei que aqueles camiões podiam ser desse transporte escondido que afinal não queriam que os da PraiaDoBispo soubessem quando é que iam desplodir as casas para aumentar as obras finais do Mausoléu.
— Raio pode acender uma caixa de dinamite? — perguntei a um primo mais velho.
— Só se for o raio-que-te-parta, seu idiota.
Título: Avódezanove e o Segredo do Soviético
Autor: Ondjaki
Editor: Caminho

A gestão da paixão

Na semana passada, de visita a uma sala cheia de alunos de uma pós-graduação, ouvi falar das diferenças entre empresas (para o caso, livrarias) que são geridas por gestores profissionais e outras que têm à cabeça profissionais apaixonados pelo que fazem. Talvez se os elementos da sala fossem outros subsistisse alguma vergonha em dizer que há coisas que se fazem por paixão. Mas, tendo em conta que estávamos entre uma grande percentagem de apaixonados, a conversa pôde seguir por aí. Talvez o que mais me assuste seja aquela que parece ser a maior conclusão desta discussão: quem faz o que faz por paixão, parece estar muito mais motivado e atento a todos os pormenores que constituem o seu negócio. Quem o faz como gestor profissional, pelo seu lado, tem tendência a subjugar tudo à ditadura dos números.

Quando se fala de livrarias (e de uma forma mais abstracta, de empresas de trabalham na área do livro), existe uma componente de paixão que não é eliminável da equação. Principalmente porque, neste mercado, os clientes são apaixonados (por livros, por histórias, por papéis…). Se tentarmos eliminar esta componente, os clientes vão acabar por perceber – porque os livros do top passarão a ser-lhes estranhos, porque as montras parecerão manipuladas por gostos estrangeiros, porque os destaques não lhe serão suficientemente apetecíveis. Talvez exista em Portugal, entre as principais redes livreiras, um exemplo que tenta conciliar o profissionalismo e a gestão profissional, mas é uma entre várias e significará, em termos percentuais, apenas um terço do mercado.

Estarão, então, os clientes de livrarias em risco de estarem a ser enganados? A resposta é sim, mas, para o caso de não terem notado, praticamente todos os clientes de todas as coisas estão a ser enganados. O que acontece, no caso dos livros, é que as grandes redes de distribuição estão a fechar as suas portas ao que, eventualmente, vende menos (e aqui, vender menos, é vender menos mal, o problema do ponto de comparação serem sempre e apenas as «bestas céleres», como lhes chamava O’Neill). O que vai acontecer às pequenas editoras e livrarias que vivem da paixão dos seus clientes? Vão subsistir, claro. Mas o mesmo não se poderá dizer das editoras e livrarias médias, com estruturas que foram ganhando peso graças a um trabalho esforçado junto dos seus potenciais clientes e que serviram, muitas vezes, de flor na lapela para as grandes redes distribuidoras (essas livrarias que gostavam de dar destaque ao diferente, e que agora mudam de política de loja, ou as distribuidoras que precisavam de um trunfo, mas que não apresentam suficiente liquidez para o pagar).

Passa por cada um de nós a subsistência das livrarias e das editoras que amamos. Porque as devemos promover, procurar, acompanhar, fazer parte delas. Devemos ter nós a capacidade de não deixarmos que os gestores façam o filme sozinhos. Nós também temos direito a fazer parte. Porque há muita poesia, muito ensaio, muito romance aparentemente não destinado às massas que vão ser os livros necessários a todos aqueles que vierem depois de nós. E, mesmo que seja uma frase batida, somos nós que fazemos a cama de quem se vier deitar nesta terra logo a seguir. Convém que esteja bem feita. Não estejamos nós a alimentar os números de uma conta que não vamos querer fazer.

esta coisa das revistas

(Rui Estrela e Luís Filipe Cristóvão, numa foto de Ozias Filho)

Editorial da Revista Literária Sítio 4

Porque existem revistas literárias? No mercado dos livros, que é o campo onde a literatura se exerce acessível a todos, cada vez se tem mais dificuldade para encontrar propostas literárias de qualidade – o livro mais vendido, o mais procurado, o mais falado nas páginas dos jornais e nos programas da televisão é de outro domínio, desde a auto-ajuda à leitura de avião (ou de elevador) (ou porque é que será que se insiste em querer utilizar a máquina para voar se em tantas páginas se viaja muito além do infinito?).
Porque existem revistas literárias? Pois as pessoas parecem não ter tempo para mais nada que não seja o acordar cedo, tomar o pequeno-almoço à pressa, sair a correr para apanhar o autocarro, resolver todos o máximo de problemas com três e-mails, acenar de passagem a alguém conhecido do outro lado da rua, cumprir metas e objectivos atrás uns dos outros, sem momento algum na vida para o parar, o respirar fundo, o saborear no papel a leitura de uma escrita experimental que é aquela que sempre encontra lugar nestas revistas.
Porque existem revistas literárias? Porque continuam grupos de pessoas a fazer revistas como a Sulscrito, a Big Ode, a Textos e Pretextos, porque continuamos ansiosos por mergulhar nessas páginas de traços distintos, porque queremos publicar os nossos textos nesses cadernos de papel tão destinados pelos mestres da comunicação ao caixote do lixo da humanidade? Porque continuamos a acreditar, sim, porque esse é o papel do editor de uma revista literária, que podemos, de uma qualquer forma inexplicável, mudar, um pouco que seja, o mundo?
Porque existem revistas literárias? Porque tu chegaste aqui, ao fundo da página, e vais continuar a namorar os textos daqueles que connosco colaboraram para a realização deste número, navegando, fora do mercado, fora do tempo, fora do mundo, neste Sítio.

Luís Filipe Cristóvão


segunda-feira, 12 de maio de 2008

neste mundo que é o nosso

morre-se de amor

há qualquer coisa naquele rapaz

Surpresas destas, acontecem poucas vezes, de tão atentos que julgamos ser perante tudo aquilo que acontece no mundo dos livros. Talvez a própria biografia do autor justifique, no entanto, esta capacidade. Do que falo? Quarenta romances de cavalaria foi, para mim, o melhor livro de poesia do ano de 2006. Qualquer coisa de mágico acontece naquelas páginas, que se podem abrir à sorte, que sempre nos levam a algum segredo, a algum momento de encanto pela força da palavra no papel. No sábado passado, um pouco antes da hora de almoço, sentei-me em frente às prateleiras de poesia da minha livraria e, sem que eu saiba como ali chegou aquele livro, lá estava, ao lado do melhor livro de poesia de 2006, um outro título de poesia do mesmo autor, também publicado em 2006, Caixa Negra - vol.1.
Quase nunca as coisas boas chegam assim, aos pares. Muito menos com dois anos de distância. Mas ele lá está, a descansar sobre o meu sofá, onde o deixei ontem à noite, antes de ir para a cama. A mesma capacidade de surpreender, a mesma estranha força das palavras presentes muito além do papel que temos entre os dedos. E a seguir ao encantamento, sempre um certo temor da possível orfandade que se seguirá. Por onde andará Frederico Mira George?

Quando chega a Primavera?*

A Revolução Iraniana chegou-me hoje, pelo correio, da Holanda.

* Joana Serrado, Tratado de Botânica, Quasi, página 32

olá vizinho!


O Jorge Reis-Sá instalou-se num novo blogue, ali na Rua de Castela.

sábado, 10 de maio de 2008

Feira do Livro


Eu vou ao Parque para ver isto e para ver os livros. O resto, por muito que custe a alguns que andam na vida sempre a achar que tudo é muito sério, são tretas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

RLVA


RLVA, uma instalação sensorial com relva natural, a partir de amanhã e durante toda a semana, na Cooperativa de Comunicação e Cultura, em Torres Vedras.
Destaque para dia 15 de Maio, às 23 horas, PARDJARRAS + CRISTÓVÃO, Dj set/Poesia/Live Act.

Espera lá, agora não percebi... - II

Afinal o Grupo Leya vai à Feira do Livro de Lisboa.
Afinal há um ofício do Vereador Rui Pereira que lhes permite utilizar pavilhões diferenciados.
Afinal estava tudo acordado com a APEL.
Afinal estavam apenas todos a brincar com a tropa.

(meninos bonitos...)

Espera lá, agora não percebi...

Então a APEL organiza eventos culturais e os sócios da UEP não se inscrevem devido "ao menor interesse comercial" que a Feira do Livro do Porto tem tido?

(meninos feios, ts ts ts)

Os Livreiros não têm tempo ...

... mas ainda assim lá nos juntámos, ontem, para falar aos alunos do curso de pós-graduação em Edição da Universidade Católica. Trama, Férin e Livrododia são três livrarias com projectos bem diferentes, mas o facto de sermos independentes coloca-nos perante as mesmas dificuldades: falta de comunicação com as editoras e distribuidoras que nos fornecem, concorrência desleal das grandes cadeias que se instalam (quase) à nossa porta, quebra de vendas devido ao aumento dos preços das novidades praticados pelas editoras.

No fundo, não há muita solução para isto a não ser aquela que tentei apresentar ontem - diversificar o negócio até que, se um dia a manutenção da livraria não compensar, reestruturar o negócio para se vender outra coisa. Não estou a inventar nada, é algo que já aconteceu a muitas empresas e sempre é melhor do que fechar portas (sim, porque os negócios bem pensados não fecham portas, espero eu).

Ainda assim, as editoras e distribuidoras continuam a trabalhar no equívoco dos números do mercado: baseando 80 a 90% das suas vendas em três ou quatro operadores, já ficaram reféns de todos as condições que eles lhe impuserem. E quando a política for tentar ter visibilidade nas livrarias independentes, já não terão capacidade para lá colocar os livros. Enfim, como dizia Lord Keynes, "a longo prazo, vamos todos estar mortos". Por isso, porque não continuar do lado dos sonhadores enquanto estamos vivos?

Acordar e ser Virgínia Woolf


Há razões e razões - II

E se o Grupo Leya não estiver nas Feiras do Livro só para não fazer o desconto de 40% nos livros do dia, já que é política da casa não praticar esses descontos em nenhuma ocasião?

Há razões e razões

E se a razão do Grupo Leya não estar presente nas Feiras do Livro não tiver nada a ver com posicionamento de mercado, e tudo a ver com dificuldades logísticas na organização dos seus armazéns?

quinta-feira, 8 de maio de 2008

falar da vida

Quinta-feira, dia 8 de Maio, pelas 20 horas, vou estar no Curso de Pós-Graduação em Edição de Livros e Novas Tecnologias da Universidade Católica de Lisboa, a falar sobre a minha experiência de livreiro. Para a conversa, estará também o Ricardo Ribeiro, da Livraria Trama, e o João Paulo Dias Pinheiro, da Férin.

É no edifício da foto, Sala Brasil.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Caçadeira Pop

No dia em que o João Andrade vai andar pela Praça de Cibeles a festejar (uma vez mais) o título do Real Madrid, dedico-lhe esta Brava Dança dos Heróis, com uma excelente actuação estética do Rui Pregal da Cunha, antecedido de um discurso, a condizer, do Rui Reininho. A dedicatória é feita ao João, e ele sabe porquê.

Apenas lembrar que isto era Portugal há 20 anos atrás.

A Leitura Infinita - José Tolentino Mendonça

A Bíblia? «Socorro, meu Deus!»

A dado momento, conta Flaubert, Santo Antão, agitado pelas maiores fraquezas, pede a Deus coragem e entra na sua cela. Acende uma fogueira que lhe permita fixar as letras do grosso volume. E cambaleando ainda, entre fantasmas que o empurram para as derivas que ele não quer, abre a Bíblia sucessivamente (cinco vezes, precisa a novela) em busca de protecção. Das cinco vezes, porém, fecha o livro e as mãos tremem-lhe. As obsessões contra as quais ele pugna, na depurada via da ascese, vêm incontroláveis ao seu assalto nas descrições do texto sacro. Uma voz do céu ordena que coma da grande toalha que desce sobre a terra, cheia da peçonha de répteis e quadrúpedes que ele detesta. A violência, o sangue e o desmando misturam-se com a névoa de sortilégios baços e de presságios, e de tudo isso ele foge… Como veneno doce, o perfume da vã glória adormece a paisagem e pretende lançar-se sobre ele. Michel de Foucault diz, no prefácio à obra de Flaubert, que o eremita percebe que «o Livro é o lugar da tentação». Por isso, afasta de si a Bíblia, gritando pelo socorro de Deus.
A história que Flaubert conta sobre Antão, no fundo, o que conta? Que é inútil impor ao texto um programa de compreensão, quando nos é pedido o contrário: que nos exponhamos ao texto, na nossa fragilidade, a fim de receber dele, e à maneira dele, um eu mais vasto. Na verdade, que a Bíblia é lugar de prova só o não sabe quem nunca dela se aproximou. Livro Sagrado para crentes de mais de uma religião, superclássico da literatura, chave indispensável de decifração do pensamento e da história, objecto interminável de curiosidade, recepção e estudo, a Bíblia solicita, evidentemente, uma arte da interpretação. Ela tem uma espessura histórica inalienável que é preciso considerar: escrita há dois, três mil anos, em línguas com uma expressividade muito diferente da que têm as nossas, numa gramática singularíssima, gravada sobre a água, sobre o corpo, sobre o lume, abarcando géneros tão meticulosos e díspares que, por si só, representam um desafio colossal a qualquer leitor. Mais do que um livro, é uma biblioteca: pode ser lida como cancioneiro, livro de viagens, memórias de corte, antologia de preces, cântico de amor, panfleto político, oráculo profético, correspondência epistolar, livro de imagens, texto messiânico. E colada a esta humana palavra… a revelação de Deus.
Cipriano (200-258) dizia: «Se, na oração, falamos com Deus, na leitura da Bíblia Deus fala connosco.» Jerónimo (347-420), escrevendo a um discípulo recomendava: «Não separes nunca a tua mão do Livro, nem distancies dele os teus olhos.»Cassiodoro (490-583) referia-se à farmácia da lectio: «Como um campo fecundo produz ervas odorosas, utéis para a nossa
saúde, assim a lectio divina oferece sempre cura para a alma ferida.» E é ainda a imagem campestre que serve a João Damasceno (675-750): «Batamos à porta desse belíssimo jardim das Escrituras.» Poderíamos multiplicar por mil os aforismos deste tipo, que mostram como a tradição cristã se pensou, desde o princípio, como uma prática de leitura. Uma infinita leitura.

Título: A Leitura Infinita - Bíblia e Interpretação
Autor: José Tolentino Mendonça
Editor: Assírio & Alvim

terça-feira, 6 de maio de 2008

Sítio 4


Centros Comerciais cheios aos domingos

«Em termos pessoais, fazer a revolução, não me interessa minimamente» – disse aquilo com um ar desarmante, sentado à mesa do Café di Roma, nos Armazéns do Chiado – era domingo à tarde e umas quantas pessoas passeavam-se vagarosamente pelos corredores do centro comercial, talvez não muito dispostas a comprar seja o que for, apenas satisfeitas com o facto de poderem passear livres por grandes superfícies comerciais mascaradas de agrupamentos de lojas independentes.

Enquanto bebericava o café tentou expor melhor o seu argumento – as pessoas são felizes assim e precisam de algo para fazer ao domingo. Ou seja, o Terreiro do Paço está fechado ao trânsito, mas ali praticamente não há cafés e nas esplanadas da Baixa cobram os olhos da cara pelo que é, muito resumidamente, um nada de água misturada com um quase nada de café moído. Para além disso ou está muito calor ou um vento frio – podia até ser este o slogan do Portugal para vender lá fora, excessivo.

E então demonstrou o que quase ninguém parece querer ver – qual é a diferença entre um Modelo situado à beira da saída da cidade e um aglomerado de lojas dentro de um prédio? Qual é a diferença entre cinco mil metros do mais variado tipo de mercearia debaixo de um só nome e cinco mil metros do mais variado tipo de mercearia debaixo de cinquenta nomes? O pequeno comércio só sofre com os hipermercados? Ou ter uma loja no centro comercial é agora encarado como o cooperativismo comercial?

Ter, portanto, na lei, que comprar um DVD no Continente é diferente de comprar um DVD na Fnac, ou que por a Byblos ter mais metros quadrados do que a Bertrand do Chiado os seus trabalhadores merecem folga obrigatória ao domingo à tarde, não faz nenhum sentido. Há que procurar, algures entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, a razão pela qual os portugueses trocaram as actividades ao ar livre pelo ar condicionado dos grandes espaços comerciais. Qualquer coisa como um festejo dominical para o nosso ego centrado nos índices económicos europeus. O resto, é conversa (de café).

O Preço da Venda

Alexandra Lucas Coelho, no Público de ontem.

Qualidade de Vida

Foram atribuídas as Bandeiras Azuis para o ano 2008. No Concelho de Torres Vedras, as sugestões são Santa Cruz - Centro (a 5 minutos de casa, a pé) e Santa Rita - Norte ( a menos de 10 minutos de carro)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Livro de Job

Quando Deus avisa Job para não se meter no que não é chamado, Deus está a falar a sério.

o mundo era demasiado pequeno para nós os dois...

... vai daí, decidimos ficar juntos. Agora já podem encontrar os meus livros na FNAC.

Os coisos


Primeiro episódio da nova aposta humorística da RTP para os domingos à noite, Os Contemporâneos, mostram ser uma série cheia de potencialidades, mas ajudam-me a construir uma pequena teoria sobre o humor em televisão: de facto, o que lixa tudo são os actores. O Herman José era brilhante quando escrevia os seus próprios textos e começou a ser fraquinho quando os textos são escritos por outros. Os Gatos são interessantes por isso mesmo, porque escrevem os seus próprios textos, têm total noção das suas próprias limitações e possibilidade de fazer piada com isto ou com aquilo. N´Os Contemporâneos, há um actor maior que o mundo, o Nuno Lopes, e depois os supostos actores humorísticos que tendem a exagerar um pouco aquilo que está escrito. Deixassem a série nos corpos (para além de lá terem as mãos) do Nuno Markl e do Eduardo Madeira e seria, provavelmente, inesquecível. Como não deixo de ter esperança, espero que mais tarde ou mais cedo, Bruno Nogueira, Maria Rueff, Gonçalo Waddington, Dinarte Branco e Carla Vasconcelos apareçam menos nos próximos episódios. É que, estando toda a produção humorística dos últimos anos nas mãos dos mesmos tipos (Produções Fictícias), a culpa de haver material tão bom e material tão mau só pode mesmo ser dos actores.
P.S.: Esta teoria baseia-se num princípio duvidoso de que a culpa é toda dos jogadores e nada do treinador. Mas que se lixe!

quinta-feira, 1 de maio de 2008